Reflexões sobre espaços livres na forma urbana

LIVRO 2_Reflexões sobre espaços livres na forma urbana-1

Reflexões sobre espaços livres na forma urbana / Organização de Silvio Soares Macedo, Vanderli Custódio, Verônica Garcia Donoso. – São Paulo: FAUUSP, 2018.

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OS SISTEMAS DE ESPAÇOS LIVRES NA CONSTITUIÇÃO DA FORMA URBANA CONTEMPORÂNEA NO BRASIL: PRODUÇÃO E APROPRIAÇÃO – QUAPÁ-SEL II
Silvio Soares Macedo, Eugenio Fernandes Queiroga, Ana Cecília de Arruda Campos, Rogério Akamine, Fábio Mariz Gonçalves, Fany Galender, João Meyer, Jonathas M. P. Silva, Helena Silva Degreas, Vanderli Custódio

OS  SISTEMAS  DE  ESPAÇOS  LIVRES  NA CONSTITUIÇÃO  DA  FORMA  URBANA  CONTEMPORÂNEA  NO  BRASIL:  PRODUÇÃO  E  APROPRIAÇÃO  –  QUAPÁ-SEL  II

 

Prof.  Dr.  Silvio  Soares  Macedo  (FAUUSP)
Prof.  Dr.  Eugenio  Fernandes  Queiroga  (FAUUSP)
Profa.  Dra.  Ana  Cecília  de  Arruda  Campos  (PUC-Campinas)
Prof.  Dr.  Rogério  Akamine  (Pesq.  Lab.  QUAPÁ)
Prof.  Dr.  Fábio  Mariz  Gonçalves  (FAUUSP)
Arq.  Fany  Galender  (Pesq.  Lab.  QUAPÁ)
Prof.  Dr.  João  Meyer  (FAUUSP)
Prof.  Dr.  Jonathas  M.  P.  Silva  (PUC-Campinas)
Profa.  Dra.  Helena  Degreas  (Lab.  QUAPÁ) 
Profa.  Dra.  Vanderli  Custódio  (IEB-USP)

 

Introdução

 

Este  projeto  de  pesquisa  dá  continuidade  ao  Projeto  Temático  de  Pesquisa  “Os  Sistemas  de  Espaços  Livres  e  a  Constituição  da  Esfera  Pública  Contemporânea  no  Brasil  –  QUAPÁ-SEL”. Tal  projeto  foi  concluído  no  quatriênio  entre  março  de  2007  e  abril  de  2011,  foi  formulado  pelo  Laboratório  QUAPÁ  da  FAUUSP  e  teve  como  coordenadores  nacionais  os  doutores  Silvio  Macedo  e  Eugenio  Queiroga  (respectivamente  coordenador  e  vice  coordenador  do  Laboratório  QUAPÁ).  O  QUAPÁ-SEL  foi  apoiado,  no  Estado  de  São  Paulo,  pela  FAPESP  (Projeto  Temático  de  Pesquisa  e  bolsas  de  iniciação  científica,  mestrados  e  doutorados,  para  vários  integrantes  do  projeto,  orientados  por  Macedo  e  Queiroga),  e  pelo  CNPq  (bolsas  de produtividade  em  pesquisa  –  ambos  –  e  bolsas  de  iniciação  científica  para  orientandos  e  da  CAPES  (bolsas  de  mestrado  e  outros  auxílios  a  integrantes  do  projeto).

O  QUAPÁ-SEL  criou  e  consolidou  a  maior  rede  nacional  de  pesquisa  na  subárea  de  Paisagismo,  contando,  atualmente  com  núcleos  de  pesquisadores  nas  seguintes  universidades:  UFSM,  UFSC,  UFPR,  USP,  PUC-Campinas,  UFRJ,  UFMG,  UFES,  UFAL,  UFPE,  UFRN,  UNIFOR,  UNAMA  e  UFMS.  Nestes  núcleos  foram  realizadas  inúmeras  pesquisas  desde  o  nível  da  iniciação  científica  até  mestrados  e  doutorados.  Realizaram-se  23  oficinas  de  pesquisa  em  todas  as  regiões  do  país  e,  até  2010,  foram  cinco  Colóquios  QUAPÁ-SEL  –  encontros  anuais  dos  pesquisadores  da  Rede  QUAPÁ-SEL.  Os  resultados  parciais  da  pesquisa  foram  publicados  na  forma  de  artigos  em  revistas  científicas  da  área,  inclusive  em  número  especial  da  Revista  Paisagem  e  Ambiente  (n.  26);  livro  organizado  por  Vera  Tângari,  Rubens  de  Andrade  e  Mônica  Schlee  (2009)  e  vários  trabalhos  apresentados  em  eventos  científicos  internacionais  –  ISUF  e  IFLA  –  e  nacionais  –  ENEPEAs,  ENANPARQ  e  ENANPURs.O  Laboratório  QUAPÁ  se  constitui  dos  seguintes  pesquisadores,  além  de  seus  coordenadores  nacionais:  Dra.  Vanderli  Custódio  IEB/USP,  Dr.  Fábio  Mariz  Gonçalves  (FAUUSP),  Dr.  João  Meyer  (FAUUSP),  Arqta.  Fany  Galender,  Pesquisadora  do  LAB-QUAPÁ  e  Prefeitura  Municipal  de  São  Paulo,  Dr.  Rogério  Akamine  (UNINOVE),  Dr.  Jonathas  M.  P.  Silva  (PUC-Campinas),  Dra.  Ana  Cecília  de  Arruda  Campos  (LAB-QUAPÁ-  PUC-Campinas),  Dra.  Helena  Napoleon  Degreas  (FIAM  FAAM)  e  com  a  colaboração  do  Ms.  Roberto  Vignola  Jr.  Paisagista  (LAB  –  QUAPÁ/Prefeitura  Municipal  de  São  Paulo)  e  do  Dr.  Manuel  Lemes  (PUC-  Campinas).Pontos  de  reflexão  do  projeto  Quapá  SelConceituação  dos  espaços  livres:

  1. Compreensão das  bases  técnicas  e  conceituais  dos  gestores  e  as  iniciativas  de  qualificação  dos  espaços  livres  –  durante  o  período  foram  feitas  visitas  e  contatos  com  entidades  gestoras  dos  espaços  livres  nas  cidades  em  estudo,  ao  menos  uma  por  cidade,  de  modo  a  avaliar  seu  papel  na  constituição  dos  sistemas  e  detectar  dificuldades,  sucessos  e  conflitos;
  2. A estruturação  recente  dos  sistemas  de  espaços  livres  em  centros  urbanos  importantes  do  país;
  • A relação  de  dependência  existente  entre  os  espaços  livres  públicos  e  privados;
  1. A pertinência  dos  processos  de  planejamento  dos  sistemas  de  espaços  livres  vigentes  no  país.  O  resultado  para  nós  é  bastante  satisfatório,  de  um  lado,  pois  os  investimentos  em  espaços  livres  são  de  grande  monta,  por  outro  aspecto,    se  mostrou  criticável,  pois  as  estruturas  de  gestão  em  geral  estão  bastante  aquém  dos  investimentos  feitos,  não  conseguindo  suportar  uma  manutenção  constante  da  totalidade  dos  espaços  dos  sistemas;
  2. A contribuição  dos  diversos  sistemas  de  espaços  livres  para  a  constituição  da  esfera  pública  –  a  discussão  do  conceito  esfera  pública  e  sua  relação  com  alguns  dos  tipos  de  espaços  públicos;
  3. Complementação do  banco  de  dados  do  laboratório  QUAPÁ  –  durante  o  período  foram  criados  100  mapas  temáticos  principais,  especialmente  concebidos  e  desenvolvidos  para  a  pesquisa  e  a  partir  deles  foram  gerados  já  mais  150  mapas  de    Foram  ainda  feitas  cerca  de  25.000  fotos  aéreas  e  de  chão  dos  sistemas  de  espaços  livres  em  estudo,  que  foram  incorporadas  ao  banco  de  imagens  do  laboratório.  Este  material  está  todo  disponível  para  consulta  no  Laboratório  QUAPÁ  e  nos  núcleos  que  constituem  a  rede  de  pesquisa  QUAPÁ-SEL.  Revisão  dos  modelos  e  conceitos  que  direcionam  o  pensamento  gerador  de  planos  de  espaços  livres  e  afins.

Dos  métodos  adotados  –  colóquios  e  oficinas

O  modelo  foi  aprimorado  e  sua  formatação  final  já  foi  inclusive  aplicada  por  outros  grupos  de  pesquisa  em  Vitória,  Florianópolis  e  Rio  de  Janeiro. Organizamos  pelo  Brasil  23  oficinas,  uma  por  cidade  pesquisada  e  duas  em  São  Paulo.  Foi feita  neste  ano  de  2011  uma  oficina  em  Porto  Alegre  complementando  em  continuidade  aos  trabalhos  da  pesquisa.

Os  colóquios  foram  criados  pela  necessidade  de  congregar  os  pesquisadores  da  rede  em  um  mesmo  lugar  de  modo  a  se  entabular  discussão  ampla  sobre  as  pesquisas  em  andamento  e  estabelecer  padronização  conceitual  e  metodológica.  Consistem  na  apresentação  de  trabalhos  e  atividades  coletivos  de  ateliê,  nos  quais  são  analisados  e  apresentados  mapas  temáticos  e  discutidos  conceitos  e  finalmente  apresentação  coletiva  dos  debates.  Os colóquios  se  mostraram  eficientes  no  processo  de  avaliação  do  desenvolvimento  dos  trabalhos  e  hoje  se  constituem  em  evento  científico  anual  do  grupo  e  da  rede  de  pesquisa,  já  tendo  sido  feitas  oito  edições  até  2013,  três  em  São  Paulo,  uma  em  Curitiba,  2  no  Rio  de  Janeiro  e  uma  em  Campo  Grande.

Dos  mapas  temáticos

Foram  criados  quatro  tipos  de  mapas  temáticos,  dois  referentes  aos  espaços  livres intraquadra  em  a  intensidade  de  verticalização  também  intraquadra,  executados  em  ARCGIS  e  os  demais,  derivados  de  mapas  síntese  produzidos  nas  oficinas,  analisando  elementos  da  paisagem,  mancha  urbana  e  características  dos  espaços  livres  públicos  no  sistema  de  cada  cidade,  executados  em  Adobe  Ilustrator. Foram  elaborados  na  totalidade  mais  de  200  mapas  temáticos  (de  verticalização  e  espaços  livres  por  quadra  das  40  cidades  estudadas  e  das  regiões  metropolitanas  de  Campinas,  São  Paulo  e  Vitória).

