Podcast comentado do post: O design das cidades está se adaptando ao envelhecimento da população?

Neste podcast, falo sobre o processo de envelhecimento da população brasileira e sobre a necessidade urgente de revermos nossa forma de pensar, conceber e realizar planejamento urbano e projetos de ambientes construídos.

Se quiser conhecer o post, o link está logo aqui:

Melhorando com a idade? Como o design das cidades está se adaptando ao envelhecimento da população

 

Melhorando com a idade? Como o design das cidades está se adaptando ao envelhecimento da população

Estamos envelhecendo e o design de nossas cidades precisa mudar também. Se quisermos ruas, calçadas e praças mais agradáveis e aprazíveis, formuladores de políticas públicas e designers/projetistas do ambiente construído deverão adequar seus conceitos e projetos para as mudanças funcionais do corpo e do intelecto. Planejar as cidades para que as pessoas continuem ativas ao longo do tempo melhora a qualidade de vida urbana. Se por um lado com o avançar dos anos as pessoas tendem a não dirigir seus veículos, por outro lado as políticas públicas deverão incluir em suas agendas, ações que garantam um transporte público mais eficiente e resiliente às necessidades das pessoas. Outro exemplo é a questão da velocidade. Já não se trata mais de discutir buracos na calçada ou manutenção medíocre. Nos acostumamos à gestão pública horrenda de prefeituras e governos seja lá qual for a instância. Precisamos lembrar que daqui a pouquíssimos anos a velocidade do caminhar urbano será reduzida a 3 km/hora; o que muda? Passeios públicos, esquinas e calçadas além de não escorregadias e lisinhas, deverão ter mobiliários ao longo de seu trajeto adequados às novas necessidades: não se trata apenas de lixeiras. Trata-se de lugares para sentar, com iluminação na altura do pedestre, sinalização semafórica adequada ao passeio de seres humanos com mobilidade reduzida, sombreamento, sinalização vertical na altura do pedestre incluindo caixas de texto legíveis e com contrastes adequados para todas estas mudanças. No último parágrafo do artigo, a cidade de Manschester aponta para um caminho: a forte liderança política que os cidadãos mantém, ou seja, pessoas comuns organizadas em grupos pressionam seus representantes políticos de tal forma que suas demandas são ouvidas. Estes são apenas alguns dos exemplos.

Apesar de não se adaptar perfeitamente à realidade brasileira (com todas as desigualdades econômicas, sociais, culturais que estamos fartos de saber e cobrar de nossos representantes públicos) gostei do texto e de fato acredito que pode inspirar novas pesquisas e cobranças de ações mais práticas de nossos vereadores e prefeitos. Por isso, deixo aqui neste post para reflexão de vocês. A tradução é livre: significa que pode haver erros de interpretação de minha parte. ok?. O original está neste link:
Fonte:
Improving with age? How city design is adapting to older populations Disponível: http://bit.ly/2sIjKAd Acesso: 04.12.2019

elderly womanUma Mulher idosa no centro da cidade de Stockport. Foto: Christopher Thomond / The Guardian

O texto trata destas questões e mais:

Melhorando com a idade? Como o design da cidade está se adaptando às populações mais velhas.

À medida que as cidades passam por uma mudança demográfica, a necessidade de um design/projeto “amigo do idoso” se torna cada vez mais crítico. De almshouses a carros sem motorista, o futuro da habitação urbana e da mobilidade pode ser moldado “apenas para” e sim, “para os idosos”.

Não há como negar: gostemos ou não, estamos todos ficando mais velhos. Segundo o relatório da ONU sobre a População Mundial,a população global de idosos está crescendo a uma taxa sem precedentes. Em 2050, pela primeira vez na história, haverá um número maior de pessoas com mais de 65 anos do que crianças menores de 15 anos. O número de pessoas com mais de 100 anos aumentará em 1.000%. E como até lá cerca de 70% da população do mundo provavelmente viverá em cidades, isso apresentará enormes desafios levando à necessidade urgente de adaptação física destes aglomerados.

A empresa global de engenharia Arup analisou como as autoridades estão respondendo a essa mudança demográfica. Stefano Recalcati, líder do projeto por trás do relatório da empresa Shaping Aging Cities, explica que as cidades precisam se ajustar para que as pessoas mais velhas mantenham a qualidade de vida: “É importante estar consciente da tendência de envelhecimento. É um enorme desafio para as cidades do mundo – elas precisam mudar, para garantir que as pessoas mais velhas continuem a desempenhar um papel ativo na comunidade e não fiquem isoladas. O isolamento tem um impacto negativo na saúde, portanto é muito importante lidar com isso. ”

“Pequenas inovações podem fazer a diferença”, acrescenta Recalcati. “As pessoas mais velhas têm menos probabilidade de dirigir, favorecendo o transporte público e a caminhada. Uma pessoa média com mais de 65 anos consegue uma velocidade de caminhada de 3 km / hora. Aos 80, isso diminui para 2 km / hora, em comparação com a média para uma pessoa em idade ativa de 4,8 km / hora. Reduzir a distância entre pontos de transporte, lojas, bancos, árvores à sombra, banheiros públicos e melhorar as calçadas e permitir mais tempo para atravessar a rua incentiva todos os idosos a sair. ”

