Meu primeiro apê: será que meus sonhos cabem nele?

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Uma poltrona com estrutura de madeira, com estofado bege escuro, e com uma almofada com estampa bege e dourada. Ao lado, vemos uma mesa de madeira, com um arranjo de flores. Fim da descrição.
Arquiteta alerta para a importância de consultar um profissional antes de comprar um imóvel (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas* (FONTE PORTAL ACESSE)

Sábado à tarde. Assistindo Game of Thrones. Aceitei a sugestão dada por meus aluninhos pelo Facebook. Imaginei que um pouco de sangue, não me faria mal. A realidade em nossas cidades é bem pior do que a ficção. Aninhada no meu sofá, estou entre meus cães macios e perfumadinhos; com uma das mãos seguro uma xícara de chá e, com a outra, pego o controle da TV quando… Toca o celular. Contrariada, atendo com aquele humor que só quem me conhece bem, é capaz de entender e perdoar.
_ Helena, é você?
“Não”, pensei em responder… “Quem tá falando aqui é a Ricotinha, o pet da Helena… como ela se deu ao direito de assistir um filme depois de uma semana de trabalho infernal, resolvi dar um tempo para ela e atendi em seu lugar…”.  Mas, em nome da civilidade e cordialidade, resignada, atendo educadamente. “Sim, quem é?”… Do outro lado, apresenta-se o Pedro. Diz que precisava do favor de um arquiteto e que foi encaminhado por minha vizinha Maria Clara. Não lembro e não conheço a Maria Clara. Nem os meus 52 vizinhos. Acostumada a trabalhar com voluntariado em arquitetura e, com o firme propósito de não estender ainda mais a doce conversa, rosno: “como posso ajudá-lo?”.
_ Vou comprar meu primeiro apê. Não posso errar. A senhora é arquiteta. Pode me orientar?
Quase caí prá trás… Há anos tento explicar a necessidade de se contratar a consultoria de um arquiteto para acompanhar os futuros compradores de imóveis na difícil tarefa de encontrar o lar que vai abrigar suas vidas por um bom tempo.
_ Que ótimo! É uma situação bastante rara essa!

Surpresa com o pedido, perguntei o motivo de procurar um profissional para acompanhar a visitação que antecede a compra.
_ Sou usuário de cadeira de rodas e preciso saber se de fato consigo me locomover dentro do meu novo apê. Foi difícil conseguir o dinheiro, o crédito, o financiamento… A senhora sabe, né? Dinheiro não nasce em árvore!
Muito sábio o pensamento. Tem razão ele. Combinamos de nos encontrar no mesmo dia. Para minha felicidade, o tal empreendimento era próximo de minha casa.  O som de bate-estaca dos últimos meses vinha de lá. Dava para ir a pé. Com um pouco mais de sorte, voltaria a tempo de me jogar no sofá e assistir a série. Cheguei ao local. Fantástica a capacidade de criar cenografias e transformar a leitura de plantas em evento. De cara, sou recebida por jovens sorridentes que nos oferecem sorvetes, café, brigadeiros, cupcakes, toda sorte de gordices que ninguém recusa. Só eu, na minha eterna dieta. Paciência. Encontrei o Pedro. Beirando seus 30 anos, sorriso de canto a canto estampado no rosto, falava sem parar de seus sonhos e não via a hora de estabelecer-se longe da república que dividia com os amigos. Tinha um excelente cargo na empresa onde trabalhava e podia vislumbrar a materialização de seu sonho.
Rapidamente, fomos atendidos por um corretor que se dispôs a falar sobre as maravilhas do empreendimento. Mostrou a maquete, falou do conjunto de espaços que levariam os futuros moradores a incríveis ‘experiências urbanas’… Deck,  solário com bangalôs, piscina com raia, arquibancada com vista para o urban skylinespa centerjapanese gardenfitness centerpet corner, sauna seca e úmida com vestiários, concierge, horta comunitária, jardim dos temperos, manobrista, hub bar, sala para reuniões, eventos,coworking e por aí vai. Já cansada da conversa toda e com muita vontade de acabar com a brincadeira, pergunto: “o senhor pode, por gentileza, me fornecer as plantas das unidades adaptadas disponíveis com as medidas, por favor?