A  continuidade  entre  os  projetos  QUAPÁ-SEL  e  QUAPÁ-SEL  II  se  dá  pela  perspectiva  do  entendimento  da  importância  dos  sistemas  de  espaços  livres  nas  cidades  brasileiras  e  pela  necessidade  de  aprofundamento  das  questões  já  levantadas.  No  primeiro  projeto  temático  buscou-se  observar  as  relações  entre  tais  sistemas,  sejam  públicos  ou  privados,  e  a  esfera  pública  contemporânea  brasileira.  Durante  todo  o  seu  período  nos aproximamos  e  tangenciamos  questões  ligadas  à  forma  urbana,  tanto  nos  estudos  espaciais  de  legislação,  como  no  entendimento  das  quadras  e  seus  espaços  livres  e  ainda  da  paisagem  das  cidades  em  questão.  Neste  projeto  a  ênfase  está  nas  relações  de  produção  e  apropriação  que  se  estabelecem  entre  os  sistemas  de  espaços  livres  e  a  constituição  da  forma  urbana  brasileira  na  atualidade.

Forma  Urbana  como  objeto  de  pesquisa

A forma  urbana  se  constitui,  enquanto  sistema,  de  espaços  livres  e  edificados,  públicos  e  privados,  legais  e  ilegais,  acolhedores  ou  excludentes.  É  produto  social  e,  ao  mesmo  tempo,  condição  para  o  processo  social  (LEFEBVRE,  1974).  Vários  autores  vêm  se  debruçando,  no  Brasil,  sobre  os  estudos  morfológicos  na  Área  de  Arquitetura  e  Urbanismo¹,  mas  ainda  de  modo  isolado  e  fragmentado.  Mas  apesar  deste  avanço  o  que  se  tem  nesta  primeira  década  do  século  é  a  fragmentação    de  estudos  (PEREIRA    COSTA,    2006,    2007    e    2008,    TÂNGARI,    2007,    p.    ex.)  e  a  inexistência  no  Brasil  de  novas  investigações  mais  gerais  sobre  a  questão  que  foi,  por  motivos  diversos,  relegada  a  um  segundo  plano.  Algumas    publicações  do período  detêm-se  a  aspectos  funcionais  do  desenho  urbano,  constituindo-se  em  manuais  práticos.²

Existem  exceções  importantes  e,  recentemente,  o  único  momento  de  convergência  nacional  foi  o  ISUF  –  International  Seminar  of  Urban  Form  realizado  em  2007  sob  os  auspícios  da  UFMG  e  de  seu  grupo  de  pesquisadores  encabeçado  por  Stael  Alvarenga  e  Marieta  Maciel,  e  o  livro  organizado  por  Vicente  Del  Rio  e  publicado  nos  Estados  Unidos  denominado  Contemporary  Urbanism  in  Brazil  –  Beyond  Brasília.

Pretende-se, nesta  pesquisa,  a  (re)  união  e  o  debate  com  o  maior  número  de  pesquisadores  sobre  o  assunto,  de  modo  que  se  tenha  uma  visão  atualizada,  crítica  e  abrangente  do  estado  da  arte  na  realidade  brasileira.  Esta  pesquisa  pretende  contribuir  neste  debate,  a  partir  do  olhar  do  sistema  de  espaços  livres,  entendendo  como  elemento  ainda  fundamental  da  vida  pública.³

Imagina-se, pois,  congregar  conhecimento  e  esforços  de  modo  ao  entendimento  dos  padrões  tipológicos  dos  tecidos  urbanos  brasileiros  e  de  seu  papel  na  constituição  dos  sistemas  de  espaços  livres  e,  de  modo  indireto,  na  constituição  da  esfera  pública  nestes  espaços.A  forma  não  tem  existência  autônoma.4

Esta é  a  primeira  assertiva  a  se  fazer  quando  se  propõe  uma  investigação  sobre  qualquer  tipo  de  forma.  O reconhecimento  da  importância  da  forma  no  processo  socioespacial  significa  compreendê-la  como  categoria  analítica  do  espaço.

O restante do texto poderá ser lido diretamente nesse link

 

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XIII Encontro Científico e de Iniciação Científica Anhembi Morumbi

Alunos após a apresentação de seus trabalhos!!!

QUANDO E ONDE ACONTECEU O ENCONTRO: 02 de dezembro de 2017. Local: Universidade Anhembi Morumbi Endereço: Rua Casa do Ator, 275 – Campus Vila Olímpia

QUEM PARTICIPOU:
Drª Helena Napoleon Degreas (Programa de Mestrado Profissional FIAM-FAAM) e Profa. Raquel Duarte Pires ((Prof. CST Design de Interiores FIAM-FAAM)
Coordenação de Sala 638 – 2º andar – Unidade 6 – Campus Vila Olímpia Mesa Temática: Arquitetura e Urbanismo

Categoria: DISCENTE DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU 

Título: Uma reflexão acerca dos instrumentos de regulação urbanística do município de São Paulo e a produção de apartamentos Studio: localização ou habitação?
Autor(es): Helena Degreas, Raquel Duarte Pires (Prof. CST Design de Interiores FIAM-FAAM)
Orientador(a): Helena Degreas
Instituição: FIAM-FAAM Centro Universitário – Programa de Mestrado

