Meu primeiro apê: será que meus sonhos cabem nele?

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Uma poltrona com estrutura de madeira, com estofado bege escuro, e com uma almofada com estampa bege e dourada. Ao lado, vemos uma mesa de madeira, com um arranjo de flores. Fim da descrição.
Arquiteta alerta para a importância de consultar um profissional antes de comprar um imóvel (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas* (FONTE PORTAL ACESSE)

Sábado à tarde. Assistindo Game of Thrones. Aceitei a sugestão dada por meus aluninhos pelo Facebook. Imaginei que um pouco de sangue, não me faria mal. A realidade em nossas cidades é bem pior do que a ficção. Aninhada no meu sofá, estou entre meus cães macios e perfumadinhos; com uma das mãos seguro uma xícara de chá e, com a outra, pego o controle da TV quando… Toca o celular. Contrariada, atendo com aquele humor que só quem me conhece bem, é capaz de entender e perdoar.
_ Helena, é você?
“Não”, pensei em responder… “Quem tá falando aqui é a Ricotinha, o pet da Helena… como ela se deu ao direito de assistir um filme depois de uma semana de trabalho infernal, resolvi dar um tempo para ela e atendi em seu lugar…”.  Mas, em nome da civilidade e cordialidade, resignada, atendo educadamente. “Sim, quem é?”… Do outro lado, apresenta-se o Pedro. Diz que precisava do favor de um arquiteto e que foi encaminhado por minha vizinha Maria Clara. Não lembro e não conheço a Maria Clara. Nem os meus 52 vizinhos. Acostumada a trabalhar com voluntariado em arquitetura e, com o firme propósito de não estender ainda mais a doce conversa, rosno: “como posso ajudá-lo?”.
_ Vou comprar meu primeiro apê. Não posso errar. A senhora é arquiteta. Pode me orientar?
Quase caí prá trás… Há anos tento explicar a necessidade de se contratar a consultoria de um arquiteto para acompanhar os futuros compradores de imóveis na difícil tarefa de encontrar o lar que vai abrigar suas vidas por um bom tempo.
_ Que ótimo! É uma situação bastante rara essa!

Surpresa com o pedido, perguntei o motivo de procurar um profissional para acompanhar a visitação que antecede a compra.
_ Sou usuário de cadeira de rodas e preciso saber se de fato consigo me locomover dentro do meu novo apê. Foi difícil conseguir o dinheiro, o crédito, o financiamento… A senhora sabe, né? Dinheiro não nasce em árvore!
Muito sábio o pensamento. Tem razão ele. Combinamos de nos encontrar no mesmo dia. Para minha felicidade, o tal empreendimento era próximo de minha casa.  O som de bate-estaca dos últimos meses vinha de lá. Dava para ir a pé. Com um pouco mais de sorte, voltaria a tempo de me jogar no sofá e assistir a série. Cheguei ao local. Fantástica a capacidade de criar cenografias e transformar a leitura de plantas em evento. De cara, sou recebida por jovens sorridentes que nos oferecem sorvetes, café, brigadeiros, cupcakes, toda sorte de gordices que ninguém recusa. Só eu, na minha eterna dieta. Paciência. Encontrei o Pedro. Beirando seus 30 anos, sorriso de canto a canto estampado no rosto, falava sem parar de seus sonhos e não via a hora de estabelecer-se longe da república que dividia com os amigos. Tinha um excelente cargo na empresa onde trabalhava e podia vislumbrar a materialização de seu sonho.
Rapidamente, fomos atendidos por um corretor que se dispôs a falar sobre as maravilhas do empreendimento. Mostrou a maquete, falou do conjunto de espaços que levariam os futuros moradores a incríveis ‘experiências urbanas’… Deck,  solário com bangalôs, piscina com raia, arquibancada com vista para o urban skylinespa centerjapanese gardenfitness centerpet corner, sauna seca e úmida com vestiários, concierge, horta comunitária, jardim dos temperos, manobrista, hub bar, sala para reuniões, eventos,coworking e por aí vai. Já cansada da conversa toda e com muita vontade de acabar com a brincadeira, pergunto: “o senhor pode, por gentileza, me fornecer as plantas das unidades adaptadas disponíveis com as medidas, por favor?

Silêncio

Fechou o tempo. Azedou o clima. O corretor me olhava como se estivesse na presença do anticristo. Chamou o chefe. O chefe chamou o coordenador de área. O coordenador de área chamou o coordenador do evento. O coordenador do evento disse que ele era responsável pelos eventos e não pelas plantas. Ligam para a incorporadora. De lá alguém pede para falar com o arquiteto responsável. O arquiteto, na verdade, era uma empresa imensa composta por inúmeros profissionais de marketing, arquitetura, engenharia, direito, administração entre outros. Como era sábado, eles não tinham a tal planta.
Dirijo meu olhar para o Pedro e pergunto, depois de 50 minutos de espera e, agora sim, com a expressão de anticristo estampada na face, se ele poderia me contar qual era o sonho dele para o seu futuro lar. Ele conta. Fica fora de casa praticamente o dia todo e só volta para dormir. Aos finais de semana ‘cai na vida’ ou viaja com os amigos. Vez e outra, almoça na casa dos pais. “Vai cozinhar?” pergunto. De pronto vem a resposta: “nem morto e se tiver que lavar louça, prefiro jogar fora. Dá pra colocar uma mini lava-louças?” … Ok, pensei, precisa de espaço e instalações de elétrica e água para isso. Não estava na tal planta disponível para todos. “Vai lavar sua própria roupa?” Responde: “ternos, camisas e calças sociais pretendo usar o laundry delivery oferecido pelo concierge do empreendimento. O resto, lavo e seco em casa.” Feliz, corretor, coordenadores, gerentes e nem tão sorridentes jovens, ficam felizes com a resposta do futuro comprador.

