Sob a mesa dos sonhos

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Uma série de pernas de mesas em um restaurante. As mesas são de madeira escura e as toalhas são brancas. Fim da descrição.
Arquiteta destaca o absurdo da falta de acessibilidade das mesas (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

Outro dia, ao colocar as leituras do meu twitter em dia, um dos títulos e foto me chamou a atenção: a mesa dos sonhos de todo o cadeirante! Pensei: já li e ouvi sobre vários tipos de sonhos de consumo… carros, aviões, castelos, viagens, nem sei mais o quê… de minha parte, ando sonhando com 30 minutos diários de sossego destinados só para mim…. Egoísmo? Pode até ser, mas como mercadoria escassa, não encontro.

Voltando ao assunto: mesa? Por que mesa? Deve ter um tremendo design exclusivo, sei lá. Fui atrás do link. Encontrei o amigo @Fred_Rios lá no blog Acessibilidade na Prática. Pensei: preciso entender melhor essa história. Não nos conhecemos pessoalmente, mas trocamos ideias pelas redes sociais faz tempo. Gosto, em especial, da Multa Moral. Mas isso é prosa para outro dia.

Morri de vergonha, literalmente. Como pessoa, como empresária, como educadora e como profissional de projeto. Logo de cara, ele escreve: “entre os vários perrengues que passo por ser cadeirante, um dos que mais me tiram do sério é a falta de mesas acessíveis para fazer uma simples refeição. São raros os restaurantes, lanchonetes e praças de alimentação onde consigo me acomodar adequadamente com a cadeira de rodas, sendo necessário, muitas vezes, ficar de lado na mesa, me posicionar muito distante da comida ou até mesmo pedir ajuda para outra pessoa, já que não tenho destreza nas mãos”.

O quê? Como assim gente? Que absurdo! O cara quer sair de casa, tomar um lanchinho sozinho, com os amigos, com a mulher, os filhos, o cachorro, o vizinho, ou seja lá com quem for e não consegue por causa de uma mesinha? Ou ainda, o cara vai até o bar, restaurante, lanchonete, churrascaria, pub, casa de shows ou em qualquer lugar que ele quer ir para consumir como eu e você e a tal da mesinha à toa não permite que ele se sente e consuma como eu e você? Que horror! Como diz minha colega Thais Frota: “a deficiência está no projeto do ambiente e não na pessoa que não consegue usar o espaço”.

Designers de interiores e arquitetos leitores: será que precisamos queimar muitos neurônios ou necessitamos de muito esforço intelectual e capacidade criativa para disponibilizar mesas que permitam que um usuário, que traz sua própria cadeira, possa sentar-se à mesa como seus amigos e desfrutar de bons momentos? Será que a gente precisa de lei para projetar para pessoas com habilidades funcionais do corpo diversificadas? É tão difícil assim?

Já sei que vai ter colega falando: “ah… mas o cliente pediu para colocar mais mesas, e uma cadeira ocupa mais espaço”, ou ainda, “onde é que eu vou encontrar mobiliário adaptado?”

GENTE, para com isso! Além dessa asneira, tem outras mais que não vou colocar nesse breve espaço. É certo que muitos indivíduos necessitam de tecnologias assistivas, mas também é certo que, muitas vezes, um pouco de bom senso ajuda. Nosso tempo é precioso demais para ficar me estendendo com explicações estapafúrdias (que ouço todo santo dia) de quem nunca será bom profissional. As normas estão todas aqui. Móveis comerciais ou exclusivos têm aos montes: de preços, modelos e materiais diversos. É só procurar e utilizar nos ambientes criados. Se não tiver disponível, é só projetar, detalhar e mandar fazer. É o que sabemos fazer: projetar sonhos.

Repentinamente lembrei-me de uma frase do meu falecido sogro. Homem astuto, afeito a negócios, fez família e algum dinheiro mesmo sem nunca ter estudado. Ele não se cansava de repetir: “dinheiro não tolera desaforo”. Verdade. Nunca esqueci. E em tempos bicudos como os de hoje, a frase soa ainda mais verdadeira.

Recentemente estive com alguns amigos em um restaurante aqui em São Paulo. Quando criança, meu sogro levava os filhos. Meu marido fez o mesmo. Meus filhos já estão repetindo a mesma ação. São três gerações. Na noite em questão, observei algo que me chamou a atenção. Talvez ainda estivesse fresco na minha mente o assunto da aula da manhã. Havia falado sobre o processo de envelhecimento e, com ele, a perda natural de algumas habilidades físicas. O ambiente estava repleto de famílias compostas por várias gerações de indivíduos. Do meu lado, tínhamos uma mesa bem comprida. Nela estavam compartilhando a refeição, as risadas, as conversas e as lembranças os bisavôs e bisavós (que trouxeram suas cadeirinhas de casa e estava comendo na mesma posição que os demais), avós, filhos, netos e bisnetos. Lindo de se ver. E não era um caso apenas. Cerca de um terço do restaurante estava assim. Chamei o gerente:

– Lindo seu restaurante! Várias gerações! Gente de todas as idades.

No que ele responde:

– A senhora viu? A gente trocou a decoração! Estava na hora, né?

Ele só ouviu o “lindo” ao que parece… Olhei para todos os lados e não vi nada diferente… “Bacana! A iluminação… As toalhas… Bem legal…” Tipo… o que é que eu falo agora para ele?! Não estou vendo nada novo aqui…

O gerente: “Ah… As toalhas! Muito observadora a senhora! Nenhum cliente percebeu isso. Só a senhora! São iguais às outras, que eram iguais às outras e por aí vai… (rindo alto). O Sr. Mário é clássico. Não muda nada há décadas. Mas as mesas… essas sim! Trocamos algumas mesas!”