Categoria: Discente de Pós-Graduação Stricto Sensu
Título: Edifício espetáculo: a Estação da Luz como Museu da Língua Portuguesa, o projeto de arquitetura para a cultura de consumo.
Autor(es): Cidomar Biancardi Filho (Prof. CST Design de Interiores FIAM-FAAM)
Orientador(a): Dra. Priscila Arantes
Instituição: Universidade Anhembi Morumbi

Categoria: DISCENTE DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA

Título: Apartamentos studio em São Paulo: um estudo sobre os apartamentos ultracompactos

Autor(es): Bruna de Oliveira Rosa e Silva

Orientador(a): Helena Degreas
Instituição: FIAM-FAAM Centro Universitário

 

Título: Sistemas de espaços livres, morfologia e tipologia urbana: a Avenida Paulista sob a ótica da arquiteta Rosa Grena Kliass
Autor(es): Enill Alves Avalle
Orientador(a): Helena Degreas
Instituição: FIAM-FAAM Centro Universitario

Título: (Re)pensando e (Re)qualificando a rua: o uso de ferramentas de mensuração para a compreensão e avaliação do desempenho físico e espacial urbano
Autor(es): Davi Ramalho Oliveira da Silva e Fernanda Cavalheiro Rafael Junior
Orientador(a): Helena Degreas
Instituição: FIAM-FAAM Centro Universitário

Título: Do plano macro ao micro, qual o lugar da favela nos projetos urbanos de São Paulo: o caso do Polo Institucional Itaquera e a Favela da Paz
Autor(es): Fernando Mariano da Silva Junior
Orientador(a): Sergio Luis Abrahão
Instituição: FIAM-FAAM Centro Universitário

Categoria Poster:
Título: Como criar cidades mais caminháveis
Autor(es): Maira Brigitte Moraes Pelissari
Orientador(a): Helena Degreas
Instituição: FIAM-FAAM Centro Universitário

XIII 1

Por uma vida independente

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Um casal de idosos está em uma cozinha preparando alguns alimentos. Fim da descrição.
Arquitetura pode garantir qualidade de vida e independência na melhor idade (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

Todos nós queremos ter uma vida independente ao longo de toda nossa vida. Infelizmente, mais cedo ou mais tarde, o corpo começa a perder as habilidades que tanto demoramos a conquistar e começa a ‘reclamar’ com uma dorzinha aqui e uma fisgadinha ali… uma hora porque a tomada parece que ficou mais baixa do que o usual, para levantar do sofá macio o encosto para os braços é necessário ou ainda a parte superior do armário parece inalcançável…

 

Vida independente na melhor idade

Mais cedo ou mais tarde, a casa em que moramos precisará de algumas alterações para poder nos servir de forma mais eficiente com o passar dos anos. Projetar a independência no lar faz-se necessário, quando não, inevitável…

Ao pesquisar aqui por nossas terras a existência de profissionais e escritórios de arquitetura que atendam às especificidades funcionais e necessidades de pessoas mais maduras (conceito sugerido pelo meu colega arquiteto Cidomar), deparei-me com a baixa oferta frente à demanda atual e também futura. A pesquisa também apontou que em alguns casos, o passar dos anos é associado ao envelhecimento e à doença, quase como se fossem sinônimos. Trata-se de uma postura absolutamente equivocada e reducionista para abordar o assunto.

A independência e a capacidade de agir livremente são fundamentais para a qualidade de vida de qualquer ser humano. É possível que doenças crônicas relacionadas à idade possam ocorrer não necessariamente interferindo sobre a mobilidade e habilidades funcionais do corpo ou do intelecto.

Os princípios de desenho universal podem e devem ser utilizado por qualquer profissional de arquitetura e design para a qualidade de vida das pessoas, mas, sozinhos não são capazes de servir de apoio para a sonhada independência.

Ainda que na mesma habitação, o ‘habitar’ toma diferente formas com os anos. Mudam os pensamentos, o estado do corpo, as qualidades e atributos que moldam e definem aquela pessoa e com ele o seu jeito de ser e ver o mundo. Os anos trazem novidades e com elas formas de habitar. Embora o investimento e os tipos de moradia variem muito de uma para outra cultura, países como Inglaterra, Canadá e Estados Unidos apresentam tanto empresas privadas quanto políticas públicas de atendimento à demanda de assistência por tipos de serviço necessários para uma vida independente. São planos e programas que oferecem serviços de assistência diversificada, incluindo opções de habitação, que se adequam aos estilos de vida, saúde e condições financeiras.

Aging in place ou ainda permanecer morando em sua própria casa ao longo de toda a sua vida é uma opção bastante atraente e desejável. A grande vantagem dessa situação é manter-se em local familiar, perto de seus vizinhos e num bairro cujos serviços, comércios são conhecidos facilitando uma vida social autônoma. Nesses casos, os planos oferecidos pelas empresas asseguram serviços de cuidado e manutenção da casa com o objetivo de tornar a vida mais fácil e segura ao morador. Os serviços incluem desde reformas e adaptações de toda a casa até serviços de limpeza e alimentação.

Uma segunda forma de morar é a coletiva e colaborativa. Em vilas, comunidades, residenciais horizontais ou verticais, são condomínios especializados que oferecem programas e serviços especializados como transporte, supermercado, ajuda em tarefas domésticas, cuidados com a saúde e uma rede de atividades sociais (recreação, teatro, viagens, visitas e uma infinidades de atividades culturais) com outros membros do lugar. Nesses casos, diferentemente da casa e mesmo com vida independente, são residenciais projetados exclusivamente para adultos mais velhos e que não desejam cuidar de uma casa ou morar sozinhos. Levam o nome de retirement communitiesretirement homessenior housing ou ainda senior apartments.

