Sob a mesa dos sonhos

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Uma série de pernas de mesas em um restaurante. As mesas são de madeira escura e as toalhas são brancas. Fim da descrição.
Arquiteta destaca o absurdo da falta de acessibilidade das mesas (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

Outro dia, ao colocar as leituras do meu twitter em dia, um dos títulos e foto me chamou a atenção: a mesa dos sonhos de todo o cadeirante! Pensei: já li e ouvi sobre vários tipos de sonhos de consumo… carros, aviões, castelos, viagens, nem sei mais o quê… de minha parte, ando sonhando com 30 minutos diários de sossego destinados só para mim…. Egoísmo? Pode até ser, mas como mercadoria escassa, não encontro.

Voltando ao assunto: mesa? Por que mesa? Deve ter um tremendo design exclusivo, sei lá. Fui atrás do link. Encontrei o amigo @Fred_Rios lá no blog Acessibilidade na Prática. Pensei: preciso entender melhor essa história. Não nos conhecemos pessoalmente, mas trocamos ideias pelas redes sociais faz tempo. Gosto, em especial, da Multa Moral. Mas isso é prosa para outro dia.

Morri de vergonha, literalmente. Como pessoa, como empresária, como educadora e como profissional de projeto. Logo de cara, ele escreve: “entre os vários perrengues que passo por ser cadeirante, um dos que mais me tiram do sério é a falta de mesas acessíveis para fazer uma simples refeição. São raros os restaurantes, lanchonetes e praças de alimentação onde consigo me acomodar adequadamente com a cadeira de rodas, sendo necessário, muitas vezes, ficar de lado na mesa, me posicionar muito distante da comida ou até mesmo pedir ajuda para outra pessoa, já que não tenho destreza nas mãos”.

O quê? Como assim gente? Que absurdo! O cara quer sair de casa, tomar um lanchinho sozinho, com os amigos, com a mulher, os filhos, o cachorro, o vizinho, ou seja lá com quem for e não consegue por causa de uma mesinha? Ou ainda, o cara vai até o bar, restaurante, lanchonete, churrascaria, pub, casa de shows ou em qualquer lugar que ele quer ir para consumir como eu e você e a tal da mesinha à toa não permite que ele se sente e consuma como eu e você? Que horror! Como diz minha colega Thais Frota: “a deficiência está no projeto do ambiente e não na pessoa que não consegue usar o espaço”.

Designers de interiores e arquitetos leitores: será que precisamos queimar muitos neurônios ou necessitamos de muito esforço intelectual e capacidade criativa para disponibilizar mesas que permitam que um usuário, que traz sua própria cadeira, possa sentar-se à mesa como seus amigos e desfrutar de bons momentos? Será que a gente precisa de lei para projetar para pessoas com habilidades funcionais do corpo diversificadas? É tão difícil assim?

Já sei que vai ter colega falando: “ah… mas o cliente pediu para colocar mais mesas, e uma cadeira ocupa mais espaço”, ou ainda, “onde é que eu vou encontrar mobiliário adaptado?”

GENTE, para com isso! Além dessa asneira, tem outras mais que não vou colocar nesse breve espaço. É certo que muitos indivíduos necessitam de tecnologias assistivas, mas também é certo que, muitas vezes, um pouco de bom senso ajuda. Nosso tempo é precioso demais para ficar me estendendo com explicações estapafúrdias (que ouço todo santo dia) de quem nunca será bom profissional. As normas estão todas aqui. Móveis comerciais ou exclusivos têm aos montes: de preços, modelos e materiais diversos. É só procurar e utilizar nos ambientes criados. Se não tiver disponível, é só projetar, detalhar e mandar fazer. É o que sabemos fazer: projetar sonhos.