Mas do que é que esse homem estava falando? Debaixo das toalhas, tem mesas. E daí? E alguém vai ficar olhando o modelo da mesa debaixo das toalhas? Já vi a cena: Helena entra no restaurante com o marido, filhos e amigos. Helena, senta-se. Helena, morta de curiosidade para ver o que há sob a mesa tenta, sorrateiramente, olhar por debaixo da toalha. Helena não consegue ver nada. Helena já impaciente abre mão dos modos civilizados e, num rompante, levanta as toalhas e guardanapos. Cai uma taça. Impassíveis, as demais pessoas sentadas à mesa fingem não ver. Helena observa a mesa e diz: “Oh! É nova!” NÃO FIZ ISSO, ok? Ainda tenho um pouco de juízo. “É”… Respondo eu… “Legal. As outras não estavam boas?”.

– Estavam sim! Não sei se a senhora percebeu… Tem gente que está bem velhinha e vem aqui com a família. A família cresceu e eles continuam vindo aqui. Alguns têm cuidadores, outros não precisam. Antes eles vinham a pé. Agora também vem, mas trazem a cadeira junto. As mesas agora têm quatro pernas. A cadeira entra melhor. Os cadeirões para os bebês também entram melhor. Aliás, a senhora viu como esses jovens estão cada dia mais altos? Com as novas mesas, eles não batem os joelhos e nem ficam mais comendo com o corpo retorcido tentando alcançar o prato. Ficam mais tempo e pedem sobremesa dupla. Ah! Tem as mesas redondinhas também… A gente mandou colocar um tampo maior. Agora todos comem junto. A gente tem que preservar o cliente, né? Toda semana tem alguma comemoração. Uma hora é aniversário, outra hora é um noivado, depois estão comemorando a faculdade nova do neto, se despedindo do bisneto que vai trabalhar na Europa… Já pensou se eles deixam de vir aqui e vão ao concorrente do lado só por causa de uma mesa? Não dá, né? Dinheiro não nasce em árvore… (rindo alto).

Homem de negócios. Ação simples, direta e objetiva. Dá para ser um ambiente bacana, cool, virar tendência ou entrar no circuito da moda com ambientes bem projetados e que atendam todas as pessoas.

Fred, nesse bate-papo, acho que concordamos no seguinte: sair para curtir uma boa companhia e “passar perrengue” num ambiente desconfortável, definitivamente não dá. Além da óbvia falta de respeito para com as pessoas, os donos do negócio também não sabem “fazer dinheiro” como diria meu sogro. Estão jogando cliente fora. De minha parte, continuarei como você batendo na tecla da necessidade de boas práticas projetuais. Ensinando, como a Thais que bons projetos, são sempre bons projetos porque atendem as necessidades de todos os clientes. Com conforto, funcionalidade, bom gosto e elegância.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

 

Outras notícias sobre Arquitetura

Meu primeiro apê: meus sonhos cabem nele?

Mobilidade urbana: tinha um buraco no meio do caminho

Arquitetura inclusiva garante segurança e conforto

 

 

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Mobilidade urbana sustentável: tinha um buracão no meio do caminho

Fonte: Acesse Portal

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Uma calçada com flores vermelhas estampadas no piso, pedras de diversos tamanhos e cores em volta de arbustos com folhas largas dificultando a locomoção dos pedestres na calçada. Fim da descrição.
Arbustos dificultam a locomoção dos pedestres na calçada (Foto: Helena Degreas)

Por: Helena Degreas*

Um dia desses, estava em sala de aula falando sobre acessibilidade do ambiente construído em áreas urbanas. Para não assustar muito os futuros urbanistas, achei por bem falar sobre mobilidade urbana sustentável, com foco na requalificação dos espaços destinados à locomoção não motorizada – ou seja, locomoção que utiliza a força e energia do próprio corpo para ir de um lugar a outro. Pode ser percorrendo caminhos a pé, ou com rodinhas por exemplo, sejam elas bicicletas, skates, patinetes ou cadeiras.

 

Mobilidade urbana sustentável

É importante conhecer os responsáveis pela criação, manutenção, enfim, a gestão pública dos espaços que acolhem e viabilizam (ou não) o ‘ir e vir’ do cidadão brasileiro. Caminhar a pé ou por rodinhas não acontece apenas em calçadas. Acontece em praças, parques, jardins. Nem bem abri a boca direito para falar sobre o assunto quando, à queima roupa, atiram em mim, a primeira pergunta:

– Profa! A vizinha foi engolida por um buracão na calçada.

– Como é que é?

– Quero saber quem cuida disso.

– Que buracão? De quem era o tal do buracão?

– E buraco tem dono, profa? A mulher se arrebentou inteira. Acho que não viu. Era noite. Não tinha muita luz. A senhora vira e mexe fala de calçadas acessíveis. Para quem, profa?

– Como assim, não tinha luz? A calçada não tinha poste de iluminação de rua?

– Até tinha, profa. Mas a copa da árvore é tão grande que chega a fazer sombra até de noite… (gargalhadas na sala)

– Galhos avançando na calçada e cobrindo a iluminação? Na altura do pedestre?

– Isso, profa. Acho que o maior problema nem é a luz. Ela que use a lanterna do celular. Acho que o maior perigo é o piso da calçada.

– O que tem o piso da calçada?

– É bonitinho, profa. Cheio de pedras, gramas e flores. A vizinha poderia ter desviado pela rua mesmo, andado pelo asfalto…. Mas não! Foi pela calçada. Deve ter ficado com medo.

– Pela rua?! Como assim?! E desde quando pedestre anda pelo asfalto junto com os carros? Medo do quê?

– Carros não, profa! Ônibus. É faixa de ônibus. É certo que sempre tem caminhões estacionados na rua. Mas a faixa é dos ônibus. A velocidade é de 50 km por hora… a calçada é estreita. E tem aquele monte de lixo esperando o lixeiro recolher. Com medo de morrer atropelada pelo caminhão, ela disse que preferia arranhar o rosto com os galhos da árvore e destruir o salto do sapato novo com as pedrinhas que ficam no meio da grama que o vizinho plantou… daí ela decidiu ir pela calçadinha mesmo…

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Imagem de uma calçada esburacada, com tampas de caixa de inspeção sem identificação quebradas. Ao lado do meio fio, colado no autor da foto, uma grade de bueiro quebrada e a imagem da lateral de um caminhão estacionado ao lado de quem está fotografando. Fim da descrição.
No meio do caminho tinha um buracão (Foto: Helena Degreas)

– Calçadinha? Galhos de árvores no rosto? Pedrinhas no meio da grama?