Outra forma de morar é conhecida por assisted living residence. Trata-se de uma residência coletiva para adultos que optam, por diversos motivos, por não viver de forma independente. Nos estados Unidos é tratada como uma indústria de vida assistida ou ainda de prestação de serviços altamente especializados que viu seu negócio evoluir do modelo de cuidados pessoais em saúde (com foco em enfermagem como exemplo) para um modelo com foco na sociabilidade e também com cuidados pessoais e saúde.

Mais do que atender aos princípios do desenho universal, esses profissionais deverão estar preparados para a prática do Transgenerational Design. Cunhado em 1986 por James J. Pirk, o conceito trata da prática de conceber e tornar produtos e ambientes compatíveis com os impedimentos físicos e sensoriais associados ao processo de envelhecimento humano e que podem vir a limitar as principais atividades da vida diária quer no lar, quer no ambiente de trabalho que em ambiente social. Coincidência ou não, o conceito surgiu em meados dos anos 1980 paralelamente à concepção do desenho universal como subproduto da Lei denominada Age Discrimination Act of 1975 (ADA) que proíbe uma espécie de “gerontophobia” ou ainda a discriminação com base na idade em ‘programas e atividades que recebem assistência financeira federal’ ou ainda excluindo, negando ou fornecendo serviços diferentes ou de qualidade inferior tendo como base a idade. Empresas como a Microsoft e Intel vêm desenvolvendo produtos ‘amistosos’ para o uso de pessoas com idade mais avançada colaborando na diminuição da tendência de associação do processo de envelhecimento ao de deficiência, declínio ou incapacidade frente às situações de vida.

Embora as oportunidades de investimento e negócios sejam promissores para as próximas décadas, a formação dos profissionais nas áreas de constrição civil, negócios imobiliários, planos de saúde e assistência doméstica para pessoas maduras, precisarão ampliar o leque de produtos e serviços para atender a uma população exigente e com estilos de vida bem mais abrangentes e interessantes do que aqueles tradicionalmente oferecidos como ‘casas de repouso’, ‘cuidadores’, enfermeiros, homecare, flats para terceira idade entre outras variações.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

Projetando na escala do pedestre: métodos e instrumentos de avaliação local

Mobilidade Urbana produção de espaços livres públicos

O que ensinamos no Escritório- Modelo:

  • Planejamento e Projeto urbano construídos com foco em produção de espaços públicos adequados à realização das atividades e comportamentos dos usuários com o objetivo de atender à realização da esfera de vida pública.

Linha de atuação:

PSPL – Public Space, Public Life (Jan Ghel), Cidade Ativa , Walknomics Principles, SPUrbaismo,  NYC TOD (Bloomberg e Jannet Sadik-Khan), Planmob 2015.

Quais instrumentos foram estudados para a realização do levantamento:

  • Safari Urbano: vem da metodologia do Active Design. A organização Cidade Ativa traduziu e adaptou aqui para o Brasil.
  • Fluxos e Permanências (registros): adaptamos do arquiteto finlandês Jan Gehl.
  • Painéis interativos: metodologia criada pela Cidade Ativa
  • Jay walk ou travessias (registros – SPUrbanismo)
  • Levantamentos fotográficos

Quais leituras são utilizadas para a realização das propostas de caminhabilidade?

O trabalho a seguir, foi desenvolvido ao longo do primeiro semestre de 2017 pelo escritório modelo do curso de arquitetura e urbanismo do FIAM-FAAM Centro Universitário e teve por objetivo exercitar a atividade de observação da realidade pelos alunos, a partir da aplicação de instrumentos de avaliação de comportamentos urbanos na escala do pedestre. Para tanto, foi selecionado um local crítico: o ponto de ônibus localizado na Avenida Rebouças – Para Clínicas que fica sob a passarela Prof. Dr. Emílio Athiê.

A sugestão foi apresentada em reunião realizada no início de 2017 pela Câmara Temática de Mobilidade à Pé vinculada ao Conselho Municipal de Transporte e Trânsito (Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes, Prefeitura do Município de São Paulo). As atividades acadêmicas estavam associadas ao projeto de pesquisas intitulado Mobilidade Urbana e Produção de Espaços Livres, vinculado ao Mestrado Profissional e Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano.

O resultado deste trabalho – .um diagnóstico, encontra-se no link a seguir. O documento apresenta as pesquisas de observação e os instrumentos adotados para que os levantamentos pudessem ser realizados.

Numa próxima etapa, o diagnóstico levará a propostas de intervenção na escala de projeto urbano.