No Reino Unido, o governo acaba de anunciar a construção de 10 novas cidades projetadas para lidar com problemas de envelhecimento e saúde, como a obesidade. Além de incentivar estilos de vida mais ativos, os projetos podem incluir calçadas mais amplas, poucos riscos de viagem e sinalização em movimento no LCD, facilitando a navegação pelas ruas para pessoas com demência e outras condições relacionadas à idade. A organização de caridade Living Streets, com sede em Londres, também tem trabalhado ao lado de comunidades que realizam auditorias nas ruas com moradores mais velhos para ver quais melhorias poderiam ser feitas, além de fazer campanhas em nível estratégico para influenciar mudanças legislativas e de infraestrutura positivas. O projeto Time to Cross fez uma campanha para aumentar o tempo de travessia de pedestres, o que resultou na concordância de uma Transport for London (TfL).

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“Permitir mais tempo para atravessar a rua incentiva as pessoas mais velhas a sair”. Fotografia: Francisco Calvino / Moment Editorial / Getty Images

As cidades que abordaram a acessibilidade provavelmente estarão à frente do jogo em termos de idade. Nos últimos anos, foram feitos esforços para tornar as cidades mais acessíveis aos residentes e visitantes com deficiência e idosos. Berlim tem como objetivo 100% de acessibilidade até 2020. As autoridades da cidade estão trabalhando para ampliar as calçadas, trazer orientações táteis nas travessias das estradas e facilitar o acesso a bondes e ônibus. Este ano, Milão venceu o premiação da Comissão Européia intitulado Acess City Award por seu alto padrão de projeto de construção e acesso ao transporte.

Que lições os planejadores urbanos podem aprender observando as comunidades de aposentadoria existentes? São populares nos EUA e crescem em outras partes do mundo: cidades separadas, geralmente fechadas, para maiores de 55 anos. Deane Simpson, arquiteta que ensina na Academia Real de Artes da Dinamarca, em Copenhague, falou recentemente em um evento organizado pelo Museu de Arquitetura e pelo The Building Centre, em Londres, sobre o projeto de cidades para uma população envelhecida. Em seu livro, Young-Old: Urban Utopias of an Aging Society (Lars Müller Publishers, 2015), Simpson analisa comunidades como as de 55 a 75 anos aposentadas e com boa saúde e dinheiro para gastar. A proposta urbana denominada The Villages in Florida, é uma rede de empreendimentos de “vilas” que abriga 115.000 pessoas com mais de 55 anos interligadas por uma sistema de 150 quilômetros de estradas de carrinhos de golfe sem automóveis individuais – e oferece uma vida de restaurantes, bares, cinemas e esportes.

Simpson critica a maneira como esse tipo de estilo de vida separa as pessoas do resto da sociedade, com a idade se tornando uma nova forma de segregação. No entanto, ele aceita que eles reflitam o desejo de um estilo de vida ativo e cheio de experiência. Simpson admite que existem certos elementos que poderiam ser aplicados a um cenário urbano multigeracional: “A infraestrutura de carrinho de golfe fornece uma rede de transporte para veículos mais lentos que carros. Isso poderia ser replicado como uma maneira de integrar scooters de mobilidade e cadeiras de rodas elétricas e bicicletas. Na Dinamarca e na Holanda, onde a cultura do ciclismo é forte, as ciclovias são cada vez mais usadas pelos motonetes/patinetes. É uma maneira de permitir uma mobilidade segura para aqueles que não conseguem andar e não conseguem dirigir. ”

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Utopia da mobilidade ou refúgio exclusivo? Carrinhos de golfe são o principal transporte nas aldeias da Flórida. Foto: Alamy

O modelo americano de comunidades de aposentados está sendo cada vez mais exportado. Na China, mais de um quarto da população terá mais de 65 anos até 2050. Os idosos são tradicionalmente atendidos pela família extensa – geralmente com três gerações vivendo juntas. Mas as mudanças demográficas estão desafiando severamente essa unidade familiar. A política de um filho combinada com uma expectativa de vida mais longa significa que um casal típico pode cuidar de quatro pais e até oito avós.

Há um aumento nos esquemas de vida assistida, como o Merrill Gardens, projetado nos EUA, em Xangai e Harbin. O Lead 8 é um estúdio de arquitetura e design que trabalha na região; seu cofundador e diretor Simon Blore explica que eles trabalharam em novos desenvolvimentos na China, que são 80-100% voltados para grupos de idosos. “Tentamos manter a escala de uma típica vila chinesa; todas as necessidades são atendidas a uma curta distância a pé (os idosos na China não têm carros e nem podem mais usar bicicletas). Sobreposto a isso, encontra-se um sistema de clínicas de saúde ‘locais’, serviços essenciais, espaços abertos e instalações de lazer, que não são tão diferentes das moradias assistidas, mas em uma escala muito maior. ”