Silêncio

Fechou o tempo. Azedou o clima. O corretor me olhava como se estivesse na presença do anticristo. Chamou o chefe. O chefe chamou o coordenador de área. O coordenador de área chamou o coordenador do evento. O coordenador do evento disse que ele era responsável pelos eventos e não pelas plantas. Ligam para a incorporadora. De lá alguém pede para falar com o arquiteto responsável. O arquiteto, na verdade, era uma empresa imensa composta por inúmeros profissionais de marketing, arquitetura, engenharia, direito, administração entre outros. Como era sábado, eles não tinham a tal planta.
Dirijo meu olhar para o Pedro e pergunto, depois de 50 minutos de espera e, agora sim, com a expressão de anticristo estampada na face, se ele poderia me contar qual era o sonho dele para o seu futuro lar. Ele conta. Fica fora de casa praticamente o dia todo e só volta para dormir. Aos finais de semana ‘cai na vida’ ou viaja com os amigos. Vez e outra, almoça na casa dos pais. “Vai cozinhar?” pergunto. De pronto vem a resposta: “nem morto e se tiver que lavar louça, prefiro jogar fora. Dá pra colocar uma mini lava-louças?” … Ok, pensei, precisa de espaço e instalações de elétrica e água para isso. Não estava na tal planta disponível para todos. “Vai lavar sua própria roupa?” Responde: “ternos, camisas e calças sociais pretendo usar o laundry delivery oferecido pelo concierge do empreendimento. O resto, lavo e seco em casa.” Feliz, corretor, coordenadores, gerentes e nem tão sorridentes jovens, ficam felizes com a resposta do futuro comprador.

“Já entendi”, respondo. Tranquilamente e, já sabendo que meus próximos atos seriam motivo de vergonha para meus filhos, alunos e até amigos, saco de dentro da bolsa um escalímetro e uma trena.

_ Pedro, qual unidade você quer comprar?
_ A que me der menos trabalho para eu limpar e aquela que couber o que eu preciso para viver. Acho que a de 32m². Cabe no bolso.

“Ok”, digo eu. “Primeiro você precisa ter condições de se locomover dentro dela com sua cadeira, certo? Depois, gostaria de saber se você se incomoda de andar de ré ou de costas para entrar nos espaços…”.

_ De ré? Como assim? Cabe direitinho. Tá aqui. Não tá vendo?

Pego o folder de divulgação e começo a fazer o que meu trabalho exige. Digo: “Pedro, os móveis do folder estão fora de escala”

_ Estão o quê? Pergunta ele.

_ Não estão do tamanho certo. A medida do apartamento sim, mas os móveis não estão.

_ Estão tentando me enganar?

_ Não sei. Pergunte para eles.

Com a trena em mãos, mostro para ele a realidade daquilo que o folder tentava vender.

_ Está vendo, Pedro? Você terá 32 cm entre a parede e a cama no seu quarto. A não ser que você entre pelo pé da cama e vá escorregando até a cabeceira, a cadeira não passa…

_ Mas na imagem, parece que dá.

_ Parece, Pedro, mas não dá. Está vendo o que vem escrito aqui? Que todos os móveis, equipamentos, louças, metais e revestimentos de pisos e paredes são meramente ilustrativos e estão sujeitos à alteração. O mesmo pode ocorrer durante a obra por causa das compatibilizações técnicas. O que você está vendo e os demais futuros compradores estão aqui vendo também (já com cerca de dez pessoas me olhando atônitas enquanto eu desenhava ‘no ar’ e mostrava com a trena os espaços) é quase uma obra de ficção. É uma ilustração. Só isso. Bonita, né? Bem feitinha…

Continuei… “No banheiro, é esse o tamanho. A cadeira entra de ré. Se precisar ir até o box, não consegue. O giro completo, nem pensar… acho que não vai dar para tomar banho… Para adaptar o banheiro, colocar uma máquina lavadora e secador de roupas, além do espaço para esquentar uma comidinha rápida, você irá sacrificar a sua sala de jantar ou a de estar, talvez… não é difícil. Dá para fazer. Você terá que projetar e mandar fazer os móveis numa marcenaria para esse seu apê. Não vai dar para comprar móveis prontos. Eles não irão caber… nem para você e nem para quem está nos olhando enquanto conversamos”.

Minha pretensão de assistir Game of Thrones estava cada vez mais difícil, graças ao tempo que eu estava disponibilizando com ele e agora mais do que isso: tirando dúvidas e dando a consultoria de graça para os demais futuros compradores que estavam por lá…

Terminada a visita ao stand de vendas, dirimidas as dúvidas, vejo o Pedro titubeante, tentando me perguntar algo.