– É profa! Deve ter meio metro de largura, se tiver! Bem que o vizinho que está na frente da árvore queria podar, mas a regional disse que era para esperar… se mexer, multa na certa!

– Bom, chega de buracão na calçada. Segunda metade da aula, quero todo mundo aqui dentro com uma pesquisa. Quantas intervenções tem as calçadas em volta da faculdade? Quero saber o nome das concessionárias, que tipo de intervenções foram realizadas e, para o caso de uma reclamação sobre manutenção, existe algum contato para o cidadão? Pode ser? Incluam a legislação que regula a criação e manutenção das calçadas na pesquisa.

 

Horas depois…

– E então? Quem gostaria de iniciar a apresentação?

– Eu! Vi que tem vários buracões aqui em volta da faculdade.

– Sério? Bom… pode começar! De quem são os buracões?

– Bom, profa. São Paulo tem 32 mil km de calçadas. Uns 8 milhões de pessoas andam por elas todos os dias. Os buraquinhos, buracos e buracões tem vários donos. Ou se a senhora quiser, “agentes produtores e mantenedores das calçadas”. Vou citar alguns para a senhora. Vamos lá. A senhora quer que eu comece pelos municipais, pelos estaduais, pelos federais ou começa aqui, pelo bairro mesmo? Os particulares ou os públicos?

– Vejo que já criou uma classificação…

– É profa, organização e método é tudo, como a senhora sempre diz. Mas vamos, lá. O buracão do qual lhe falei… lembrei: não tinha nome. Aliás, nem todo buraco tem nome…. São buracos os mais diversos… muitos deles são buracões sem tampa… devem ter sido retiradas, roubadas…. Acho que não devem ter dono também… devem ter sido abandonados… caixas de inspeção largadas, coitadinhas…

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Imagem de uma tampa de caixa de inspeção da empresa TELESP ao lado de uma floreira com borda alta na calçada. Fim da descrição.
Uma tampa de caixa de inspeção é suficiente para prejudicar a acessibilidade (Foto: Helena Degreas)

– Como assim, não tem identificação?

– Pois é profa… tem da Eletropaulo, Telesp, Net, Vivo, Claro, Sabesp. Cetesb, bombeiros, CET, DSV, águas pluviais, Congás, ANEEL, Metrô, PMSP, … toda a empresa tem várias tampas de diferentes tamanhos, subclassificações e formas! Bem legal! Dá para fazer uma composição artísticas juntando todas! Buracos surgem como pragas… uma tubulação rompida causa um buraquinho num ponto, vai ramificando e quando a gente menos espera, vira uma cratera! Já vi carro sendo engolido em asfalto…, mas a vizinha, professora? Engolida por uma calçada? Isso nunca tinha visto não…

– E ela? Como está?

– Tá bem, profa… meio arranhada… não quebrou nada…. Saiu rastejando, de quatro, até o portão da casa dela… os outros vizinhos ouviram os gritos e, de repente, a encontraram escalando as paredes do buracão. Parecia uma cobra se contorcendo… Ela não queria ajuda para sair… Eles ficaram olhando… Depois do susto, parece que ela desembestou a gritar um monte de palavras muito feias dirigidas à mãe e à família do prefeito. Prefiro não repetir aqui, profa. Foi mal. Ela disse que iria processar o governo. Um dos vizinhos que já tinha quebrado o pé por causa de outro buraco, indicou a Defensoria Pública do Estado. E não é que ela descobriu que existiam vários casos como o dela? Um monte de gente se arrebentando por aí… tem que provar que ela se machucou por causa do buraco. Mas se tiver testemunha, laudo médico, fotos… essas coisas todas, dá para processar a prefeitura e ser indenizado. Professora, a senhora sabia que tem até campanha ‘caça-buraco’? Chama-se Calçada-Cilada. Bem legal! Vale conhecer e colaborar. Aí, professora… veja o lado bom da vida… a senhora pode fazer uma corrida de obstáculos numa calçada… nem precisa de academia! Só cuidado para não cair num buracão…

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

 

Outras notícias sobre Arquitetura

Tudo depende de como você entende as coisas

Eu não nasci de óculos

Arquitetura inclusiva garante segurança e conforto

Tudo depende de como você vê e entende as coisas

Fonte: Acesse Portal

Descrição da imagem #PracegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Alguns livros estão sobrepostos em cima de uma mesa. Fim da descrição.
Arquiteta reflete sobre as formas de ver as coisas (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

Como de costume, numa manhã ensolarada de domingo, lá fomos nós: meu marido, eu, Ricotinha e Chanel fazer um passeio a pé. No caminho, paramos para tomar um café na Livraria da Vila, na região conhecida como Jardins, em São Paulo (SP). Lá, nossos comportados pets são bem-vindos.

Enquanto os três foram ouvir jazz no andar de cima, eu desci as escadas para ver as novidades infanto-juvenis. E por que esse setor especificamente? Porque precisava espairecer. No dia anterior, eu havia preparado algumas aulas que tratavam de temas difíceis como acessibilidade, desenho universal e tecnologias assistivas, entre outros. Semestralmente atualizo o material do e procuro novas informações, técnicas, materiais e ideias. Começo pelos significados das palavras. Conceito mal definido, vira pré-conceito. Em arquitetura, posso traduzir por desastre na vida das pessoas…

Amo livrarias. Essa em especial. Tem de tudo muito! É como uma feira de novidades. Sobre o expositor, esbarro com o título “Tudo depende de como você vê as coisas” do escritor Norton Juster. Abri aletoriamente:

“Esta é Dicionópolis, capital de um reino feliz, magnificamente situado no contraforte da Confusão e acariciada pelas brisas suaves do mar do Conhecimento”.