Diagnóstico: Passarela Prof. Dr. Emílio Athiê e Ponto de Ônibus Clínicas

Alunos:  Gregory Bertelli ,Leandro Mendes Mesquita, Maria Alicia Abate, Nathiely Fátima de Miranda, Patrícia Mieko de Angelis Sato, Vitória Raiza Marques Novo

 

 

(Re)pensando a rua: métricas para a realização de urbanismo tático em Santana

(Re)Pensando a rua: métricas FIAMFAAM

Alunos do Escritório Modelo FIAMFAAM reunidos após aplicação das intervenções viárias

Responsáveis pela criação, organização e implantação do Projeto:

A ação foi realizada pelo ITDP Brasil, com financiamento da Citi Foundation e em parceria com a Iniciativa Bloomberg para Segurança Global no Trânsito (BIGRS),  a Iniciativa Global de Desenho de Cidades (NACTO-GDCI), o WRI Brasil Cidades Sustentáveis e a Vital Strategies, com apoio da Prefeitura Regional de Santa/Tucuruvi, da Secretaria Municipal de Mobilidade e Transporte, da start-up Urb-i — Urban Ideas.

Descrição de nossa colaboração na ação:

Por meio do escritório-modelo, os alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo do FIAM-FAAM Centro Universitário realizaram intervenções urbanas de caráter temporário – urbanismo tático no bairro de Santana, São Paulo, capital. As intervenções foram realizadas com o objetivo de melhorar a segurança do pedestre vez que os dados apresentados pela CET – Companhia de Engenharia de Tráfego apontavam para um grande número de mortes por atropelamento em algumas das interseções viárias do bairro. Após semanas de trabalho que incluíram workhops, palestras, capacitações diversas e a aplicação de instrumentos de pesquisa para o Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável (DOTS), tradução do termo original em inglês Transit-Oriented Development, as ruas Dr. César, Salete Voluntários da Pátria e Leite de Morais passaram por uma transformação radical: calçadas, ruas e esquinas que antes serviam de estacionamento de automóveis e privilegiavam a fluidez do trânsito motorizado, receberam sinalização temporária horizontal como faixas de pedestres ampliadas, rotatórias, esquinas recriadas e novos parklets priorizando o placemaking ou ainda, incentivando o poder público a criar lugares de estar para pessoas. Todo esse trabalho pretende induzir a redução de velocidade dos automóveis, diminuir a distância de travessia dos pedestres e aumentar a visibilidade (esquinas) entre o motorista e o pedestre, estimulando o respeito à vida e ao Código Brasileiro de Trânsito. Vasos com plantas, cadeiras, guarda-sóis e apresentações culturais diversas transformaram ruas perigosas numa verdadeira “praia urbana” reunindo pessoas em locais antes destinados aos automóveis. As métricas e a tabulação dos dados referentes ao projeto serão encerradas ao final do mês de outubro de 2017. Em novembro, todo o processo incluindo a intervenção urbana ocorrida em 16.09.2017 e um vídeo com as ações serão apresentados na 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo.

Projeto do Escritório Modelo: (Re)pensando a Rua: métricas para a realização de urbanismo tático em Santana

Escritório Modelo: supervisão Drª Helena Degreas

Alunos:
(inserir lista)

 

Kombis, trailers, studios: a nova moda dos imóveis reduzidos

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Imagem de uma planta baixa de um imóvel com tamanho reduzido. Na imagem, temos algumas especificações para um morador cadeirante. Fim da descrição.
A arquiteta Helena Degreas destaca a nova moda dos imóveis com tamanho reduzido (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

Você já pensou como deve ser morar numa habitação de 10 m²? E se, além do tamanho dos imóveis reduzidos, você dependesse de uma cadeira de rodas para se locomover?

Nos últimos meses, um debate acalorado sobre o surgimento de apartamentos studio vêm tomando conta das redes sociais. Com tamanhos que chegam a 10m², essas unidades já colocaram a cidade de São Paulo como a campeã nacional na oferta de mini-moradias . Possível desde a promulgação do Novo Código de Obras do município de São Paulo (COE/2017) que revisou as dimensões mínimas dos ambientes residenciais, qualquer um pode ser proprietário de um miniapartamento com excelente localização urbana. Maior do que uma kombi (7.30 m²) e menor do que um trailer (10,26 m²), os apartamentos Studio são a novidade que cabe no bolso, mas não comportam as funcionalidades de um lar – minha opinião.

A revisão das dimensões mínimas dos ambientes residenciais constantes do COE 2017 e da NBR 15575 associadas ao financiamento de imóveis novos no valor de até 240 mil reais pelo programa Minha Casa Minha Vida da Caixa Econômica Federal, vem facilitando a aquisição de habitações para aqueles que têm renda de até 3 mil e 600 reais.

Dados do IBGE (2010) mostram que 74,9% da população que declarou ter alguma dificuldade para caminhar ou andar (não consegue de modo algum, grande dificuldade, alguma dificuldade) recebe entre 0.5% e 3 salários mínimos estando aptos, portanto, a pleitear o financiamento. Ou seja: cerca de 7% dos brasileiros ou ainda, 13.2 milhões de brasileiros. Deste grupo, um pouco mais de 4 milhões declararam possuir dificuldade de locomoção severa. Desconsiderar essas estatísticas e, com elas as adaptações necessárias para atender a esse público ainda no ato do projeto, na construção ou no planejamento do negócio pelas construtoras é incompreensível em época de crise econômica e com financiamento disponível.

O que ocorre com a unidade propriamente dita: dá para morar em 10m² e, ainda assim, atender a NBR9050 com qualidade? De acordo com o Arquiteto Marcelo Sbarra, não. E eu complementaria: não dá para ninguém morar em 10 m² com um mínimo de dignidade.