_ Diga rapaz, qual é a dúvida?

_ Obrigada por me ajudar. Mas é que eu vou precisar fazer novas visitas. Se eu tivesse feito à visita sozinho, eu teria investido minhas economias num apê que eu não conseguiria morar. Quanto custa sua consultoria? É caro, né? Você divide o valor? Em quantas vezes?

#Morri

Pergunto: “Você parcela a consulta do seu psicólogo ou do seu oftalmologista?”

“Não”, responde ele.

No final, expliquei ao Pedro e aos demais que permaneciam me ouvindo, a importância de consultar-se com um profissional da área não apenas na escolha do imóvel, mas principalmente quando da entrega das chaves. É fundamental ler o memorial descritivo do imóvel e conferir se o que está sendo entregue é exatamente aquilo que foi comprado. Em alguns casos, não é. Quanto ao valor, reitero: se a consulta de um médico não é cara, a de um arquiteto, também não é. Os valores equiparam-se. Os resultados interferem diretamente na qualidade de vida daqueles que irão construir seus lares e realizarem seus sonhos neles. Eles precisam, no mínimo, caber. Um projeto é cobrado de forma diferente. Depende do tipo de serviço contratado.  Ainda assim, vale a pena perguntar a um profissional.

Para o Pedro e para os demais ouvintes que presenciaram a situação inédita, encaminhei os nomes de ex-alunos e colegas.

Voltei para casa. Ricotinha e Chanel me aguardavam no sofá. Peguei a melhor louça da casa. Preparei um novo chá. Enfim, assisti ao primeiro episódio.

O Pedro? Comprou o apartamento com área maior. Tinha até uma varandinha. Os espaços foram projetados por um colega meu para ele. Seus sonhos caberão em seu novo apê.

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

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Porta para quê?

Portas que atendem as medidas mínimas da norma, podem dificultar o acesso (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

“Quem casa, quer casa”, diz um velho ditado. Como não estavam dispostos a continuar morando na casa dos pais, os dois enamorados decidem investir suas economias num sonho: ter sua própria casa. Rasparam até o último centavo de suas poupanças e contas bancárias; venderam o carro e deram entrada em um financiamento à perder de vista… feitas as contas, vislumbravam o prazo da última prestação – se tudo desse certo, muito provavelmente seus netos estariam dormindo numa casa já quitada…

Móveis comprados, entrega agendada e, com as chaves na mão, foram receber os móveis e organizar os ambientes. Pela porta principal passaram as cadeiras, tapetes, louças… passou até o piano de armário presente de uma tia solteira. O pobre veio deitado de lado no elevador. Desafinou inteiro, mas “tudo bem”, pensou a moça, “depois mando alguém afiná-lo… ele é bonito e quem sabe ela poderia aprender a tocá-lo um dia”.

Chega o sofá. “Doutora, tem um probleminha aqui.” A moça interrompe a arrumação dos armários, e vai de encontro ao rapaz. “Não passa, doutora.” “Não passa o quê?”, pergunta ela. “O sofá, doutora, não passa na porta.” Ela pede para tentar pela porta da sala. Não passava também. Inicia-se o calvário. Atentamente, os dois jovens leem o manual técnico e encontram: 96mm x 292mm x 132mm. Assustados, vão atrás de um conhecido, arquiteto, procurando decifrar o enigma. “Isso mesmo, está correto.” Pergunta o rapaz: “mas como assim, não passa pela porta. Isso é certo”? Reafirma: “As portas atendem as medidas mínimas da norma… ou são de 90mm, ou de 80mm ou de 70mm.… sinto informar, mas tanto o projeto como a construtora estão corretos…”

Percebe então que não só o sofá retrátil de canto (esse era o nome da coisa) não passava pela porta, como também nenhum dos eletrodomésticos profissionais que haviam à duras penas, adquirido. “Quem mandou gostar de cozinhar? Quem mandou gostar de receber pessoas?”, ruminava consigo mesma.