Mais adiante, leio ‘Bem-vindos ao mercado das palavras’. Ao longo do texto, o autor brinca com as palavras e, ao tirá-las do contexto, muda as ideias de lugar criando situações inesperadas. Para o bem e, em alguns momentos, para o mal.

Pareceu interessante. Comecei a devorá-lo lá mesmo, entre gritarias, contadores de histórias e mães teclando no celular.

É impressionante o festival de confusões que acontecem quando utilizamos palavras de maneira inadequada. Cada uma delas traz consigo uma definição. As definições encontram-se em… Livros e textos diversos que as definem, ora… podemos encontrá-las em dicionários diversos, dicionários profissionais, impressos, mídias digitais… um mundo de possibilidades! Aquelas que compõem o léxico profissional devem ser encontradas em dicionários especializados na área em que estamos trabalhando.

Li outro dia, não lembro bem onde, que a língua é um sistema de representação cognitiva do universo pelo qual construímos nossas relações. Nada mais adequado do que iniciar uma disciplina, por meio da definição de conceitos. Pela forma como nos comunicamos, nos expressamos, seremos compreendidos, incluídos em grupos sociais diversos. Expressamos o que vemos e entendemos por meio de palavras. E aí… tudo depende de como vemos as coisas…

Apesar da falta de paciência dos universitários para com a palavra, a leitura, a pesquisa – todos querem ir direto à solução projetual e de forma mágica, as tais palavrinhas às quais me refiro quando leciono os princípios do desenho universal são fundamentais para a correta abordagem do tema e da sua aplicação nas propostas de projeto de arquitetura, urbanismo, paisagismo, produto entre outros. Aparentemente não percebem, mas o repertório vocabular é uma espécie de passaporte que irá incluí-los no ambiente profissional quando egressos.

À título de ilustração, num seminário de alunos realizado por jovens apressadinhos e pouco afeitos à leitura e pesquisa (indiquei as fontes, mas os lindinhos decidiram, de última hora, procurar em outro lugar), foi apresentada a definição e alguns sinônimos do verbete ‘normal’. Procuraram onde? No Dicionário Informal e na Desciclopédia… quase cortei meus pulsos…. Os dois são construídos de forma colaborativa. Ou seja: os usuários inserem a sua definição, bastante peculiar… bem autoral…. Enquanto no primeiro o humor é politicamente incorreto do tipo soft, no segundo o politicamente incorreto vira um pouco hardcore… vou omitir o resultado da apresentação… essas pessoinhas irão me encontrar novamente nesse semestre e na mesma disciplina…

Outro dia, li a coluna do Leonardo Reis – Crônicas do Gigante Leo –, aqui mesmo, no portal Acesse. Em sua crônica, o Gigante Leo sentia-se perplexo e chateado com o uso da palavra ‘normal’. Foi atrás do significado em um dicionário online e citou uma das várias definições: “sem defeitos ou problemas físicos ou mentais”. Associou a definição encontrada e selecionada, à exclusão. E, a partir dela, discorreu sobre questões de inacessibilidade do ambiente construído. Nesse momento, eu fiquei preocupada.

Normal e comum são verbetes muito, mas muito utilizadas de maneira equivocada. Concordo com o Leo. É como se o comum, o corriqueiro fossem a norma. A partir daí posso entender a decepção do colega.

Mais do que a palavra, entendo que é a forma como a utilizamos. O seu contexto. Mas, em terras brasileiras, além do contexto no uso das palavras, temos também o contexto urbano, cultural, educacional. De tão corriqueira que é a falta de gestão do ambiente construído em nossas cidades e de tão comum que é o desrespeito para com as normas edilícias, que para os nossos jovens o ruim e os erros transformam-se em regra. Pior: nem percebem que existe outra forma mais adequada para atender as necessidades das pessoas com qualidade.

Gerações e gerações de jovens nascem, crescem e vivem em ambientes que resultam de erros que de tão repetidos, transformam-se em norma. Associada a esses fatos, em qualquer cidade brasileira, predomina a cultura da autoconstrução. Profissionais de projeto, para quê? Tenho certeza que alguns leitores já fizeram alguma reforma por conta própria ou contratando algum pedreiro, empreiteiro…. Podemos incluir também na discussão, os poucos anos de escolaridade da imensa maioria de brasileiros e a formação rasa (com raras exceções) de nossas escolas públicas e também particulares.

Depois de anos em salas de aula, formam analfabetos funcionais. São jovens e adultos que decodificam letras, frases, textos curtos, mas são incapazes de compreendê-los. Apenas 8% das pessoas em idade de trabalhar são consideradas plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números, segundo matéria do portal UOL

Longe, mas muito longe dos profissionais, essa situação, por si só, gera erros grotescos e várias ilegalidades em diferentes níveis e graus de complexidade. Mais um dado: para nós, projetistas de espaços que abrigam a vida das pessoas, não existe a reprodução do comum, do corriqueiro, a cópia como processo de projeto. É impossível. Indivíduos, famílias ou agrupamentos sociais têm necessidades únicas para morar, recrear-se, socializar-se ou trabalhar.

O que de comum existe entre todos é que, quando contratado um projetista (sejam eles arquitetos, engenheiros, designers e tantos outros), impõe-se a ele tanto a realização de pesquisas profundas sobre as necessidades das pessoas e de funcionamento do local, quanto a obrigatoriedade do cumprimento das leis urbanísticas, dos códigos de obras e demais normas da cidade, do estado e do país. Submetemo-nos todos a elas e sem discussão. Numa de suas aulas (brilhantes, por sinal), o arquiteto Marcelo Sbarra discorre sobre o papel das normas e legislações na produção de um projeto de arquitetura e apresenta as mais de mil normas associadas à pratica profissional (CLIQUE AQUI e AQUIse quiserem conhecer mais), tais como Posturas Municipais, Códigos de Obras, Planos Diretores, Zoneamentos, Bombeiros, NBR’s, Anvisa, etc. Todas elas compõem o vasto arcabouço de conhecimentos normativos e legais que devem ser considerados no ato de projetar.

