Vivo no “mundo da lua”… e porque não? rs

Para todos aqueles que, como eu, estão sempre “no mundo da lua” (graças a Deus), indico a leitura do post escrito por minha filhota Steph… #divirtam-se

O efeito porque não

22 jul

Joãozinho se move rapidamente pela relva. Todo cuidado é pouco. O sol que brilha sobre nossas cabeças nem sempre é uma bênção, e ninguém melhor que o destemido João para saber que a luz do dia pode ser a maior aliada do inimigo. Mas, espere! Há algo errado. Algum som, um som familiar, se aproxima lentamente. Ele se multiplica por todos os lados, não é possível identificar sua origem. Joãozinho prende a respiração e tenta manter a calma. Os arbustos ao redor dele se movem. Joãozinho tenta entender o que está acontecendo, mas antes que ele possa piscar… ZÁS!

“João, não vai responder?” João desgruda os olhos assustados do jardim. A menina da carteira da frente olha para ele com ar de chacota. “João? Quanto é dois mais quatro?” João acorda.

OK, eu decidi contar a história do João porque não queria me colocar duas vezes na mesma situação constrangedora. E remodelei um pouco a narrativa porque queria que ela se aplicasse a outros Joões e Joanas deste mundo.

Recentemente ouvi de um menino cujos pais foram chamados para conversar com a professora porque ele sonhava demais. Soa a conto de bruxos maniqueísta, mas, ainda que a situação não tenha sido exposta exatamente nesses termos pela preceptora, e que as suas intenções certamente tenham sido as melhores e mais sinceras, o que eu gostaria de perguntar é se o problema está no João de fato. E, de fato, se há um problema.

Porque no momento em que João foi brutalmente arrancado de sua divagação lúdica hão de ter sido elaboradas por quem estava por perto algumas dezenas de hipóteses e constatações – João é um menino distraído; isso prejudica seu aprendizado; ele é escapista; nenhum adulto assim será bem-sucedido; temos que tirar essa mania do João – menos uma: por que será que João não está prestando atenção na aula?

Um dos episódios mais assistidos de Cidade dos Homens por nós alunos de Audiovisual chama A Coroa do Imperador. Ele é tecnicamente muito bom,  mas antes disso, o que interessa para mim é que tem um ótimo ponto de partida: a professora de História está organizando uma excursão para ver a coroa de D. Pedro II, mas a excursão não faz muito sentido se os alunos não entenderem o que trouxe a Família Real para o Brasil. Assim sendo, ela tem que conseguir explicar o caso, o que nem sempre é fácil em uma sala de pré-adolescentes, especialmente se eles estiverem no contexto social complicado de que a série trata. Quem salva a excursão é Acerola, que, pressionado pela ameaça da professora de cancelar o passeio, resolve explicar a fuga dos colonizadores-móres de Portugal para o Brasil com ares da realidade que ele entende. A realidade que ele entende é a do tráfico de drogas, mas isso fica para outro texto mais ambicioso. O motivo pelo qual lembrei tão vivamente desse episódio de Cidade dos Homens quando ouvi a história do menino que sonhava demais e recordei da minha própria, é que um dos temas postos em pauta nele é justamente essa capacidade imaginativa que as crianças têm e que, na maioria dos casos, vai sendo minada com a progressão dos anos e dos “porquesins-porquenãos”.

Sem fazer apologia à O2 e ao fato de muitos de seus integrantes estarem ligados ao meu imaginário infantil antes mesmo de ela existir, quero lembrar que uma das minhas maiores armas da infância se chamava “Zequinha”. Se você não foi um devorador do Castelo Rá-tim-bum, Zequinha é um menino que não se contenta com explicações vagas. E quer saber? Todo mundo perdia a paciência com ele, porque ele questionava tudo, mas Zequinha sempre foi um exemplo.

Só recentemente eu percebi que se tivesse conseguido me manter firme nessa convicção de nunca aceitar respostas mal-dadas ou impositivas para perguntas difíceis de solucinar, não estaria maravilhada ao descobrir aos vinte e três anos que o mercado de ações não tem comportamento, que esse papo de metáforas climáticas para falar de grana não faz o menor sentido e que a maior mentira que já tentaram me contar é sobre um tal de “Sistema” – e não teria cozinhado tantas abobrinhas em fogo baixo.

Colocar as crianças para pintarem dentro de linhas pré-determinadas só porque a gente já pintou por mais tempo é um jeito muito pobre de enxergá-las e revela uma visão de mundo triste – a de alguém que responde aos estímulos externos, mas parece relutante em processá-los (sim, aqui os “estímulos externos” são os infantes). Possivelmente a de alguém que nunca se perguntou por que cargas d’água me deram esse coelhinho para pintar em vez de uma folha em branco e muitas cores?

Dois mais quatro é tão importante quanto isso – veja bem; nem mais nem menos. Na verdade, dois mais quatro é um aliado da folha em branco. E se a criança é uma folha mais em branco do que seus pais ou professores (metáfora nova essa, né?), isso não significa que ela não tenha misturas de cores absolutamente desconhecidas para eles. Então talvez antes de se preocupar e chamar os pais e convocar todos os adultos para resolver o problema do Joãozinho, a professora poderia ter ser perguntado, eu repito: será que o problema não é meu? E poderia, quiçás, ter se proposto a tentar entender o Joãozinho, e saber que talvez dois e quatro pudessem fazer mais sentido para ele dentro do universo do jardim ao lado do que do da lousa. E que esse jardim ao lado poderia ser bom para ela também. E que o João não é “um menino distraído”, ele é o João e, citando uma das minhas falas preferidas de todos os tempos [Hamlet para Guildenstern; ver tradução do Millôr], não uma flauta: há muita música nele para que qualquer pessoa se julgue capaz de tocar. E de que exatamente estaria ele escapando, o que é essa realidade absoluta e única que não admite outra que não seja um “escape”? E qual é mais precisamente o significado de “bem-sucedido”? Bem-sucedido em quê? Para quem? Por que parâmetros?

Não estou difamando a educação nas escolas públicas, nem nas escolas privadas, nem em todas as escolas do Brasil. Professores não são monstros. Professores podem ser inspirações. Minha mãe é professora, e ela sempre encheu a boca para dizer que preferia “educadora”. Não vou discutir etimologia, mas lembro de alguns poucos exemplos bem-sucedidos daquilo que eu descreveria como pontos de luz na minha jornada escolar. Eles são poucos, mas foram grandes e deram um sentido para a coisa toda. E por que, então, eu estou dizendo tudo isso? Para falar a verdade, não sei para quem estou escrevendo. Talvez seja para os pequenos sonhadores e seus pais ratos de salas da direção, para os ex-sonhadores, ou para os educadores com as melhores intenções. É bom ser mais Zequinha na vida. Vai incomodar, vai soar a revolta, mas revoltas que ficam só escritas não têm muito por quê de ser, e eu nem sei se sou uma “revoltada”. Sou uma Joana. E se pedir folhas em branco significa se revoltar, então abaixo os desenhos pré-traçados!

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