Transtornada, a jovem vai em busca das normas técnicas. Encontra uma norma: a NBR 15930 (2011) – Portas de madeira para edificações. Logo de cara, depara-se com as ‘Definições Gerais’. Pensa: “e precisa definir o que é porta? Será que as pessoas não sabem o que é uma porta? Será que nem todas as culturas do mundo ou povos da terra precisem de portas?”. Mais adiante, lê: “componente construtivo cuja função principal é de permitir ou impedir a passagem de pessoas, animais e objetos entre espaços ou ambientes”. Pois é. Ali estava a resposta. Matou a charada. Se portas tem duas funções principais – permitir a passagem ou impedir a passagem… significava que eles tinham comprado um apartamento cuja função principal das portas era, aparentemente, a de impedir a passagem…

Indignada, foi buscar no porteiro, situação semelhante à que estava passando. Soube então da história de dona Antonieta. Idosa e já com dificuldade de locomoção, passou do uso de bengala, para o uso de muletas e logo depois para o uso do andador rígido. Desta condição, foi direto para a cadeira de rodas. A partir de então, alguns cômodos da casa já não eram mais utilizados por ela e sequer vistos, situação essa que a deixava profundamente incomodada. A reforma tão necessária, fiou para depois, dada a crise econômica brasileira. Estupefata, a jovem questiona: “ela não pode mais usar a casa toda? Pagou por ela e não usa?”

No que responde o porteiro: “parece que não, dona…”, e continua a prosa: “ela só ficava muito, mas muito brava, quando os netos chegavam”. Assustada, a moça pergunta: “brava com os netos? Eram danadinhos? Bagunceiros? Barulhentos?”. “Não”, responde enfaticamente o porteiro. “Ela pegou raiva do apartamento.”

E continuou: “ela não conseguia dar boa noite direito… como a cadeira não passava pelas portas dos banheiros e ela enganchava nas portas dos quartos, ela não conseguia mais dar beijo de boa noite ou embrulhar os netinhos com as cobertas durante as noites frias…”. Penalizada com a história da vovó Antonieta e já conformada com o desmonte das suas portas, ela pergunta: “e que fim levou a dona Antonieta?”, ansiosa por saber o final da triste história. “A dona Antonieta?”, pergunta o porteiro. “Ela está ótima! Vendeu o apartamento e comprou outro. Ficou esperta! Mandou fazer as portas todas largas! De correr! Agora ela vai pra lá e pra cá na casa toda. Consegue até brincar de pega-pega com as crianças por todos os cômodos.” Um pouco mais animada e já terminando a conversa, a jovem pergunta: “e o apartamento dela? Já foi comprado?”

De pronto, responde o porteiro: “foi sim! pela senhora”.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

FONTE: ACESSE PORTAL

Eu não nasci de óculos

Por: Helena Degreas*
(Fonte: http://www.acesseportal.com.br/)

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na horizontal. Nela estão dois mapas do metrô de Londres. Um com letras grandes aberto em cima de uma mesa e outro com letras muito pequenas, dobrado, em cima do outro mapa, que está aberto. Sobre eles está um óculos de leitura. Fim da descrição.

Filhos crescidos, ninho quase vazio – excetuando Ricotinha e Chanel que nos ocupam bastante com as estripulias diárias… fazem tanta bobagem que decidimos conjuntamente, dar férias uns aos outros: enviamos para a casa da ‘avó’.

Trabalho aceito em congresso, palestra agendada, convido meu marido para viajar. Londres: e por que não? Desta vez, comunico meu desejo de realizar um passeio diferente: só utilizar os meios de locomoção oferecidos pelo poder público. Em época de uber, cabify e outros serviços de transporte, vamos andar a pé, ônibus, metrô e trens… com um pouco mais de coragem e, se o tempo ajudar, talvez bicicleta. Atônito, sem palavras, pensou que enlouqueci. Pergunta, já preocupado: “Está tudo bem com você”? Eu, de pronto, respondo: “Sim! Melhor impossível”. Esquecerei o martírio das salas de musculação! Para que esteira? Calorias queimadas da maneira mais natural possível: caminhando.

Algumas horas de avião e… chegamos. Madrugada gelada. Poucas malas na esteira, dirigimo-nos ao trem. Fácil e confortável. Conexão com o metrô. Descemos quase na porta do hotel! Os londrinos são felizes. É possível locomover-se por qualquer bairro. Não sabem o que significa a falta de conexão entre os diversos modos de transporte aqui em nossas terras.

Feito o check-in, alimentados e descansados, decidimos ir ao local do evento. No saguão do hotel, deparo-me com um mapa: daqueles que tem mais anúncios do que informações úteis aos visitantes de primeira viagem. Lá estava o que eu queria: um conjunto de informações sobre os transportes coletivos reunidos numa dobradura de papel! Ônibus, estações e linhas de metrô… trens! Saímos de lá. Calçadas lisas, piso impecável. Rampas de acesso em praticamente todas as esquinas. Sinalização de segurança horizontal e vertical – faixas de pedestres, faróis, luminárias em toda a parte. Beleza. Bordaduras floridas nos jardins. Chega a doer de tão bonito e civilizado.