Blore tem reservas sobre se a vida de idosos no estilo americano será amplamente aceita: “Eu acho que a maioria das pessoas quer fazer parte da sociedade regular, parte da comunidade, então isso provavelmente é um desafio internacional – tentar conseguir esse equilíbrio corretamente – um lugar com um alto nível de atendimento e um senso de comunidade e um relacionamento com a sociedade em geral. ”

A Lead 8 está trabalhando em um complexo residencial da Malásia em Kelana Jaya, perto de Kuala Lumpur, que poderia oferecer uma solução. “Em cada andar, há planos de tamanhos diferentes, um com o outro e uma parede que pode ser derrubada. Um proprietário pode comprar dois apartamentos contíguos – um grande e um pequeno. A família vive na casa grande com os avós ao lado, e eles podem ser separados ou interconectados. ”

A integração, em vez da segregação, é defendida pelo arquiteto londrino Stephen Witherford. Sua empresa, Witherford, Watson, Mann Architects, construirá um complexo de 57 apartamentos para maiores de 75 anos em Bermondsey, Londres. O projeto é baseado no modelo tradicional de alojamento de caridade para aposentados, mas atualizado para o século XXI. “Tradicionalmente, as almshouses ficavam atrás de uma cerca”, explica Witherford, “mas queríamos criar uma versão que resolvesse o problema do isolamento. Terá um lounge que se abre diretamente para a rua principal.” Haverá uma escola de culinária, espaço para apresentações, espaços diversos na cobertura e uma oficina. Os moradores podem realizar feiras de artesanato, vender bolos e realizar ou assistir a peças de teatro. “O público pode entrar e se envolver. As comodidades estão próximas e há uma parada de ônibus do lado de fora para viagens à cidade.”

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Pátio interno de um complexo de apartamentos no sul de Londres, projetado para maiores de 75 anos. Composto: Witherford Watson Mann

Repensar os projetos tradicionais também é uma prioridade para Susanne Clase, arquiteta da White Arkitekter, que está projetando apartamentos para idosos em Gotemburgo, na Suécia, e incluindo potenciais residentes e profissionais de assistência domiciliar na tomada de decisões. Ela explica que os apartamentos foram projetados para acomodar visitas regulares de profissionais que ajudam em tarefas pessoais: “em nosso projeto, os espaços públicos e privados são revertidos. O quarto e o banheiro ficam na porta da frente para que o cuidador possa acessá-los. A sala de estar e a cozinha ficam na parte de trás e são o espaço privado do residente. ”Clase acredita que projetar com o envelhecimento em mente é bom para todos. “É importante ajudar as pessoas a viver de forma independente pelo maior tempo possível e projetar isso desde o início, em vez de fazer adaptações mais tarde. Já temos um alto nível de acessibilidade na Suécia. Você não terá permissão para construir, a menos que possa mostrar que, se o residente quebrar uma perna, não haverá problema. Então, já estamos pensando no futuro.”

Embora gestores públicos europeus estejam olhando para o futuro, no Japão o futuro já chegou. O país tem a população mais antiga do mundo: 33% tem mais de 60 anos, 25% acima de 65 anos e 12,5% acima de 75 anos. “O Japão tem muito idade, então o governo está priorizando tornar as cidades mais amistosas e resilientes ​​à idade”, diz Setsuko Saya, chefe de política regional na pesquisa liderada pela OCDE sobre o envelhecimento nas cidades. Toyama, local em que 26% dos moradores têm mais de 65 anos, adotou o princípio de uma cidade compacta – que promove alta densidade, transporte público, caminhadas e ciclismo. O objetivo é evitar a expansão urbana que pode ser tão isolada para pessoas com mobilidade limitada. Apesar de estar em uma grande área de terreno plano, que poderia ser desenvolvida, a política não é expandir para fora. Um bonde circunda a cidade e o investimento é focado ao longo da linha do bonde e no centro da cidade, onde existem espaços públicos para as pessoas se reunirem. As pessoas vivem em áreas residenciais limitadas, próximas aos serviços e com bons transportes públicos – portanto, não precisam dirigir. Saya ressalta que é importante não caracterizar o envelhecimento como um problema e reconhecer que essas estratégias não apenas ajudam as pessoas mais velhas: “O bonde conecta as pessoas e também as transporta. É bom para todos. ”

Embora o desenvolvimento do transporte público seja importante, sempre haverá quem não consiga acessá-lo. Um relatório do Reino Unido do International Longevity Centre constatou que, apesar do transporte ser gratuito para maiores de 65 anos, mais de 30% deles não usam o serviço. Nesses casos, os carros autônomos são apresentados como uma solução que pode “libertar” os idosos, como um serviço de mobilidade para aqueles que não podem mais dirigir e não são atendidos pelo transporte público. O Google está até “direcionando” seus carros autônomos para aposentados. A cidade de Suzu, no norte do Japão, já vem testando o uso de carros autônomos para manter os idosos em movimento.