Portanto, aqui por nossas terras Léo, para a nossa tristeza, o normal ainda é construir fora da norma. É normal não ler. É normal o poder público não fiscalizar. O comum é o jeitinho brasileiro que encontra-se muitas vezes à margem da lei. O tal jeitinho, por sua vez, cria equívocos conceituais. Quando erros e compreensões equivocadas se materializam, criam barreiras, muralhas inteiras que nos impedem de realizar nossas vidas em espaços públicos urbanos. Concordo, Leo: imperam em nossas paisagens urbanas, a materialização de pré-conceitos. Como só a educação muda o mundo, vamos nós dois, nesse espaço acessível. Contribuindo com a mudança.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

Ploft: o tombo

Fonte: Portal Acesse
Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Imagem de dois braços e mãos esticados, como numa sombra, refletida na calçada. Fim da descrição.

Por: Helena Degreas 

Acordo, abro a janela, sinto a brisa fria da manhã e vejo aquele céu azul profundo que só o outono pode nos propiciar. Coloco a coleira da Ricotinha (minha pitbull branca e rosa) e vou passear. Quero ver pessoas. Quero caminhar. Sinto falta. Depois de atravessar as inúmeras grades do prédio onde moro, alcanço enfim, a última gaiola de vidro que só abre com a autorização da criatura uniformizada em azul-marinho que aperta o botão. “Vai sair doutora?”, ele pergunta. Juro que pensei em responder com meia dúzia de desaforos, do tipo: “claro que não! Estou aqui porque sinto prazer em ver as pessoas livres lá fora”, mas, em nome da civilidade matinal, e, tentando não assustar a Ricotinha, rosnei um sim.

Soltas da gaiola de vidro, fomos explorar o mundo lá fora. Vejo o andamento das obras do metrô. Impressionante o ritmo dos negócios públicos. Minha filha estava no finalzinho do curso médio quando tudo começou. Hoje, já tem um mestrado finalizado nas costas. Lembro-me de todas as fases. A desapropriação dos imóveis. A demolição de cada uma daquelas histórias de vida encerradas em casas, lojas, prédios. O arquivamento forçado de minhas memórias. O sumiço da paisagem reconfortante.

Logo no começo, vieram os transtornos. No mais autêntico jeitinho brasileiro de construção civil e planejamento viário, ou ainda, ‘tentativa e erro’, os doutores do trânsito, dos engarrafamentos municipais e das obras eternas estaduais foram alterando o sentido das ruas autocraticamente para facilitar a vida do cidadão automóvel, é claro.

Os pedestres? Ora, os pedestres…. Os moradores? Ora, os moradores e suas necessidades…

Para quem não sabe o significado de calçadas, por favor perguntem ao São Google. Lá poderão encontrar desde ‘rua ou caminho revestido de pedras’ à ‘faixa destinada ao trânsito de pedestres e animais’. Taí. Gostei. Sou mais a última definição. Tem mais a minha cara: trânsito de pedestres (Ricotinha) e animais (eu) … E completando: automóveis (carro-cidadão contemporâneo com tratamento V.I.P) cuja locomoção livre de obstáculos por meio de pistas lisinhas e paradinhas breves em frente a obstáculos como faróis são, por princípio modernista, evitadas a qualquer custo. Conforto total para o motor cansado de tanto rodar por aí…

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. A calçada quebrada em frente à obra do metrô Oscar Freire. Fim da descrição.

Afasto meus pensamentos cinzentos e retorno ao passeio. Caminho em direção à esquina do futuro metrô. Duas faixas de carro foram eliminadas para ampliação das calçadas. Por que ampliaram as calçadas? Bom-senso dos engenheiros, arquitetos, prefeito ou governador? Doce ilusão a minha. Avançaram com os tapumes da obra sobre ela. Desvio dos blocos de concreto que foram largados sobre o meio fio e engaiolam os pedestres no passeio estreito.

Desvio do carrinho de compras. Todos desviando de mim. Por que será? Lembrei-me…. Estou com minha petbullzinha. Mesmo na coleirinha de strass, todos me olham ressabiados. Ok, penso. Se a calçada resultante das obras tivesse ao menos a largura para duas pessoas andando lado a lado, eu poderia me afastar um pouco. Calma, Helena. Você não está em Londres. Não está em Paris. Não está em Montevideo, Buenos Aires, Berlin, Madrid, Santiago e um monte de outros lugares. Você está num dos metros quadrados mais caro da cidade de São Paulo. Lembre-se, Helena: calçada é o espaço destinado a animais e pedestres…. Mentira: Ricota não consegue andar livremente. Nem eu. Sossegue seus pensamentos, Helena. Retorne ao passeio.

Vejo dois carrinhos disputando o mesmo espaço que eu: o da nova inquilina do quarto andar com seu bebê e sua babá, além do mais tradicional, sóbrio, de feira cheio de flores coloridas e pequenas junto com a Dona Veridiana que, como toda manhã ensolarada, vai ao mercadinho. Uma bicicleta e vários funcionários do metrô depois, estamos todos empilhados sobre uma esquina ridícula que, só não nos deixa numa situação mais indigna, porque tem a tal ‘rampa de acesso’. Para onde? Certamente para o próximo obstáculo: o canteiro central da Avenida Rebouças. Vamos lá, Helena. Bom humor! Logo, logo, depois de exercitar a tolerância, virtude há muito esquecida por minha humanidade, no aguardo de dois faróis, você conseguirá atravessar as seis faixas destinadas ao cidadão automóvel e, logo depois, ao seu destino final: a outra calçada. Imbuída do mais sincero sentimento de empatia pela raça humana urbana, aguardei a passagem e a travessia de todos. Foram dois faróis. Três minutos cada um. Mais a movimentação daqueles corpos se ajeitando nas calçadas. Lentos… muito lentos… e eu querendo passear. Ricotinha já estressada em busca do matinho mais próximo. Pela cara dela, qualquer um serviria. Desconhecidos humanos continuavam chegando e se empilhando na esquina. E eu, em respeito, me afastando com meu pet para deixá-los passar.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na vertical. Esquina da rua Oscar Freire. Vemos a faixa de pedestres e os tapumes da obra. Fim da descrição.