Cem metros depois, alcançamos a entrada de metrô. Singela. Basta descer por escadas ou atravessar a rua e entrar pelo outro lado de elevador. Escolhi as escadas #MomentoFitness. Descer é fácil. Passada a catraca, abro o mapa. Inicia-se o problema. Não consigo ler. Peço ajuda ao marido que, de antemão avisa: “nem eu”. Letras miúdas. Me senti lendo bula de remédio ou ainda, a lista de ingredientes dos alimentos industrializados que compro no mercado. Tenho alto grau de miopia e também de astigmatismo. Esqueci do estrabismo. De uns tempos para cá, sinto que o braço não é longo o suficiente para conseguir ler as letrinhas miúdas. Muito miúdas aliás: acredito até que esse tamanho de ‘fonte’ não exista.

Certeza que inventaram uma só para perturbar pessoas como eu. São apenas 35,7 milhões de brasileiros que declararam ter algum tipo de dificuldade para ler aqui no Brasil. Está nas estatísticas do IBGE. Dados do último censo. Mas… até aqui em Londres? Não é possível. Bem-vinda à presbiopia, Helena. É fatal: 100% dos seres humanos passarão por ela. Não adianta ginástica, aeróbica, chazinho ou mandinga. O mundo perde o foco.

Saio do metrô. Vou à farmácia mais próxima: óculos de todos os tipos, cores e tamanhos. Mais ou menos estilosos. Provamos vários. Foi divertido. Dois adultos brincando com a situação. E eu que só queria ter acesso às informações dos trajetos do metrô na tal dobradura…. Compramos dois pares: um para mim e outro para ele. Muito baratos, quase descartáveis. Percebi que, apesar das brincadeiras, entrei numa fase da vida em que começamos a perder algumas das habilidades e capacidades que fomos adquirindo ou desenvolvendo ao longo da vida.

A integridade desse meio de percepção do mundo é indispensável para o desenvolvimento das atividades intelectuais e sociais de qualquer pessoa. Qualquer tipo de redução ou restrição da capacidade visual restringe também diretamente as atividades ocupacionais, econômicas sociais e também psicológicas do ser humano. Vivemos em sociedade. Precisamos uns dos outros.

Envelhecendo… não sou a única, pensei. Vou escolher a melhor forma de lidar com as novas situações do estágio de vida em que me encontro.

Cabe também aos nossos governantes preparar as cidades por meio de planejamento e investimentos a curto, médio e longo prazos visando melhorar a qualidade de vida das pessoas em todas as fases da vida. Caso contrário, em 2050 teremos quase um terço das pessoas no mundo passando da condição de ‘incluídos socialmente’, para a situação de ‘excluídos urbanos’, por simples falta de planejamento de nossas cidades.

Trata-se de estratégia política no mais nobre sentido da palavra. Política como ciência da governança de um Estado ou ainda, a arte de gerenciar e negociar os mais diversos interesses do povo. No caso, as informações devem estar disponíveis, claras e acessíveis para qualquer pessoa. Voltamos ao metrô. Apesar do novo apetrecho em frente ao meu nariz, as letras permaneciam miúdas. Decidida a resolver a questão que me impedia de sair do local onde eu estava há quase uma hora, dirijo-me com passos firme ao guichê de atendimento da estação e informo: não consigo ler o mapa de trajetos. De pronto, o rapaz me oferece um novo documento igualmente dobrado e pergunta: alguma outra coisa em que eu possa ajudar? Agradeço. Desdobro o papel e.… letras imensas! Informações claras! Conseguimos ter acesso às informações sem perguntar a ninguém. Felizes, encontramos o nosso caminho.

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

 

Políticas Públicas, planos diretores, representação e participação: algumas questões para iniciar nossos trabalhos

Começarei nossa apresentação de hoje com algumas provocações que tem por objetivo iniciar nossas pesquisas, debates e reflexões acerca dos instrumentos regulamentados pelo Estatuto da Cidade e que estabelecem, no âmbito dos Planos Diretores Municipais, as ferramentas necessárias para a gestão democrática, garantindo a participação da população urbana em todas as decisões de interesse público – ou ainda, dos destinos das cidades onde vivemos nossas vidas cotidianas.