Mas como essas inovações funcionarão em uma era de austeridade, aposentadorias reduzidas, aposentadoria posterior e aumento dos custos de moradia? O design compatível com a idade pode nos ajudar a repensar nossas cidades, mas como podemos garantir que essas inovações atinjam a maioria das pessoas mais velhas? Olhando para o futuro, com a expectativa de que a geração do milênio seja mais pobre do que os pais de baby boomers, é improvável que os jovens incapazes de subir na escada da habitação hoje tenham equidade na velhice. O professor Christopher Phillipson, da Universidade de Manchester, acredita que é necessária mais vontade política para garantir que cidades favoráveis ​​à idade incluam as afetadas pela austeridade e pelo declínio industrial: “cidades favoráveis ​​à idade custam dinheiro, mas no Reino Unido há menos dinheiro disponível para as autoridades locais que desejam agir . Existem barreiras consideráveis ​​- devido às pressões orçamentárias e ao comprometimento limitado dos formuladores de políticas e desenvolvedores. Na ausência destes, a possibilidade de criar ambientes amigáveis ​​para a idade será restrita. ”

Em Manchester, a primeira cidade do Reino Unido a ser reconhecida como favorável/amiga à idade pela Organização Mundial da Saúde, o Manchester Institute for Collaborative Research on Ageing (Micra) vem capacitando idosos para pesquisar o que faz uma cidade amiga da idade. Eles descobriram que, para a maioria das pessoas, era importante o contato humano, e não os aparelhos de alta tecnologia – como visitas comunitárias de porta em porta para pessoas incapazes de usar o transporte público. “Manchester é favorável à idade porque tem forte liderança política e a cidade apoia grupos de bairro e trabalha com líderes comunitários”, continua o professor Phillipson. “O mais importante é a colaboração entre uma ampla gama de interesses, principalmente os idosos.”

Teaser: ACESSIBILIDADE DO AMBIENTE EDIFICADO – introduzindo questões normativas e legais

Teaser da Aula Aberta

Pessoas queridas: este um teaser do trabalho que estou desenvolvendo atualmente como profissional de ensino; Ainda não estou habituada às ferramentas  de EaD mas, graças à orientação firme e segura de Stephanie Degreas (roteirista e atriz), espero conseguir iniciar minha série de cursos online sobre os temas que mais gosto: diretrizes para projetos utilizando os conceitos de Desenho Universal e também diretrizes de projeto para o exercício da Arquitetura Paisagística.

Campanha Calçadas do Brasil 2018

Andar pelas calçadas brasileiras não é tarefa fácil. Conceitos como “caminhabilidade” ou ainda Walkability  apontam para cidades que acolhem a presença das pessoas que nelas vivem, que passeiam, que trabalham, que fazem compras ou que apenas observam a vida urbana.  Desde  meados do século passado, nossas cidades foram se adaptando à locomoção motorizada e, a partir daí, tomando a forma mais adequada para um novo cidadão: o automóvel. Para ele, veículo-cidadão, foram criadas ruas lisinhas e que não podem ter um único buraco! Para ele, veículo-cidadão-motorizado, foram criadas sinalizações adequadas que não devem em hipótese alguma, atrapalhar seu deslocamento e velocidade!

Calçadas do Brasil

é mesmo uma calçada?

E como ficamos nós que nos locomovemos  a pé? será que algum dia seremos mais cidadãos do que o veículo-cidadão? Continuaremos a caminhar nas condições indignas oferecidas pela calçada acima e com a omissão da prefeitura? Dá para considerar o caminho que faço todos os dias, natural?  Inúmeras das cidades brasileiras que visitei com meu grupo de pesquisa (QUAPA-SEL FAUUSP) nem calçadas tem… parece incrível, mas calçada não é plataforma de governo municipal e raramente é reconhecida como parte da infraestrutura de locomoção urbana.

Agora vou mostrar do outro lado da rua:

Calçadas do Brasil

mesa para clientes, fios, cadeiras para clientes, degrau para entrar no boteco tem, mais fios, poste, fios, orelhão e mais fios tem: e passeio tem?

Vejam que interessante: a calçada foi remodelada para atender a clientela do bar. Entre as mesas e a faixa das prestadoras de serviços públicos (onde estão os postes), tem-se cerca de 0.60 cm. falta de respeito é pouco e mais: cadê a Prefeitura Regional  de Pinheiros que não toma nenhuma atitude? Será que não leram o Cartilha para Calçadas Acessíveis?

É por essa razão que decidi colaborar com a Campanha Calçadas do Brasil. Veiculada pelo Portal Mobilize, a campanha tem por objetivo avaliar as condições de caminhabilidade das calçadas brasileiras.

Campanha Calçadas do Brasil

Questões que podem avaliar a sensação de segurança do pedestre quanto à inclinação, iluminação noturna, existência de irregularidades ou obstáculos na circulação do pedestre e sinalização para travessia, faróis e demais elementos são avaliadas por esse formulário. Finalizada a avaliação, a plataforma terá uma espécie de “raio X” das condições de civilidade oferecidas pelo poder público ao cidadão de fato, aquele que vota e exige uma cidade digna.

Ricky e Marcos: divulguem o resultado, mesmo que parcialmente,  ANTES das eleições.