Como que possuída por uma raiva, um sentimento intenso de sobrevivência, peguei Ricotinha no colo (20 kg) e decidi passar no meio daquele monte de gente, para alcançar ao menos o canteiro central. Já estava lá a uma eternidade. Como raposa, observei o farol. Saquei o celular, contei os segundos e, preparada para a maratona, esperei.

Sinal verde para o pedestre: com o cachorro no colo, corri como louca. Numa conversão proibida, fui surpreendida por um caminhão.

PLOFT!

Com o susto, caí rolando sobre a faixa de pedestres até o canteiro central. Interessante a reação das pessoas: os funcionários da CET riram de soslaio. O motorista transgressor, gritou impropérios. As pessoas que aguardavam no ponto de ônibus, incluindo o motorista, gargalhavam. Vi um jovem sacando o celular para fotografar: devo ter virado sucesso nas redes sociais. Os colaboradores do metrô: impassíveis. Meus vizinhos, nem aí. Tipo: sei lá quem é ela. Ricotinha, assustadíssima, havia se soltado da coleira para desespero dos passantes. Grudou em mim. O ônibus, apesar do farol livre, decidiu parar. Menos mal: não passou por cima de mim e nem da Ricotinha. Lembro-me do para-choque a alguns centímetros de distância do meu corpo. Arrastei-me até o canteiro central. Humilhada.

Admiro os gatos. Caem sempre de pé sobre as quatro patinhas. Não importa a situação. Eu? Me esborracho no chão nas malditas calçadas malcuidadas pela gestão do alcaide da cidade onde moro. Não é o primeiro hematoma. É uma situação eterna. Histórica.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. O gatinho Ozzy, está se espreguiçando. Ele é branco e tem detalhes rajados na cabeça. Fim da descrição.

Ozzy, o gatinho contorcionista do meu colega Cidomar Biancardi Filho responsável pela foto

Dizem que vivo no mundo da lua. Enganam-se. Vivo, por assim dizer, num mundo paralelo: espécie de realidade própria, construída em pensamentos profundos que me permitem compreender a outra realidade material, dura, intragável do nosso cotidiano como pedestres em São Paulo. Recorrer a quem? Ninguém. Nada. Vazio. Acessibilidade em ambiente urbano? Só se for em cidades fora do Brasil. Preciso viajar para caminhar. São inúmeras as autarquias, órgãos, departamentos, secretarias, empresas, concessionárias, permissionárias, leis, normas, interessados, curiosos… sei lá. Todo tipo de interferências e emaranhados administrativos e legais agindo sobre o espaço por onde caí. Preciso implorar. Gritar para ter o mesmo direito do carro. Sem saída. Desisto.

Em tempo: Ricotinha conseguiu passear. Correu como nunca no petground – novo espaço público urbano para a diversão canina. Próxima vida, pretende nascer cachorro.

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

Porta para quê?

Portas que atendem as medidas mínimas da norma, podem dificultar o acesso (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

“Quem casa, quer casa”, diz um velho ditado. Como não estavam dispostos a continuar morando na casa dos pais, os dois enamorados decidem investir suas economias num sonho: ter sua própria casa. Rasparam até o último centavo de suas poupanças e contas bancárias; venderam o carro e deram entrada em um financiamento à perder de vista… feitas as contas, vislumbravam o prazo da última prestação – se tudo desse certo, muito provavelmente seus netos estariam dormindo numa casa já quitada…

Móveis comprados, entrega agendada e, com as chaves na mão, foram receber os móveis e organizar os ambientes. Pela porta principal passaram as cadeiras, tapetes, louças… passou até o piano de armário presente de uma tia solteira. O pobre veio deitado de lado no elevador. Desafinou inteiro, mas “tudo bem”, pensou a moça, “depois mando alguém afiná-lo… ele é bonito e quem sabe ela poderia aprender a tocá-lo um dia”.

Chega o sofá. “Doutora, tem um probleminha aqui.” A moça interrompe a arrumação dos armários, e vai de encontro ao rapaz. “Não passa, doutora.” “Não passa o quê?”, pergunta ela. “O sofá, doutora, não passa na porta.” Ela pede para tentar pela porta da sala. Não passava também. Inicia-se o calvário. Atentamente, os dois jovens leem o manual técnico e encontram: 96mm x 292mm x 132mm. Assustados, vão atrás de um conhecido, arquiteto, procurando decifrar o enigma. “Isso mesmo, está correto.” Pergunta o rapaz: “mas como assim, não passa pela porta. Isso é certo”? Reafirma: “As portas atendem as medidas mínimas da norma… ou são de 90mm, ou de 80mm ou de 70mm.… sinto informar, mas tanto o projeto como a construtora estão corretos…”

Percebe então que não só o sofá retrátil de canto (esse era o nome da coisa) não passava pela porta, como também nenhum dos eletrodomésticos profissionais que haviam à duras penas, adquirido. “Quem mandou gostar de cozinhar? Quem mandou gostar de receber pessoas?”, ruminava consigo mesma.

Transtornada, a jovem vai em busca das normas técnicas. Encontra uma norma: a NBR 15930 (2011) – Portas de madeira para edificações. Logo de cara, depara-se com as ‘Definições Gerais’. Pensa: “e precisa definir o que é porta? Será que as pessoas não sabem o que é uma porta? Será que nem todas as culturas do mundo ou povos da terra precisem de portas?”. Mais adiante, lê: “componente construtivo cuja função principal é de permitir ou impedir a passagem de pessoas, animais e objetos entre espaços ou ambientes”. Pois é. Ali estava a resposta. Matou a charada. Se portas tem duas funções principais – permitir a passagem ou impedir a passagem… significava que eles tinham comprado um apartamento cuja função principal das portas era, aparentemente, a de impedir a passagem…

Indignada, foi buscar no porteiro, situação semelhante à que estava passando. Soube então da história de dona Antonieta. Idosa e já com dificuldade de locomoção, passou do uso de bengala, para o uso de muletas e logo depois para o uso do andador rígido. Desta condição, foi direto para a cadeira de rodas. A partir de então, alguns cômodos da casa já não eram mais utilizados por ela e sequer vistos, situação essa que a deixava profundamente incomodada. A reforma tão necessária, fiou para depois, dada a crise econômica brasileira. Estupefata, a jovem questiona: “ela não pode mais usar a casa toda? Pagou por ela e não usa?”