A inspiração para o tema de hoje:

“… Em termos gerais, políticas urbanas correspondem ao conjunto das políticas públicas e das ações do poder público sobre processos urbanos. Implicam portanto, um conjunto de metas, objetivos, diretrizes e procedimentos que orientam a ação do poder público em relação a um conjunto de relações, necessidades ou demandas sociais, expresso ou latente nos aglomerados urbanos. Assim, as políticas públicas… tem por objeto as demandas e práticas sociais que se expressam e ocorrem, sobretudo, no nível das questões locais que afetam a vida cotidiana da população…” (ALVIM et al 2010: 13)

A questão:

De que forma você, eu, nossos vizinhos somos representados em nossas vidas urbanas, como cidadão na cidade em que moramos? quais são os instrumentos urbanísticos que temos disponíveis para nos representar e que constam do Plano Diretor de sua cidade? e quando os instrumentos não são capazes de nos representar?

Mais uma inspiração para o dia de hoje:
Essas imagens parecem agradáveis para você? vocês conseguiriam morar nas redondezas desse lugar?
Trata-se de uma área verde no centro da cidade de Goiânia. Chama-se Lago das Rosas e seu entorno está passando por processo de adensamento construtivo como prevê o Plano Diretor da Cidade e que foi consolidado em 201o.

Fonte: Acervo QUAPA-SEL II, Lago das Rosas, Goiânia, 2016.

Eu moraria tranquilamente nesse bairro: as avenidas são largas, há transporte público disponível e pouco utilizado, o lugar tem toda a infraestrutura de uma cidade e tem bons equipamentos públicos como escolas, postos de saúde e afins. Tem a questão do calor que é inviável no verão (pelo menos para mim) mas, um bom programa de arborização das largas calçadas, resolveria parcialmente o problema vez que há centenas de áreas vegetadas na cidade espalhadas de forma igualitária. Os preços por metro quadrado de venda e locação representavam à época 30% daqueles praticados na cidade de São Paulo para localização equivalente e e para padrão construtivo.

Agora vamos aos fatos:
Consolidado em 2010, no Art. 50 das Normas Genéricas da Edifícação, Capítulo I, o Plano Diretor da Cidade dispõe de alguns parâmetros urbanísticos para edificação a partir de seus afastamentos. Vejam, o que acontece ao local:

Fonte: Acervo QUAPA-SEL II, Lago das Rosas, Goiânia, 2016.

O plano Anteriormente citado é recente e prevê, com alguns vetos (que eu discordo), a participação popular na forma de associações populares e conselhos gestores de políticas públicas. O que é e como funciona? vamos apresentar brevemente, um instrumento previsto no Estatuto das Cidades e que atende ao Art. 182 da Constituição Federal de 1988.

  • Conselhos Participativos Municipais cuja criação atende ao art. 2º, § 1º do Decreto nº 54.156, de 1º de agosto de 2013, diz:

    “O Conselho Participativo Municipal é um organismo autônomo da sociedade civil, reconhecido pelo Poder Público Municipal como instância de representação da população de cada região da Cidade para exercer o direito dos cidadãos ao controle social, por meio da fiscalização de ações e gasto públicos, bem como da apresentação de demandas, necessidades e prioridades na área de sua abrangência” Fonte

  • Outra ações em que a população foi convidada a participar.Entre atividades participativas presenciais é possível desenvolver seminários, oficinas, audiências públicas e diálogos com segmentos e criar, como no caso de São Paulo, as Plataformas Participativas Digitais. Fonte **

E quando as representações existentes no aparato institucional não são suficientes para representar a todos os interesses e demandas existentes?

Vamos apresentar algumas manifestações de coletivos que reivindicam cidades cujas políticas urbanas atendam às demandas de grupos específicos como usuários de bicicletas ou ainda aqueles que defendem cidades caminháveis. Um deles inclusive, foi organizado por alunos de um curso de arquitetura local com a participação de vários atores contra uma situação que incomodava a todos: uma esquina mal cuidada apresentando perigo de atropelamento.

