Eu não nasci de óculos

Por: Helena Degreas*
(Fonte: http://www.acesseportal.com.br/)

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na horizontal. Nela estão dois mapas do metrô de Londres. Um com letras grandes aberto em cima de uma mesa e outro com letras muito pequenas, dobrado, em cima do outro mapa, que está aberto. Sobre eles está um óculos de leitura. Fim da descrição.

Filhos crescidos, ninho quase vazio – excetuando Ricotinha e Chanel que nos ocupam bastante com as estripulias diárias… fazem tanta bobagem que decidimos conjuntamente, dar férias uns aos outros: enviamos para a casa da ‘avó’.

Trabalho aceito em congresso, palestra agendada, convido meu marido para viajar. Londres: e por que não? Desta vez, comunico meu desejo de realizar um passeio diferente: só utilizar os meios de locomoção oferecidos pelo poder público. Em época de uber, cabify e outros serviços de transporte, vamos andar a pé, ônibus, metrô e trens… com um pouco mais de coragem e, se o tempo ajudar, talvez bicicleta. Atônito, sem palavras, pensou que enlouqueci. Pergunta, já preocupado: “Está tudo bem com você”? Eu, de pronto, respondo: “Sim! Melhor impossível”. Esquecerei o martírio das salas de musculação! Para que esteira? Calorias queimadas da maneira mais natural possível: caminhando.

Algumas horas de avião e… chegamos. Madrugada gelada. Poucas malas na esteira, dirigimo-nos ao trem. Fácil e confortável. Conexão com o metrô. Descemos quase na porta do hotel! Os londrinos são felizes. É possível locomover-se por qualquer bairro. Não sabem o que significa a falta de conexão entre os diversos modos de transporte aqui em nossas terras.

Feito o check-in, alimentados e descansados, decidimos ir ao local do evento. No saguão do hotel, deparo-me com um mapa: daqueles que tem mais anúncios do que informações úteis aos visitantes de primeira viagem. Lá estava o que eu queria: um conjunto de informações sobre os transportes coletivos reunidos numa dobradura de papel! Ônibus, estações e linhas de metrô… trens! Saímos de lá. Calçadas lisas, piso impecável. Rampas de acesso em praticamente todas as esquinas. Sinalização de segurança horizontal e vertical – faixas de pedestres, faróis, luminárias em toda a parte. Beleza. Bordaduras floridas nos jardins. Chega a doer de tão bonito e civilizado.

Cem metros depois, alcançamos a entrada de metrô. Singela. Basta descer por escadas ou atravessar a rua e entrar pelo outro lado de elevador. Escolhi as escadas #MomentoFitness. Descer é fácil. Passada a catraca, abro o mapa. Inicia-se o problema. Não consigo ler. Peço ajuda ao marido que, de antemão avisa: “nem eu”. Letras miúdas. Me senti lendo bula de remédio ou ainda, a lista de ingredientes dos alimentos industrializados que compro no mercado. Tenho alto grau de miopia e também de astigmatismo. Esqueci do estrabismo. De uns tempos para cá, sinto que o braço não é longo o suficiente para conseguir ler as letrinhas miúdas. Muito miúdas aliás: acredito até que esse tamanho de ‘fonte’ não exista.

Certeza que inventaram uma só para perturbar pessoas como eu. São apenas 35,7 milhões de brasileiros que declararam ter algum tipo de dificuldade para ler aqui no Brasil. Está nas estatísticas do IBGE. Dados do último censo. Mas… até aqui em Londres? Não é possível. Bem-vinda à presbiopia, Helena. É fatal: 100% dos seres humanos passarão por ela. Não adianta ginástica, aeróbica, chazinho ou mandinga. O mundo perde o foco.

Saio do metrô. Vou à farmácia mais próxima: óculos de todos os tipos, cores e tamanhos. Mais ou menos estilosos. Provamos vários. Foi divertido. Dois adultos brincando com a situação. E eu que só queria ter acesso às informações dos trajetos do metrô na tal dobradura…. Compramos dois pares: um para mim e outro para ele. Muito baratos, quase descartáveis. Percebi que, apesar das brincadeiras, entrei numa fase da vida em que começamos a perder algumas das habilidades e capacidades que fomos adquirindo ou desenvolvendo ao longo da vida.

A integridade desse meio de percepção do mundo é indispensável para o desenvolvimento das atividades intelectuais e sociais de qualquer pessoa. Qualquer tipo de redução ou restrição da capacidade visual restringe também diretamente as atividades ocupacionais, econômicas sociais e também psicológicas do ser humano. Vivemos em sociedade. Precisamos uns dos outros.

Envelhecendo… não sou a única, pensei. Vou escolher a melhor forma de lidar com as novas situações do estágio de vida em que me encontro.

Cabe também aos nossos governantes preparar as cidades por meio de planejamento e investimentos a curto, médio e longo prazos visando melhorar a qualidade de vida das pessoas em todas as fases da vida. Caso contrário, em 2050 teremos quase um terço das pessoas no mundo passando da condição de ‘incluídos socialmente’, para a situação de ‘excluídos urbanos’, por simples falta de planejamento de nossas cidades.

Trata-se de estratégia política no mais nobre sentido da palavra. Política como ciência da governança de um Estado ou ainda, a arte de gerenciar e negociar os mais diversos interesses do povo. No caso, as informações devem estar disponíveis, claras e acessíveis para qualquer pessoa. Voltamos ao metrô. Apesar do novo apetrecho em frente ao meu nariz, as letras permaneciam miúdas. Decidida a resolver a questão que me impedia de sair do local onde eu estava há quase uma hora, dirijo-me com passos firme ao guichê de atendimento da estação e informo: não consigo ler o mapa de trajetos. De pronto, o rapaz me oferece um novo documento igualmente dobrado e pergunta: alguma outra coisa em que eu possa ajudar? Agradeço. Desdobro o papel e.… letras imensas! Informações claras! Conseguimos ter acesso às informações sem perguntar a ninguém. Felizes, encontramos o nosso caminho.

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

 

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