Eu, cidadã eleitora, agradeço!

Sugestão de leitura:
Movido pela Mente

O livro MOVIDO PELA MENTE conta a história de Ricky Ribeiro, jovem que dedicou sua vida à atividade física, até descobrir que estava com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), doença degenerativa que impossibilitou seus movimentos. Através da história de todos os meios de transporte que Ricky experimentou em diferentes partes do mundo, o livro traz reflexões sobre mobilidade urbana, urbanismo, caminhabilidade, calçadas e acessibilidade. E narra a sua trajetória de liberdade e movimento, até a descoberta do diagnóstico e sua singular forma de superação. Hoje, da sua cama, apenas com o movimento dos olhos, Ricky coordena o maior portal de mobilidade urbana do país, o Mobilize Brasil, empenhando a própria imobilidade para melhorar a forma de outras pessoas se moverem.

 

Por uma vida independente

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Um casal de idosos está em uma cozinha preparando alguns alimentos. Fim da descrição.
Arquitetura pode garantir qualidade de vida e independência na melhor idade (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

Todos nós queremos ter uma vida independente ao longo de toda nossa vida. Infelizmente, mais cedo ou mais tarde, o corpo começa a perder as habilidades que tanto demoramos a conquistar e começa a ‘reclamar’ com uma dorzinha aqui e uma fisgadinha ali… uma hora porque a tomada parece que ficou mais baixa do que o usual, para levantar do sofá macio o encosto para os braços é necessário ou ainda a parte superior do armário parece inalcançável…

 

Vida independente na melhor idade

Mais cedo ou mais tarde, a casa em que moramos precisará de algumas alterações para poder nos servir de forma mais eficiente com o passar dos anos. Projetar a independência no lar faz-se necessário, quando não, inevitável…

Ao pesquisar aqui por nossas terras a existência de profissionais e escritórios de arquitetura que atendam às especificidades funcionais e necessidades de pessoas mais maduras (conceito sugerido pelo meu colega arquiteto Cidomar), deparei-me com a baixa oferta frente à demanda atual e também futura. A pesquisa também apontou que em alguns casos, o passar dos anos é associado ao envelhecimento e à doença, quase como se fossem sinônimos. Trata-se de uma postura absolutamente equivocada e reducionista para abordar o assunto.

A independência e a capacidade de agir livremente são fundamentais para a qualidade de vida de qualquer ser humano. É possível que doenças crônicas relacionadas à idade possam ocorrer não necessariamente interferindo sobre a mobilidade e habilidades funcionais do corpo ou do intelecto.

Os princípios de desenho universal podem e devem ser utilizado por qualquer profissional de arquitetura e design para a qualidade de vida das pessoas, mas, sozinhos não são capazes de servir de apoio para a sonhada independência.

Ainda que na mesma habitação, o ‘habitar’ toma diferente formas com os anos. Mudam os pensamentos, o estado do corpo, as qualidades e atributos que moldam e definem aquela pessoa e com ele o seu jeito de ser e ver o mundo. Os anos trazem novidades e com elas formas de habitar. Embora o investimento e os tipos de moradia variem muito de uma para outra cultura, países como Inglaterra, Canadá e Estados Unidos apresentam tanto empresas privadas quanto políticas públicas de atendimento à demanda de assistência por tipos de serviço necessários para uma vida independente. São planos e programas que oferecem serviços de assistência diversificada, incluindo opções de habitação, que se adequam aos estilos de vida, saúde e condições financeiras.

Aging in place ou ainda permanecer morando em sua própria casa ao longo de toda a sua vida é uma opção bastante atraente e desejável. A grande vantagem dessa situação é manter-se em local familiar, perto de seus vizinhos e num bairro cujos serviços, comércios são conhecidos facilitando uma vida social autônoma. Nesses casos, os planos oferecidos pelas empresas asseguram serviços de cuidado e manutenção da casa com o objetivo de tornar a vida mais fácil e segura ao morador. Os serviços incluem desde reformas e adaptações de toda a casa até serviços de limpeza e alimentação.

Uma segunda forma de morar é a coletiva e colaborativa. Em vilas, comunidades, residenciais horizontais ou verticais, são condomínios especializados que oferecem programas e serviços especializados como transporte, supermercado, ajuda em tarefas domésticas, cuidados com a saúde e uma rede de atividades sociais (recreação, teatro, viagens, visitas e uma infinidades de atividades culturais) com outros membros do lugar. Nesses casos, diferentemente da casa e mesmo com vida independente, são residenciais projetados exclusivamente para adultos mais velhos e que não desejam cuidar de uma casa ou morar sozinhos. Levam o nome de retirement communitiesretirement homessenior housing ou ainda senior apartments.

Outra forma de morar é conhecida por assisted living residence. Trata-se de uma residência coletiva para adultos que optam, por diversos motivos, por não viver de forma independente. Nos estados Unidos é tratada como uma indústria de vida assistida ou ainda de prestação de serviços altamente especializados que viu seu negócio evoluir do modelo de cuidados pessoais em saúde (com foco em enfermagem como exemplo) para um modelo com foco na sociabilidade e também com cuidados pessoais e saúde.