As unidades de moradia mínima já existiam no pós-guerra. Com o objetivo de atender a uma camada da população de baixo poder aquisitivo, o movimento modernista previa que a noção de mínimo não se resumia à restrição da área útil e sim à versatilidade de uso do espaço doméstico com áreas claramente definidas que viabilizavam as dinâmicas familiares. Os projetos da época apresentavam uma planta livre integrando ambientes sociais que, pela distribuição de móveis, criaram espaços de usos diversos; banheiros, cozinhas e dormitórios, independentemente do número de moradores, eram compactados e individualizados em cômodos separados.

Ainda, de acordo com Sbarra (2017) “… Embora o Código de Obras estabeleça as dimensões mínimas para quartos, salas, banheiros e cozinhas em NENHUM lugar em NENHUMA lei ou Norma há a definição do que seja um apartamento”. Pois é. Aprova-se a unidade como banheiro + sala. Cozinha transforma-se em área de preparo de alimentos. Um cooktop elétrico de duas bocas resolve o problema. Lavar roupas? Só se for do lado de fora da unidade. Na moda mesmo, é agendar e, em alguns casos, pagar para utilizar uma máquina lava e seca da lavanderia coletiva do condomínio. Soube por um conhecido que o filho dele havia adquirido essa unidade. Por considerar desnecessário lavar as meias e a camiseta numa ciclo completo lava e seca decidiu fazer isso no chuveiro enquanto tomava banho. Para secar? Comprou um mini varal e pendurou na varandinha gourmet. Resultado: levou uma multa do condomínio por utilizar de forma incorreta as áreas de uso comum. Sim, a varanda é dele, mas… Tem regras de comportamento: de acordo com o síndico profissional: “É para evitar que o prédio se transforme numa Veneza brasileira com varais e roupas penduradas na fachada do edifício”…

Se já é ruim para quem anda com as duas pernas, fica ainda pior para quem tem dificuldade de locomoção e necessita de cadeira de rodas, tem órtese, prótese, bengalas ou andadores. O problema maior para esses casos é que a unidade habitacional necessita de obras de construção civil para que possa ser utilizada por esses usuários. A adaptação de um apartamento já construído eleva o seu valor dependendo, por exemplo, do número de portas que serão substituídas, pois não tem um vão livre de pelo menos 0.80 m como banheiros, lavabos, lavanderias e outros. As alturas de bancadas, interruptores, tomadas armários entre outros itens precisarão de alterações, elevando o custo final da unidade para o morador. Todas essas alterações precisam de arquitetos, engenheiros, pedreiros, eletricistas, encanadores, pintores, marceneiros, azulejistas… Se as alterações forem pensadas ainda na planta, os custos são insignificantes no total do investimento para a construção, pois nesse caso, as adaptações ocorrem ainda na fase do projeto.

Para quem tem curiosidade em ver uma planta de uma unidade do tipo studio feita pelo Marcelo Sbarra para uma pessoa com dificuldade permanente de caminhar ou subir degraus, veja a ilustração abaixo.

A dimensão mínima necessária para que a locomoção em cadeira de rodas possa ocorrer é de no mínimo 24m². É possível desenvolver outros layouts para distribuição de mobiliário viabilizando a inclusão de estações de trabalho, ponto de água e esgoto para uma máquina de roupas do tipo lava e seca pequena além de um lavatório com tampo e cuba de sobrepor no banheiro.

Estou preferindo morar num trailer e até numa kombi. Espécie de casa móvel, podem me levar para onde eu quero ir… Longe, para bem longe desses studios…

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

 

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Em cima de uma mesa temos uma toalha de renda branca. Sobre ela, um porta-retrato, um laptop, um óculos de grau e uma xícara com chá. Fim da descrição.
Arquiteta destaca a nova geração de idosos do Brasil (Foto: Divulgação)

FONTE: Portal Acesse

Por: Helena Degreas*

Outro dia, estava eu no metrô, fazendo uma das coisas que mais gosto de fazer enquanto estou na rua: observar pessoas e seus comportamentos. Naquele momento, vi sentar-se num dos bancos preferenciais, uma mulher cuja idade era indefinida. Cabelos brancos (estão super na moda hoje), lisos, longos, soltos sobre os ombros, maquiagem leve, irretocável. Corpo lindo, bem cuidado, vestindo roupas de estilo casual, cores contemporâneas e abusando das sobreposições. Se eu fosse blogueira fashionista, certamente ela seria a musa inspiradora de um post, com direito a foto e entrevista. Parecia atrasada. Não soltava o celular da mão. Dentro da bolsa, era visível um tablet. Eis a nova geração de idosos.

Repentinamente, me dou conta que atrás dela, estava fixada na parede do vagão, aquela plaquinha que identifica por meio de símbolos, as pessoas que tem preferência ou prioridade de uso do banco. Daqueles vários, destacou-se um: sabe aquela figurinha que apresenta uma pessoa curvada usando uma bengalinha? Pois é. Aquela mulher poderosa sentada na minha frente era a tal velhinha que, em tese, estava retratada na placa. Só faltou o coque com a redinha prendendo os fios.

