O lado sinistro

Fonte: Acesse Portal
Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. A imagem tem uma composição, com um pedaço de uma folha de sulfite, com um desenho infantil, sem uma definição clara. O desenho está em cima de uma mesa. Abaixo da folha com o desenho está uma toalha branca de crochê bordada. Fim da descrição.
Lembranças: Desenho do filho e toalha de crochê (Foto: Arquivo pessoal)

Por Helena Degreas*

Bebê já grandinho, chegou a hora de levá-lo para a escolinha. Apesar daquela sensação de culpa eterna que ronda os pensamentos de grande parte da vida daqueles que se ocupam da criação dos pequenos, é preciso deixar crescer. Criamos para o mundo e não para nós mesmos.

Desenvolvimento físico, intelectual, socialização e autonomia são competências socioemocionais que podem ser estimuladas a partir da vivência com outras pessoas. Em casa, não conseguiríamos ‘dar conta do recado’ sozinhos.

Numa das primeiras reuniões com os pais, vejo seus primeiros desenhos. Emocionada, começo a ler naquele emaranhado de traços, linhas, pontos e quase círculos a manifestação do seu desenvolvimento cognitivo. Lá estavam seus pensamentos expressos graficamente! Em mais algumas folhas, surgiram alguns recortes em papeis coloridos colados. #MomentoOrgulho.

Olho para a professora e penso numa frase para externar minha gratidão. Não deu tempo. De pronto ela descreve o que vê: “São garatujas. É assim que eles desenham.” Como é que é? Garatuja no meu dicionário significa desenho rudimentar, malfeito e por aí vai. Perguntei: Do que você está falando? Dá para explicar? Provavelmente num dia ruim, a educadora responde: “Seu filho é canhoto”. Fuzilando com o olhar, me questionava: “E daí? Qual é o problema colega? Escreve com a mão esquerda, vai cortar o bife segurando a faca com a mão esquerda….”

Acaso a escola e seus professores não estão instrumentalizados e preparados para colaborar no seu desenvolvimento? É isso? O clima azedou de vez. Adivinhem quanto tempo ele permaneceu por lá…

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. A Imagem é de uma sala de aula, com diversas carteiras na cor bege, vazias enfileiradas. Entre elas estão cadeiras com braços para destros e canhotos. Fim da descrição.
Salas de aula não estão preparadas para todos (Foto: Arquivo pessoal)

Nos primeiros meses de vida, seguindo a ordem natural e esperada das coisas, ele começou a utilizar uma das mãos com mais frequência do que a outra para segurar o copinho e a colher. Estava expressando, como qualquer ser humano, a preferência quanto à lateralidade corporal. Era a esquerda. Pensei: “Será que isso vai dar algum problema na escola? Final do século 20? Acho que não”. Canhoto, canhestro, esquerdo, inábil, desastrado, sinistro… nem sei quantos sinônimos encontrei. Aqueles ligados aos valores religiosos eram os piores: cão, diabo… em outras palavras, passava-me a impressão de alguém ‘do mal’. Palavrinhas que materializavam condutas e comportamentos sociais construídos a partir de pré-conceitos. O menino aprontava todo o tipo de diabruras…, mas daí a entender que a preferência lateral corporal é ‘do mal’? Eu, hein! Fico imaginado o vasto cabedal de histórias que terei para contar aos filhos do meu filho…

Mas o pensamento retornava, insistindo em me perturbar: “…Com o quê, afinal, estaria eu tão incomodada”?

Lembrei-me de meu primo Ιωάννης e minha avó Eλενη. Primo mais velho, brincávamos juntos quando criança. Por volta dos quatro anos, ele me ensinou a desenhar e a escrever com as duas mãos. Sem perceber, desenvolvi uma nova habilidade. Pouco tempo depois, tive alguns probleminhas durante as aulas de caligrafia na escola tradicional americana que frequentei. Gostava de ‘desenhar as letras de mão’ com as duas mãos. Professoras à moda antiga, decidiram unilateralmente escolher a mão que deveria ‘desenhar as tais letras’. Adivinhem qual era… Anos mais tarde, num dos vários almoços na universidade, ele me confidenciou que sofreu muito na escola. Imagine escrever com a mão esquerda frequentando um colégio religioso repleto de padres professores. Afinal, está claro na Bíblia que ‘À direita de Deus pai, ficam as boas ovelhas’… Já à esquerda ficam… tirem suas próprias conclusões… Sobreviveu à tirania destra, crescendo como um adulto ambidestro.