Mais do que atender aos princípios do desenho universal, esses profissionais deverão estar preparados para a prática do Transgenerational Design. Cunhado em 1986 por James J. Pirk, o conceito trata da prática de conceber e tornar produtos e ambientes compatíveis com os impedimentos físicos e sensoriais associados ao processo de envelhecimento humano e que podem vir a limitar as principais atividades da vida diária quer no lar, quer no ambiente de trabalho que em ambiente social. Coincidência ou não, o conceito surgiu em meados dos anos 1980 paralelamente à concepção do desenho universal como subproduto da Lei denominada Age Discrimination Act of 1975 (ADA) que proíbe uma espécie de “gerontophobia” ou ainda a discriminação com base na idade em ‘programas e atividades que recebem assistência financeira federal’ ou ainda excluindo, negando ou fornecendo serviços diferentes ou de qualidade inferior tendo como base a idade. Empresas como a Microsoft e Intel vêm desenvolvendo produtos ‘amistosos’ para o uso de pessoas com idade mais avançada colaborando na diminuição da tendência de associação do processo de envelhecimento ao de deficiência, declínio ou incapacidade frente às situações de vida.

Embora as oportunidades de investimento e negócios sejam promissores para as próximas décadas, a formação dos profissionais nas áreas de constrição civil, negócios imobiliários, planos de saúde e assistência doméstica para pessoas maduras, precisarão ampliar o leque de produtos e serviços para atender a uma população exigente e com estilos de vida bem mais abrangentes e interessantes do que aqueles tradicionalmente oferecidos como ‘casas de repouso’, ‘cuidadores’, enfermeiros, homecare, flats para terceira idade entre outras variações.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

Kombis, trailers, studios: a nova moda dos imóveis reduzidos

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Imagem de uma planta baixa de um imóvel com tamanho reduzido. Na imagem, temos algumas especificações para um morador cadeirante. Fim da descrição.
A arquiteta Helena Degreas destaca a nova moda dos imóveis com tamanho reduzido (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

Você já pensou como deve ser morar numa habitação de 10 m²? E se, além do tamanho dos imóveis reduzidos, você dependesse de uma cadeira de rodas para se locomover?

Nos últimos meses, um debate acalorado sobre o surgimento de apartamentos studio vêm tomando conta das redes sociais. Com tamanhos que chegam a 10m², essas unidades já colocaram a cidade de São Paulo como a campeã nacional na oferta de mini-moradias . Possível desde a promulgação do Novo Código de Obras do município de São Paulo (COE/2017) que revisou as dimensões mínimas dos ambientes residenciais, qualquer um pode ser proprietário de um miniapartamento com excelente localização urbana. Maior do que uma kombi (7.30 m²) e menor do que um trailer (10,26 m²), os apartamentos Studio são a novidade que cabe no bolso, mas não comportam as funcionalidades de um lar – minha opinião.

A revisão das dimensões mínimas dos ambientes residenciais constantes do COE 2017 e da NBR 15575 associadas ao financiamento de imóveis novos no valor de até 240 mil reais pelo programa Minha Casa Minha Vida da Caixa Econômica Federal, vem facilitando a aquisição de habitações para aqueles que têm renda de até 3 mil e 600 reais.

Dados do IBGE (2010) mostram que 74,9% da população que declarou ter alguma dificuldade para caminhar ou andar (não consegue de modo algum, grande dificuldade, alguma dificuldade) recebe entre 0.5% e 3 salários mínimos estando aptos, portanto, a pleitear o financiamento. Ou seja: cerca de 7% dos brasileiros ou ainda, 13.2 milhões de brasileiros. Deste grupo, um pouco mais de 4 milhões declararam possuir dificuldade de locomoção severa. Desconsiderar essas estatísticas e, com elas as adaptações necessárias para atender a esse público ainda no ato do projeto, na construção ou no planejamento do negócio pelas construtoras é incompreensível em época de crise econômica e com financiamento disponível.

O que ocorre com a unidade propriamente dita: dá para morar em 10m² e, ainda assim, atender a NBR9050 com qualidade? De acordo com o Arquiteto Marcelo Sbarra, não. E eu complementaria: não dá para ninguém morar em 10 m² com um mínimo de dignidade.

As unidades de moradia mínima já existiam no pós-guerra. Com o objetivo de atender a uma camada da população de baixo poder aquisitivo, o movimento modernista previa que a noção de mínimo não se resumia à restrição da área útil e sim à versatilidade de uso do espaço doméstico com áreas claramente definidas que viabilizavam as dinâmicas familiares. Os projetos da época apresentavam uma planta livre integrando ambientes sociais que, pela distribuição de móveis, criaram espaços de usos diversos; banheiros, cozinhas e dormitórios, independentemente do número de moradores, eram compactados e individualizados em cômodos separados.