Lembrei-me do Estatuto do Idoso. Nele, são consideradas idosas as pessoas a partir de 60 anos. Como assim? Comecei a pensar na possibilidade de mudar aquele desenho para algo diferente simplesmente porque não representa mais a realidade. Acredito que o Estatuto do Idoso merece algumas revisões porque envelheceu; no mínimo as ilustrações e a referência às idades. Hoje somos mais longevos do que nossos avós. Se em 1960 a expectativa de vida do brasileiro era de cerca de 50 anos, em 2015 a expectativa era superior aos 75 anos. Com algumas variações entre os estados: Santa Catarina lidera o ranking com 78 anos e o estado do Maranhão é “lanterninha”, com 70 anos. E mais: muitos de nós conhecemos e convivemos com diversas pessoas acima dos 90. Outro dia, ouvi meu colega dizer que iria comemorar o 102º aniversário da mãe – que mora sozinha, por sinal. Aliás, foi ela que me passou a receita que uso para fazer manteiga caseira. Fiz nesse final de semana. Ficou saborosa. Recomendo. Mesmo eu saí para jantar outro dia, com um advogado centenário. Seu pensamento estava mais lúcido do que o meu. Mesmo depois de várias taças de vinho. #morrideinveja

A mulher que estava sentada na minha frente, era uma das mais de 23 milhões de pessoas com idade superior a 60 anos que, com seu trabalho, sustentam a casa, muitas vezes a família e com isso movimentam um mercado de cerca de 1 trilhão de reais por ano segundo dados do Bank of America Merrill Lynch. É muito dinheiro. A visão que temos sobre o envelhecimento ainda está fortemente arraigada a questões de saúde e previdenciárias aqui por nossas terras. É certo afirmar que existem aqui discrepâncias sociais e econômicas literalmente obscenas, se me permitem o uso da palavra. Trata-se de uma sociedade e um Estado, injustos, que maltratam uma boa parte da população com as mais variadas idades. Mas por outro lado, também é certo afirmar que a visão do vovô preestabelecida pela sociedade também já não atende mais as necessidades dessa população ainda cheia de vida.

Essa imagem me faz lembrar a minha avó paterna: Helena, como já mencionei em outra coluna. Sua meta de vida era ver os netos (quiçá, bisnetos) crescerem enquanto ela, sentadinha numa cadeira de balanço, faria crochê. E fez isso mesmo com um agravante: vestida de preto até o fim da vida, pois, na qualidade de viúva grega (desde os 30!) deveria vestir-se assim por questões de decoro religioso. Agia como se o seu dever estivesse cumprido.

Continuei olhando para aquela mulher: desligou o celular e foi teclar no tablet. Aparentemente, este estilo de vida – “esperando a morte chegar”, não fazia parte dos pensamentos e ações dessa mulher. Mas longe também, estava o tal vigor da juventude tão exaltando por vários meios de comunicação como se fosse o período mais importante da vida de um ser humano. Sinto informar ao povo de marketing, publicidade e propaganda que a juventude – representada nos teenagers, não é o período mais importante da vida.

Aqueles que estão lendo essa coluna provavelmente viverão bem mais de 80 anos. Irão reinventar-se para aceitar as modificações que o corpo impõe com o passar dos anos. E a arquitetura e o urbanismo, deverão estar preparados para todas as mudanças que já estão ocorrendo.

De agências de viagem, sites de relacionamento para pessoas maduras e residenciais que nem de longe se apresentam como as antigas casas de repouso, o que esse público mais deseja é viver com qualidade, tendo satisfeitas suas vontades. E como fica o atendimento das necessidades dessa população com poder de consumo (e decisão, portanto) na hora da compra da nova casa, dos mobiliários, das utilidades domésticas e demais serviços, espaços e produtos de uma moradia, por exemplo?

Será que as empresas e prestadores de serviços da área de construção civil estão atentos para essas mudanças?

Ambientes sem degraus, pisos antiderrapantes, entradas mais amplas, bordas arredondadas, alturas adequadas em tomadas, iluminação correta, eliminação de obstáculos por meio da disposição correta de móveis e tapetes são apenas algumas das ações que essas empresas deverão atender se quiserem “abocanhar” essa fatia significativa de mercado. O atendimento às normas de acessibilidade deixa de ser uma “obrigação legal” e passa a ser um potencial de negócio. O desenvolvimento de projetos acessíveis para esse público – incluindo também aquele que tem mobilidade reduzida, vem exigindo plantas adaptadas que não apenas permitam a usabilidade, como também reflitam as linguagens estéticas e os estilos contemporâneos de vida. Casa com cara de hospital? Nem pensar! Virar as costas para essas demandas é, no mínimo, ignorância. Ou seja, tanto o asilo quanto as casas das vovós que ilustram contos e fábulas infantis de La Fontaine e dos irmãos Grimm, por exemplo, não atendem mais ao segmento que pertence à sylver economy. Imaginem então aqueles “cursos para a terceira idade” oferecidos aos montes por ONGs e instituições diversas que tem por objetivo “atualizar” os pobres velhinhos com mais de 50 anos… Gente ACORDA! Atualizem-se!

Semana passada, durante uma consulta num gastroenterologista em que acompanhei minha mãe (cuja idade é segredo de Estado), o médico inadvertidamente, sugeriu que alguns dos sintomas sentidos por ela nos últimos dias poderiam ser resultado da idade. Completamente possuída pela ira, ela pergunta: “Tá me chamando de velha, doutor?”. Desconcertado com a pergunta, ele mal retruca: “não foi isso que eu quis dizer, eu só…”. Não deu tempo. Ela atira: “Pago minhas contas com o meu dinheiro, escolho o que faço, como o que quero, vou aonde tenho vontade e na hora que eu quero. Velha é a vovozinha!”

Concordo. Ela está certíssima.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.