Repentinamente lembrei-me de uma frase do meu falecido sogro. Homem astuto, afeito a negócios, fez família e algum dinheiro mesmo sem nunca ter estudado. Ele não se cansava de repetir: “dinheiro não tolera desaforo”. Verdade. Nunca esqueci. E em tempos bicudos como os de hoje, a frase soa ainda mais verdadeira.

Recentemente estive com alguns amigos em um restaurante aqui em São Paulo. Quando criança, meu sogro levava os filhos. Meu marido fez o mesmo. Meus filhos já estão repetindo a mesma ação. São três gerações. Na noite em questão, observei algo que me chamou a atenção. Talvez ainda estivesse fresco na minha mente o assunto da aula da manhã. Havia falado sobre o processo de envelhecimento e, com ele, a perda natural de algumas habilidades físicas. O ambiente estava repleto de famílias compostas por várias gerações de indivíduos. Do meu lado, tínhamos uma mesa bem comprida. Nela estavam compartilhando a refeição, as risadas, as conversas e as lembranças os bisavôs e bisavós (que trouxeram suas cadeirinhas de casa e estava comendo na mesma posição que os demais), avós, filhos, netos e bisnetos. Lindo de se ver. E não era um caso apenas. Cerca de um terço do restaurante estava assim. Chamei o gerente:

– Lindo seu restaurante! Várias gerações! Gente de todas as idades.

No que ele responde:

– A senhora viu? A gente trocou a decoração! Estava na hora, né?

Ele só ouviu o “lindo” ao que parece… Olhei para todos os lados e não vi nada diferente… “Bacana! A iluminação… As toalhas… Bem legal…” Tipo… o que é que eu falo agora para ele?! Não estou vendo nada novo aqui…

O gerente: “Ah… As toalhas! Muito observadora a senhora! Nenhum cliente percebeu isso. Só a senhora! São iguais às outras, que eram iguais às outras e por aí vai… (rindo alto). O Sr. Mário é clássico. Não muda nada há décadas. Mas as mesas… essas sim! Trocamos algumas mesas!”

Mas do que é que esse homem estava falando? Debaixo das toalhas, tem mesas. E daí? E alguém vai ficar olhando o modelo da mesa debaixo das toalhas? Já vi a cena: Helena entra no restaurante com o marido, filhos e amigos. Helena, senta-se. Helena, morta de curiosidade para ver o que há sob a mesa tenta, sorrateiramente, olhar por debaixo da toalha. Helena não consegue ver nada. Helena já impaciente abre mão dos modos civilizados e, num rompante, levanta as toalhas e guardanapos. Cai uma taça. Impassíveis, as demais pessoas sentadas à mesa fingem não ver. Helena observa a mesa e diz: “Oh! É nova!” NÃO FIZ ISSO, ok? Ainda tenho um pouco de juízo. “É”… Respondo eu… “Legal. As outras não estavam boas?”.

– Estavam sim! Não sei se a senhora percebeu… Tem gente que está bem velhinha e vem aqui com a família. A família cresceu e eles continuam vindo aqui. Alguns têm cuidadores, outros não precisam. Antes eles vinham a pé. Agora também vem, mas trazem a cadeira junto. As mesas agora têm quatro pernas. A cadeira entra melhor. Os cadeirões para os bebês também entram melhor. Aliás, a senhora viu como esses jovens estão cada dia mais altos? Com as novas mesas, eles não batem os joelhos e nem ficam mais comendo com o corpo retorcido tentando alcançar o prato. Ficam mais tempo e pedem sobremesa dupla. Ah! Tem as mesas redondinhas também… A gente mandou colocar um tampo maior. Agora todos comem junto. A gente tem que preservar o cliente, né? Toda semana tem alguma comemoração. Uma hora é aniversário, outra hora é um noivado, depois estão comemorando a faculdade nova do neto, se despedindo do bisneto que vai trabalhar na Europa… Já pensou se eles deixam de vir aqui e vão ao concorrente do lado só por causa de uma mesa? Não dá, né? Dinheiro não nasce em árvore… (rindo alto).