“Já entendi”, respondo. Tranquilamente e, já sabendo que meus próximos atos seriam motivo de vergonha para meus filhos, alunos e até amigos, saco de dentro da bolsa um escalímetro e uma trena.

_ Pedro, qual unidade você quer comprar?
_ A que me der menos trabalho para eu limpar e aquela que couber o que eu preciso para viver. Acho que a de 32m². Cabe no bolso.

“Ok”, digo eu. “Primeiro você precisa ter condições de se locomover dentro dela com sua cadeira, certo? Depois, gostaria de saber se você se incomoda de andar de ré ou de costas para entrar nos espaços…”.

_ De ré? Como assim? Cabe direitinho. Tá aqui. Não tá vendo?

Pego o folder de divulgação e começo a fazer o que meu trabalho exige. Digo: “Pedro, os móveis do folder estão fora de escala”

_ Estão o quê? Pergunta ele.

_ Não estão do tamanho certo. A medida do apartamento sim, mas os móveis não estão.

_ Estão tentando me enganar?

_ Não sei. Pergunte para eles.

Com a trena em mãos, mostro para ele a realidade daquilo que o folder tentava vender.

_ Está vendo, Pedro? Você terá 32 cm entre a parede e a cama no seu quarto. A não ser que você entre pelo pé da cama e vá escorregando até a cabeceira, a cadeira não passa…

_ Mas na imagem, parece que dá.

_ Parece, Pedro, mas não dá. Está vendo o que vem escrito aqui? Que todos os móveis, equipamentos, louças, metais e revestimentos de pisos e paredes são meramente ilustrativos e estão sujeitos à alteração. O mesmo pode ocorrer durante a obra por causa das compatibilizações técnicas. O que você está vendo e os demais futuros compradores estão aqui vendo também (já com cerca de dez pessoas me olhando atônitas enquanto eu desenhava ‘no ar’ e mostrava com a trena os espaços) é quase uma obra de ficção. É uma ilustração. Só isso. Bonita, né? Bem feitinha…

Continuei… “No banheiro, é esse o tamanho. A cadeira entra de ré. Se precisar ir até o box, não consegue. O giro completo, nem pensar… acho que não vai dar para tomar banho… Para adaptar o banheiro, colocar uma máquina lavadora e secador de roupas, além do espaço para esquentar uma comidinha rápida, você irá sacrificar a sua sala de jantar ou a de estar, talvez… não é difícil. Dá para fazer. Você terá que projetar e mandar fazer os móveis numa marcenaria para esse seu apê. Não vai dar para comprar móveis prontos. Eles não irão caber… nem para você e nem para quem está nos olhando enquanto conversamos”.

Minha pretensão de assistir Game of Thrones estava cada vez mais difícil, graças ao tempo que eu estava disponibilizando com ele e agora mais do que isso: tirando dúvidas e dando a consultoria de graça para os demais futuros compradores que estavam por lá…

Terminada a visita ao stand de vendas, dirimidas as dúvidas, vejo o Pedro titubeante, tentando me perguntar algo.

_ Diga rapaz, qual é a dúvida?

_ Obrigada por me ajudar. Mas é que eu vou precisar fazer novas visitas. Se eu tivesse feito à visita sozinho, eu teria investido minhas economias num apê que eu não conseguiria morar. Quanto custa sua consultoria? É caro, né? Você divide o valor? Em quantas vezes?

#Morri

Pergunto: “Você parcela a consulta do seu psicólogo ou do seu oftalmologista?”

“Não”, responde ele.

No final, expliquei ao Pedro e aos demais que permaneciam me ouvindo, a importância de consultar-se com um profissional da área não apenas na escolha do imóvel, mas principalmente quando da entrega das chaves. É fundamental ler o memorial descritivo do imóvel e conferir se o que está sendo entregue é exatamente aquilo que foi comprado. Em alguns casos, não é. Quanto ao valor, reitero: se a consulta de um médico não é cara, a de um arquiteto, também não é. Os valores equiparam-se. Os resultados interferem diretamente na qualidade de vida daqueles que irão construir seus lares e realizarem seus sonhos neles. Eles precisam, no mínimo, caber. Um projeto é cobrado de forma diferente. Depende do tipo de serviço contratado.  Ainda assim, vale a pena perguntar a um profissional.

Para o Pedro e para os demais ouvintes que presenciaram a situação inédita, encaminhei os nomes de ex-alunos e colegas.

Voltei para casa. Ricotinha e Chanel me aguardavam no sofá. Peguei a melhor louça da casa. Preparei um novo chá. Enfim, assisti ao primeiro episódio.

O Pedro? Comprou o apartamento com área maior. Tinha até uma varandinha. Os espaços foram projetados por um colega meu para ele. Seus sonhos caberão em seu novo apê.

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

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