Ainda, de acordo com Sbarra (2017) “… Embora o Código de Obras estabeleça as dimensões mínimas para quartos, salas, banheiros e cozinhas em NENHUM lugar em NENHUMA lei ou Norma há a definição do que seja um apartamento”. Pois é. Aprova-se a unidade como banheiro + sala. Cozinha transforma-se em área de preparo de alimentos. Um cooktop elétrico de duas bocas resolve o problema. Lavar roupas? Só se for do lado de fora da unidade. Na moda mesmo, é agendar e, em alguns casos, pagar para utilizar uma máquina lava e seca da lavanderia coletiva do condomínio. Soube por um conhecido que o filho dele havia adquirido essa unidade. Por considerar desnecessário lavar as meias e a camiseta numa ciclo completo lava e seca decidiu fazer isso no chuveiro enquanto tomava banho. Para secar? Comprou um mini varal e pendurou na varandinha gourmet. Resultado: levou uma multa do condomínio por utilizar de forma incorreta as áreas de uso comum. Sim, a varanda é dele, mas… Tem regras de comportamento: de acordo com o síndico profissional: “É para evitar que o prédio se transforme numa Veneza brasileira com varais e roupas penduradas na fachada do edifício”…

Se já é ruim para quem anda com as duas pernas, fica ainda pior para quem tem dificuldade de locomoção e necessita de cadeira de rodas, tem órtese, prótese, bengalas ou andadores. O problema maior para esses casos é que a unidade habitacional necessita de obras de construção civil para que possa ser utilizada por esses usuários. A adaptação de um apartamento já construído eleva o seu valor dependendo, por exemplo, do número de portas que serão substituídas, pois não tem um vão livre de pelo menos 0.80 m como banheiros, lavabos, lavanderias e outros. As alturas de bancadas, interruptores, tomadas armários entre outros itens precisarão de alterações, elevando o custo final da unidade para o morador. Todas essas alterações precisam de arquitetos, engenheiros, pedreiros, eletricistas, encanadores, pintores, marceneiros, azulejistas… Se as alterações forem pensadas ainda na planta, os custos são insignificantes no total do investimento para a construção, pois nesse caso, as adaptações ocorrem ainda na fase do projeto.

Para quem tem curiosidade em ver uma planta de uma unidade do tipo studio feita pelo Marcelo Sbarra para uma pessoa com dificuldade permanente de caminhar ou subir degraus, veja a ilustração abaixo.

A dimensão mínima necessária para que a locomoção em cadeira de rodas possa ocorrer é de no mínimo 24m². É possível desenvolver outros layouts para distribuição de mobiliário viabilizando a inclusão de estações de trabalho, ponto de água e esgoto para uma máquina de roupas do tipo lava e seca pequena além de um lavatório com tampo e cuba de sobrepor no banheiro.

Estou preferindo morar num trailer e até numa kombi. Espécie de casa móvel, podem me levar para onde eu quero ir… Longe, para bem longe desses studios…

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

 

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Em cima de uma mesa temos uma toalha de renda branca. Sobre ela, um porta-retrato, um laptop, um óculos de grau e uma xícara com chá. Fim da descrição.
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FONTE: Portal Acesse

Por: Helena Degreas*

Outro dia, estava eu no metrô, fazendo uma das coisas que mais gosto de fazer enquanto estou na rua: observar pessoas e seus comportamentos. Naquele momento, vi sentar-se num dos bancos preferenciais, uma mulher cuja idade era indefinida. Cabelos brancos (estão super na moda hoje), lisos, longos, soltos sobre os ombros, maquiagem leve, irretocável. Corpo lindo, bem cuidado, vestindo roupas de estilo casual, cores contemporâneas e abusando das sobreposições. Se eu fosse blogueira fashionista, certamente ela seria a musa inspiradora de um post, com direito a foto e entrevista. Parecia atrasada. Não soltava o celular da mão. Dentro da bolsa, era visível um tablet. Eis a nova geração de idosos.

Repentinamente, me dou conta que atrás dela, estava fixada na parede do vagão, aquela plaquinha que identifica por meio de símbolos, as pessoas que tem preferência ou prioridade de uso do banco. Daqueles vários, destacou-se um: sabe aquela figurinha que apresenta uma pessoa curvada usando uma bengalinha? Pois é. Aquela mulher poderosa sentada na minha frente era a tal velhinha que, em tese, estava retratada na placa. Só faltou o coque com a redinha prendendo os fios.

Lembrei-me do Estatuto do Idoso. Nele, são consideradas idosas as pessoas a partir de 60 anos. Como assim? Comecei a pensar na possibilidade de mudar aquele desenho para algo diferente simplesmente porque não representa mais a realidade. Acredito que o Estatuto do Idoso merece algumas revisões porque envelheceu; no mínimo as ilustrações e a referência às idades. Hoje somos mais longevos do que nossos avós. Se em 1960 a expectativa de vida do brasileiro era de cerca de 50 anos, em 2015 a expectativa era superior aos 75 anos. Com algumas variações entre os estados: Santa Catarina lidera o ranking com 78 anos e o estado do Maranhão é “lanterninha”, com 70 anos. E mais: muitos de nós conhecemos e convivemos com diversas pessoas acima dos 90. Outro dia, ouvi meu colega dizer que iria comemorar o 102º aniversário da mãe – que mora sozinha, por sinal. Aliás, foi ela que me passou a receita que uso para fazer manteiga caseira. Fiz nesse final de semana. Ficou saborosa. Recomendo. Mesmo eu saí para jantar outro dia, com um advogado centenário. Seu pensamento estava mais lúcido do que o meu. Mesmo depois de várias taças de vinho. #morrideinveja