Hoje, dada a questão do tempo, não esgotaremos o assunto vinculado às insurgências urbanas. Entendemos o conceito como manifestações populares presenciais ou digitais ou ambas, com o aparecimento de novos atores e que envolvem questões espaciais, colaborando na ressignificação dos espaços da ruas, calçadas, praças e que se manifestam das mais variadas formas, entre elas protestos em várias cidades contra despejos, gentrificação e violência policial, por moradia, por espaços de lazer, transportes, direitos civis, sociais e ambientais; por vezes virulentas, inclusive, atingindo os centros de poder político e econômico e produzindo efeitos em escala há tempos desconhecidos; em toda parte, corpos nas ruas e formas virtuais de engajamento vêm transformando a cidade em universo altamente disputado. Fonte inspiradora

O papel da Associações Civis sem Fins Lucrativos, Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público e demais formas de representação de questões de grupos: ONGs, OSCIPs muitas vezes autodenominadas Coletivos Urbanos.
Estudo de caso: Parklets em São Paulo

Quando e Onde Surgiram?

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O que os grupos  organizados em associações diversas conseguiram ao representar a população por meio de ações culturais, urbanismo tático e manifestações diversas na cidade?

Chamar a atenção para condições de caminhabilidade urbana, para a necessidade de criação de extensões sociais nas tão estreitas calçadas brasileiras mesmo que na forma efêmera. Em São Paulo, o Decreto nº55.405 regulamentou a criação dos ‘parklets’ na cidade, espaços temporários de lazer instalados sobre vagas de estacionamento em espaços públicos destinadas aos automóveis.

Para finalizar, deixo aqui o trabalho de alguns alunos que foi realizado em outubro passado e que, juntamente com a subprefeitura Vila Mariana (atual Prefeitura Regional Vila Mariana), residentes do local, instituição de ensino e alunos de vários semestres conseguiram realizar.

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Se vocês quiserem conhecer mais sobre ações de urbanismo tático em ambiente acadêmico leiam:

A cidade como sala de aula

* Como surgiram os conselhos
A Constituição de 1988 (CF/1988), por meio de diversos artigos, definiu a participação social como necessária em algumas políticas específicas, e abriu espaço para a reinvindicação da partilha de poder nas mais diferentes áreas
  • Alguns dos conselhos foram criados a partir da regulamentação destas políticas constitucionalmente previstas, como o de saúde, assistência social e direitos da criança e do adolescente.
  • Outros conselhos são resultado de demandas por participação em políticas para as quais ainda não tinham sido construídos sistemas nem institucionalidades específicas, como é o caso da segurança pública.
O que são os conselhos?
  • Os conselhos de políticas públicas são aqui entendidos como espaços públicos vinculados a órgãos do Poder Executivo, tendo por finalidade permitir a participação da sociedade na definição de prioridades para a agenda política, bem como na formulação, no acompanhamento e no controle das políticas públicas.
Quais as escalas de atuação?
  • Estes conselhos são constituídos em âmbito nacional, estadual e municipal, nas mais diversas áreas
O que fazem esses conselhos?
  • Além disso, é importante ressaltar que eles permitem a inserção de novos temas e atores sociais na agenda política.
Como se constituem e qual o seu poder?
  • Os conselhos podem ser considerados instituições híbridas, visto que Estado e sociedade civil partilham o poder decisório e se constituem como fóruns públicos, que captam demandas e pactuam interesses específicos de diversos grupos envolvidos em determinada área de política (Avritzer e Pereira, 2005). Os conselhos são espaços permanentes em que as reuniões ocorrem com certa regularidade e há a continuidade dos trabalhos.
**Tal processo envolveu para o caso de São Paulo 114 audiências públicas, que contaram com a participação de 25.692 pessoas e 10.147 contribuições para o aprimoramento do plano. Foram 5.684 propostas feitas nos encontros presenciais e outras 4.463 feitas pela internet em ferramentas como o site Gestão Urbana, sendo 1.826 por fichas online, 902 pelo mapa colaborativo, 1.204 na minuta participativa disponibilizada na rede e 531 no site da Câmara.

Arte à Vista: um presente dos alunos do Instituto de Cegos Padre Chico e do FIAM-FAAM para a cidade!

E não é que podemos fazer arte pública¹ coletiva por meio da integração e do exercício da solidariedade² para o bem comum?   Alunos do curso fundamental do Instituto de Cegos Padre Chico utilizaram…

Fonte: Arte à Vista: um presente dos alunos do Instituto de Cegos Padre Chico e do FIAM-FAAM para a cidade!