Minha avó paterna, por sua vez, não frequentou escola. Essa situação não a impediu de aprender a ler e a escrever sozinha. Com ela aprendi a cozinhar, tricotar e fazer peças em crochê, naturalmente, utilizando a agulha com a mão esquerda. Só me dei conta disso, novamente na escola, anos mais tarde, durante as aulas de ‘Prendas domésticas’. Nas aulas, empunhando a agulha na mão esquerda, tive que reaprender o que minha avó querida havia me ensinado, agora com a direita. Para não ser reprovada, reaprendi. Tempos difíceis aqueles…

Mas o quê afinal, ainda me incomodava? Acho que foi minha profissão, mais do que qualquer outra coisa. Como arquiteta e urbanista projeto ambientes, espaços e objetos para uso e fruição das pessoas quer nas atividades diárias do lar, do trabalho e da vida em sociedade. Valores estéticos, sociais, econômicos e funcionais estão sintetizados em cada projeto, em cada objeto e ambiente. Tudo é pensado para ser utilizado de maneira confortável por qualquer um que necessite dos nossos serviços. O projeto é contextualizado nas necessidades dos contratantes, apoiado obrigatoriamente em normas e legislações vigentes, técnicas, materiais e processos construtivos disponíveis no mercado.

Procurei em estabelecimentos comerciais diversos objetos cujo design – projeto em outras palavras –, pudessem adaptar-se e atender plenamente as preferências e habilidades associadas à lateralidade corporal do meu filho para facilitar-lhe o uso em ambiente escolar. Obviamente, mal consegui uma tesoura que, apesar de ter gravado o nome do meu filho, misturava-se às dos demais alunos destros, sendo tratada como ‘aquela ruim que não corta’. Meu filho por sua vez, ia se adaptando ao mundo dos destros. Carteiras inadequadas que levavam a uma postura horrível, mouses, botões, roupas, apontadores, abridores de latas ou até dificuldade na escrita: Já perceberam que a mão esquerda passa por cima do texto que se está escrevendo? Leva-se mais tempo para desenvolver a mesma tarefa. Fico imaginando como escrever com uma caneta tinteiro ou como se resolvem as questões de um cirurgião canhoto…

O fato é que até hoje, 20 anos depois, século 21, apesar dos avanços obtidos por força de lei, cerca de 10% da população mundial ainda precisa desenvolver ‘destreza’, adaptar-se e ser flexível no uso dos objetos, instrumentos de trabalho e ambientes criados para os destros. Quantos são? Cerca de 700 milhões de pessoas adaptam-se ao desconforto para poderem trabalhar ou divertir-se. Algumas situações, de tão corriqueiras, transformam-se em verdades inquestionáveis. Cansei de ouvir de alunos e demais pessoas. “Mas é assim que se faz! E existe outro jeito?” Óbvio que sim. Vários! Coloque-se no lugar do outro. Vá pesquisar. Projetar não tem glamour nenhum: 99% transpiração e 1% inspiração. Resumindo: é muito trabalho.

Retorno à necessária mudança de cultura: Valores e crenças sociais só mudam com a educação. Demora, mas não tem outro jeito. Arquitetos não são capazes de mudar a visão de mundo dos demais 90% dos membros que compõem o grupo dos destros. De minha parte, fui contribuir com a mudança. Apesar de trabalharmos com médias, projetar demanda soluções diferentes para cada contexto. Procurar soluções que atendam habilidades funcionais distintas do corpo, significa em outras palavras, dar as mesmas condições de acesso e uso de ferramentas de trabalho, espaços e ambientes para executar uma tarefa bem: independentemente das habilidades funcionais do corpo.

Ao lecionar disciplinas na área de projeto, solicito aos meus alunos que tomem uma atitude proativa, desconfiando sempre do status quo, revendo processos, rotinas, comportamentos, produtos, normas e até legislações que dificultem de alguma forma, a vida das pessoas. Gosto de imaginar o mundo dos mais variados ângulos e lados. Canhestro, estranho, esquisito, inábil, limitado é aquele que diante de todas as possibilidades e lados opta por um apenas… para mim, sinistro mesmo é ver um lado só da vida.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

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