No que responde o porteiro: “parece que não, dona…”, e continua a prosa: “ela só ficava muito, mas muito brava, quando os netos chegavam”. Assustada, a moça pergunta: “brava com os netos? Eram danadinhos? Bagunceiros? Barulhentos?”. “Não”, responde enfaticamente o porteiro. “Ela pegou raiva do apartamento.”

E continuou: “ela não conseguia dar boa noite direito… como a cadeira não passava pelas portas dos banheiros e ela enganchava nas portas dos quartos, ela não conseguia mais dar beijo de boa noite ou embrulhar os netinhos com as cobertas durante as noites frias…”. Penalizada com a história da vovó Antonieta e já conformada com o desmonte das suas portas, ela pergunta: “e que fim levou a dona Antonieta?”, ansiosa por saber o final da triste história. “A dona Antonieta?”, pergunta o porteiro. “Ela está ótima! Vendeu o apartamento e comprou outro. Ficou esperta! Mandou fazer as portas todas largas! De correr! Agora ela vai pra lá e pra cá na casa toda. Consegue até brincar de pega-pega com as crianças por todos os cômodos.” Um pouco mais animada e já terminando a conversa, a jovem pergunta: “e o apartamento dela? Já foi comprado?”

De pronto, responde o porteiro: “foi sim! pela senhora”.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

FONTE: ACESSE PORTAL

Pelos passeios de São Paulo…

Falar de calçadas é também tratar de um tema que se tornou um dos principais desafios das metrópoles contemporâneas: trata-se da mobilidade urbana.

Você sabia que em São Paulo mais de 30% da população se locomove a pé?

Traduzindo em números, cerca de 14 milhões de pessoas utilizam as calçadas de São Paulo para deslocar-se todos os dias: Os motivos são os mais variados e as distâncias também.

O fato é que a locomoção e o deslocamento acontecem sobre um tipo de espaço livre peculiar: as calçadas. Mas, o que é uma calçada? Quais são os elementos que a compõe?

O Decreto Municipal 45.904 de 2005 define os elementos que compõem uma calçada e descreve as 5 faixas que descreveremos as seguir:

– a primeira é a sarjeta, ou ainda, o local por onde escorrem as águas das chuvas, por exemplo, e que fica entre o leito carroçável e a guia. A guia é a elemento que separa a sarjeta da calçada.

sarjeta 3
Fonte

 

– em seguida, vem a faixa de serviço que é aquele espaço de no mínimo 75 cm,  destinado à instalação de equipamentos e mobiliário urbano como vegetação, tampas de inspeção, grelhas de exaustão, de drenagem, lixeiras, postes de sinalização, iluminação pública e eletricidade, floreiras, caixas de correio, telefones públicos e mais dezenas de outras interferências colocadas por permissionárias e concessionárias públicas.

– Logo depois vem a faixa livre, ou seja, aquele lugar em que o pedestre anda livremente e que possui superfície regular, firme, contínua e antiderrapante com largura de, no mínimo, 1.20 m. Trata-se de espaço suficiente para duas pessoas andarem lado a lado. Este lugar tem inclinação transversal de até 2%, ou seja, quase imperceptível para quem está andando mas, que permite, que a água de chuva escorra para a sarjeta sem empoçar no meio do caminho. Quanto à inclinação, ela tem que se igual à da rua: nada daquilo de fazer degraus, escadinhas e várias outras soluções que a gente encontra todos os dias por aí e que nada mais são do que soluções criativas para facilitar a vida particular dos donos dos imóveis ou seja, facilitar a entrada do carro na garagem, servir de apoio para mesas de bares e restaurantes por exemplo.

– Depois temos a faixa de acesso que é a área destinada à acomodação das interferências que são resultantes da implantação, do uso e da ocupação das edificações existentes na via pública. Trata-se da colocação de jardins, floreiras, lixeiras e quaisquer outras necessidades do edifício que está em frente a ela. De qualquer forma, precisa de autorização da prefeitura e só é recomendável para calçadas com mais de 2 metros de largura.

– Por fim o decreto apresenta as esquinas incluindo a intervisibilidade. A esquina constitui o trecho do passeio formado pela área de confluência de 2 (duas) vias. 

boletim lei calcadas_menor_c (1)
Fonte

No evento Calçada-Cilada realizado aqui no FIAM-FAAM Centro Universitário em 01 de abril de 2016, algumas sugestões para a melhoria da vida das pedestres foram apontadas.

O evento contou com a participação de alguns convidados que tratam do assunto. São eles o jornalista Marcos de Souza (MOBILIZE), a arquiteta Meli Malatesta (Cidade a pé e também da ANTP), Andrew Oliveira (Corrida Amiga), Luiz Eduardo Bretas (SPUrbanismo) e Ramiro Levy (Cidade Ativa).

Destaquei algumas mas, se você quiser conhecer as demais, acesse o vídeo do evento aqui:

  • Ampliação das calçadas, passeios e espaços de convivência;
  • Redução de quedas e acidentes relacionados à circulação de pedestres corrigindo e readequando calçadas existentes ou seja, projetando e implantando as cinco faixas ou quando não houver espaço, ao menos as três primeiras – guia e sarjeta, faixa de serviços e faixa livre de 1.20 para o deslocamento;
  • Por fim, a padronização e readequação dos passeios públicos em rotas com maior trânsito de pedestres;

Mas tem uma ação que considero fundamental: por meio de campanhas educativas promovidas pela prefeitura e também por meio das ações criadas pelo ativismo civil organizado, conscientizar os cidadãos da importância das calçadas como um dos elementos que compõem o espaço público das cidades lembrando sempre que a qualidade dos espaços destinados aos cidadãos caracteriza o nível de civilidade de um país. Se quiser saber mais, acesse a Agenda 2030 e Project for Public Spaces.