Active Design & Projetos Urbanos: promovendo espaços públicos para a mobilidade à pé – experiências do escritório modelo de arquitetura e urbanismo

Neste semestre, o escritório modelo do curso de arquitetura e urbanismo  desenvolveu uma série de diagnósticos (etapa 1) utilizando os conceitos Active Design e Observações Urbanas (Jan Gehl) ao longo dos meses de setembro e outubro. Ainda em outubro com finalização em novembro, serão realizadas propostas de projetos (etapa 2) inspiradas no concurso público Áreas 40 promovido pela Prefeitura do Município de São Paulo e que premiou projetos que buscavam a convivência pacífica e segura (reduzindo acidentes e atropelamentos por meio do projeto urbano) entre a mobilidade motorizada e não motorizada (pedestres, ciclistas e outros) nas ruas de São Paulo.

Com o apoio da organização social Cidade Ativa, foi realizado um workshop que teve por objetivo apresentar as ferramentas e instrumentos para a realização de pesquisas (Safari Urbano, medições geométricas, painéis interativos) bem como os diagnósticos das áreas de estudo. O resultado da primeira etapa encontra-se disponibilizado nesse post.

Os projetos deverão atender aos princípios de projeto para Cidades Seguras que objetivam a promoção de espaços públicos destinados à caminhabilidade do cidadão e também que atendam às necessidades de segurança para a mobilidade não motorizada.

As ações desenvolvidas são parte do Projeto de Pesquisa Sistemas de Espaços Livres: projeto, produção e gestão do espaço urbano do Programa de Mestrado Profissional em Urbanismo do FIAM-FAAM Centro Universitário em parceria com a organização social Cidade Ativa.

Equipe 1 – etapa 1

Diagnóstico da Rua Taguá, SP realizado pelos alunos do escritório modelo do curso de arquitetura e urbanismo Erika Lima Lopes, Rafaella Ayumi Kaneko e Vitor Zadra sob orientação da Profª Drª Helena Degreas utilizando o Active Design para desenvolvimento de projetos urbanos. O trabalho é parte do Projeto de Pesquisa Sistemas de Espaços Livres: projeto, produção e gestão do espaço urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário em parceria com a organização social Cidade Ativa.

Equipe 2 – etapa 1



Aplicação dos instrumentos de análise do Active Design de Observação Urbana (Jan Gehl) para a realização de projetos urbanos com foco em mobilidade não motorizada do ambiente urbano. Pesquisa realizada em parceria com a OnG Cidade Ativa para a Rua 25 de março, SP.

Equipe 3 – etapa 1


Análise e diagnóstico da Avenida Deputado Cantídio Sampaio junto à intersecção com a Avenida Fernando Mendes de Almeida, bairro do Jaraguá na cidade de São Paulo, apresentado ao Escritório Modelo do curso de Arquitetura e Urbanismo do FIAM-FAAM Centro Universitário sob orientação da Profª Drª Helena Degreas utilizando o Active Design para desenvolvimento de projetos urbanos. O trabalho é parte do Projeto de Pesquisa Sistemas de Espaços Livres: projeto, produção e gestão do espaço urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário em parceria com a organização social Cidade Ativa. Alunos: Ligia Frediani da Silva, Kristie Yuka Yokoyama, Renan F. Ribeiro Zupelli, Wagner Godoy

Equipe 4 – etapa 1

Diagnóstico da Rua Agostinho Rodrigues Filho, SP realizado pelos alunos do escritório modelo do curso de arquitetura e urbanismo Ana Paula Gusmão, Fernanda Jimenez, Marcella Crosato e Priscila Ibacache sob orientação da Profª Drª Helena Degreas utilizando o Active Design para desenvolvimento de projetos urbanos. O trabalho é parte do Projeto de Pesquisa Sistemas de Espaços Livres: projeto, produção e gestão do espaço urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário em parceria com a organização social Cidade Ativa.

Equipe 5 – etapa 1

Diagnóstico da área de canteiro central localizada entre a Rua Domingos de Morais e a Avenida Professor Noé de Azevedo, SP realizado pelos alunos do escritório modelo do curso de arquitetura e urbanismo Amanda Abreu, Rafael Prado, Carolina Dias Gloeden, Vinicius Zoia, Guilherme Menegatti e Leonardo Baciga Menotti sob orientação da Profª Drª Helena Degreas utilizando o Active Design para desenvolvimento de projetos urbanos. O trabalho é parte do Projeto de Pesquisa Sistemas de Espaços Livres: projeto, produção e gestão do espaço urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário em parceria com a organização social Cidade Ativa.