A mulher que estava sentada na minha frente, era uma das mais de 23 milhões de pessoas com idade superior a 60 anos que, com seu trabalho, sustentam a casa, muitas vezes a família e com isso movimentam um mercado de cerca de 1 trilhão de reais por ano segundo dados do Bank of America Merrill Lynch. É muito dinheiro. A visão que temos sobre o envelhecimento ainda está fortemente arraigada a questões de saúde e previdenciárias aqui por nossas terras. É certo afirmar que existem aqui discrepâncias sociais e econômicas literalmente obscenas, se me permitem o uso da palavra. Trata-se de uma sociedade e um Estado, injustos, que maltratam uma boa parte da população com as mais variadas idades. Mas por outro lado, também é certo afirmar que a visão do vovô preestabelecida pela sociedade também já não atende mais as necessidades dessa população ainda cheia de vida.

Essa imagem me faz lembrar a minha avó paterna: Helena, como já mencionei em outra coluna. Sua meta de vida era ver os netos (quiçá, bisnetos) crescerem enquanto ela, sentadinha numa cadeira de balanço, faria crochê. E fez isso mesmo com um agravante: vestida de preto até o fim da vida, pois, na qualidade de viúva grega (desde os 30!) deveria vestir-se assim por questões de decoro religioso. Agia como se o seu dever estivesse cumprido.

Continuei olhando para aquela mulher: desligou o celular e foi teclar no tablet. Aparentemente, este estilo de vida – “esperando a morte chegar”, não fazia parte dos pensamentos e ações dessa mulher. Mas longe também, estava o tal vigor da juventude tão exaltando por vários meios de comunicação como se fosse o período mais importante da vida de um ser humano. Sinto informar ao povo de marketing, publicidade e propaganda que a juventude – representada nos teenagers, não é o período mais importante da vida.

Aqueles que estão lendo essa coluna provavelmente viverão bem mais de 80 anos. Irão reinventar-se para aceitar as modificações que o corpo impõe com o passar dos anos. E a arquitetura e o urbanismo, deverão estar preparados para todas as mudanças que já estão ocorrendo.

De agências de viagem, sites de relacionamento para pessoas maduras e residenciais que nem de longe se apresentam como as antigas casas de repouso, o que esse público mais deseja é viver com qualidade, tendo satisfeitas suas vontades. E como fica o atendimento das necessidades dessa população com poder de consumo (e decisão, portanto) na hora da compra da nova casa, dos mobiliários, das utilidades domésticas e demais serviços, espaços e produtos de uma moradia, por exemplo?

Será que as empresas e prestadores de serviços da área de construção civil estão atentos para essas mudanças?

Ambientes sem degraus, pisos antiderrapantes, entradas mais amplas, bordas arredondadas, alturas adequadas em tomadas, iluminação correta, eliminação de obstáculos por meio da disposição correta de móveis e tapetes são apenas algumas das ações que essas empresas deverão atender se quiserem “abocanhar” essa fatia significativa de mercado. O atendimento às normas de acessibilidade deixa de ser uma “obrigação legal” e passa a ser um potencial de negócio. O desenvolvimento de projetos acessíveis para esse público – incluindo também aquele que tem mobilidade reduzida, vem exigindo plantas adaptadas que não apenas permitam a usabilidade, como também reflitam as linguagens estéticas e os estilos contemporâneos de vida. Casa com cara de hospital? Nem pensar! Virar as costas para essas demandas é, no mínimo, ignorância. Ou seja, tanto o asilo quanto as casas das vovós que ilustram contos e fábulas infantis de La Fontaine e dos irmãos Grimm, por exemplo, não atendem mais ao segmento que pertence à sylver economy. Imaginem então aqueles “cursos para a terceira idade” oferecidos aos montes por ONGs e instituições diversas que tem por objetivo “atualizar” os pobres velhinhos com mais de 50 anos… Gente ACORDA! Atualizem-se!

Semana passada, durante uma consulta num gastroenterologista em que acompanhei minha mãe (cuja idade é segredo de Estado), o médico inadvertidamente, sugeriu que alguns dos sintomas sentidos por ela nos últimos dias poderiam ser resultado da idade. Completamente possuída pela ira, ela pergunta: “Tá me chamando de velha, doutor?”. Desconcertado com a pergunta, ele mal retruca: “não foi isso que eu quis dizer, eu só…”. Não deu tempo. Ela atira: “Pago minhas contas com o meu dinheiro, escolho o que faço, como o que quero, vou aonde tenho vontade e na hora que eu quero. Velha é a vovozinha!”

Concordo. Ela está certíssima.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.