Texto original: Blog da Paisagem

Revista Casa Projeto & Estilo: dormitório acessível para um adolescente

FIAM-FAAM Centro Universitário

Escritório Modelo: Acessibilidade Universal
Cursos: Design de Interiores, Arquitetura e Urbanismo
Tema: adaptação de um apartamento para um adolescente

Alunos:
Ana Verônica Cruz
Giovanna Galvão
Maiara Bicalho
Leonardo Mamede
Luana Souza Pereira
Luciana Ishu
Sabrina Archanjo Brasil
Simone Dias
Foto: Cibele Rossi de Almeida
Orientação: Profª Helena Degreas

Foto dos alunos

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Introdução
Quem não se lembra de como era bom sair correndo pelos corredores da casa e pular sobre a cama dos pais ou sobre os sofás da sala quando criança? Trazer amigos para dormir em casa, passar a noite inteira acordado assistindo TV, jogando games, conversando e fingindo que está dormindo quando os pais entram no quarto? Estas travessuras e outras tantas são rotina na vida de João (9 anos) e Pedro (12 anos), filhos de um casal jovem que como todos nós, tem uma agenda preenchida por trabalho, estudos, vida social intensa e diversos afazeres vinculados ao lar.

planta do dormitório

É neste ambiente que se desenvolve a proposta de redefinição dos layouts. Com a chegada da adolescência, novas demandas surgiram: os meninos que antes dormiam juntos terão doravante seus quartos individuais que devem oferecer um programa de atividades semelhantes, mas atendendo algumas especificidades: Pedro tem habilidades funcionais motoras reduzidas que, de tempos em tempos, variam entre o uso de cadeiras de rodas e andadores; recentemente, vem sendo estimulado a andar de forma autônoma sem o uso de tecnologias assistivas situação essa que lhe dará a liberdade de escolher para onde quer ir – andando ou correndo a seu modo. Embora ele apresente dificuldades para aprendizagem de conteúdos educacionais, sua habilidade visual é adequada, mas, como qualquer pré-adolescente, sua habilidade funcional auditiva é, na opinião dos pais, bastante “seletiva”.

Quarto do Pedro

quarto do Pedro

Partido

Todos os ambientes foram desenvolvidos para atender às linguagens estéticas e às necessidades sociais da família (recepção de amigos e parentes), bem como às orientações da TO – terapeuta ocupacional e do fisioterapeuta frente aos condicionantes espaciais necessários ao pleno desenvolvimento das habilidades de locomoção e compreensão do Pedro na sua nova fase de vida. A casa deve prover e colaborar no pleno desenvolvimento de autonomia na execução das atividades cotidianas domésticas que vão desde aos cuidados com sua higiene pessoal, alimentação bem como a execução de tarefas que são de sua responsabilidade como guarda de roupas e objetos pessoais, realização de tarefas da escola com acompanhamento eventual da TO, recepção de amigos nos finais de semana e algumas atividades de fisioterapia.

Cozinha Adaptada

Cozinha Adaptada

Cozinha Adaptada

Cozinha Adaptada

O layout foi desenvolvido para todos os ambientes da casa e alguns elementos foram incorporados visando à locomoção segura. A partir dos estudos de circulação (em pé, com auxílio de andadores ou em cadeira de rodas) e, atendendo às formas de uso dos ambientes pelos meninos, todos os vãos de portas e circulações apresentam 0.90m livres. Algumas paredes receberam a fixação de barras de apoio (corredores, salas de estar, jantar, TV, cozinha, banheiro) para que Pedro possa andar apoiando-se por toda a casa. Assentos da cozinha, salas de jantar, estar e home office  (sofás, poltronas e cadeiras diversas) e banheiro são fixos e tem alturas que se adequam à transferências por cadeira de rodas.

No quarto de Pedro foram previstas as mesmas atividades de Marcelo com alguns diferenciais no mobiliário: a bancada de estudo é longa para comportar dois lugares (para ele e para a TO). Nela foi inserida uma prancheta com altura regulável revestida nas quatro laterais com material emborrachado e altura de 0,01m (evita a queda de cadernos e lápis quando inclinada); os gavetões com rodinhas ficam embaixo de uma das laterais da bancada e neles são colocados objetos e brinquedos. A frente é de acrílico transparente para que os objetos sejam facilmente identificáveis pelo menino. A cama é motorizada e biarticulada e sobre ela, no teto levemente rebaixado, foram embutidos dois spots que podem ser acionados para fins de leitura. Como Pedro adora desenhar, ao lado do armário e na parede foi colocada uma grande lousa branca com apoio para que ele fique em pé. Grande paixão do Rodrigo, a bicicleta adaptada juntamente com a cadeira de rodas que aos poucos ele vai largando, ficam pendurados na parede do quarto.

Banheiro adaptado dos meninos: Pedro e João

Banheiro adaptado dos meninos: Pedro e Marcelo

Lavabo adaptado

Lavabo adaptado

adaptação do banheiro dos meninos

adaptação do banheiro dos meninos

O banheiro recebeu mais uma porta que se abre (com folha de correr) para o quarto facilitando o acesso durante a noite. A pia do banheiro e do lavabo tem alturas reguláveis associadas a um sifão flexível. Ao lado da banheira há um assento e apoios laterais retráteis que tem por objetivo facilitar a troca de roupas, como exemplo. As pias do lavabo (que foi colocada no hall de circulação da cozinha) e do banheiro tem barra de apoio na frente facilitando as atividades de higiene. Os pisos todos foram selecionados com materiais antiderrapantes e de fácil manutenção. Tapetes foram embutidos e fixados no chão evitando escorregamentos.

quarto do casal

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