Homem de negócios. Ação simples, direta e objetiva. Dá para ser um ambiente bacana, cool, virar tendência ou entrar no circuito da moda com ambientes bem projetados e que atendam todas as pessoas.

Fred, nesse bate-papo, acho que concordamos no seguinte: sair para curtir uma boa companhia e “passar perrengue” num ambiente desconfortável, definitivamente não dá. Além da óbvia falta de respeito para com as pessoas, os donos do negócio também não sabem “fazer dinheiro” como diria meu sogro. Estão jogando cliente fora. De minha parte, continuarei como você batendo na tecla da necessidade de boas práticas projetuais. Ensinando, como a Thais que bons projetos, são sempre bons projetos porque atendem as necessidades de todos os clientes. Com conforto, funcionalidade, bom gosto e elegância.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

 

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Meu primeiro apê: será que meus sonhos cabem nele?

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Uma poltrona com estrutura de madeira, com estofado bege escuro, e com uma almofada com estampa bege e dourada. Ao lado, vemos uma mesa de madeira, com um arranjo de flores. Fim da descrição.
Arquiteta alerta para a importância de consultar um profissional antes de comprar um imóvel (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas* (FONTE PORTAL ACESSE)

Sábado à tarde. Assistindo Game of Thrones. Aceitei a sugestão dada por meus aluninhos pelo Facebook. Imaginei que um pouco de sangue, não me faria mal. A realidade em nossas cidades é bem pior do que a ficção. Aninhada no meu sofá, estou entre meus cães macios e perfumadinhos; com uma das mãos seguro uma xícara de chá e, com a outra, pego o controle da TV quando… Toca o celular. Contrariada, atendo com aquele humor que só quem me conhece bem, é capaz de entender e perdoar.
_ Helena, é você?
“Não”, pensei em responder… “Quem tá falando aqui é a Ricotinha, o pet da Helena… como ela se deu ao direito de assistir um filme depois de uma semana de trabalho infernal, resolvi dar um tempo para ela e atendi em seu lugar…”.  Mas, em nome da civilidade e cordialidade, resignada, atendo educadamente. “Sim, quem é?”… Do outro lado, apresenta-se o Pedro. Diz que precisava do favor de um arquiteto e que foi encaminhado por minha vizinha Maria Clara. Não lembro e não conheço a Maria Clara. Nem os meus 52 vizinhos. Acostumada a trabalhar com voluntariado em arquitetura e, com o firme propósito de não estender ainda mais a doce conversa, rosno: “como posso ajudá-lo?”.
_ Vou comprar meu primeiro apê. Não posso errar. A senhora é arquiteta. Pode me orientar?
Quase caí prá trás… Há anos tento explicar a necessidade de se contratar a consultoria de um arquiteto para acompanhar os futuros compradores de imóveis na difícil tarefa de encontrar o lar que vai abrigar suas vidas por um bom tempo.
_ Que ótimo! É uma situação bastante rara essa!

Surpresa com o pedido, perguntei o motivo de procurar um profissional para acompanhar a visitação que antecede a compra.
_ Sou usuário de cadeira de rodas e preciso saber se de fato consigo me locomover dentro do meu novo apê. Foi difícil conseguir o dinheiro, o crédito, o financiamento… A senhora sabe, né? Dinheiro não nasce em árvore!
Muito sábio o pensamento. Tem razão ele. Combinamos de nos encontrar no mesmo dia. Para minha felicidade, o tal empreendimento era próximo de minha casa.  O som de bate-estaca dos últimos meses vinha de lá. Dava para ir a pé. Com um pouco mais de sorte, voltaria a tempo de me jogar no sofá e assistir a série. Cheguei ao local. Fantástica a capacidade de criar cenografias e transformar a leitura de plantas em evento. De cara, sou recebida por jovens sorridentes que nos oferecem sorvetes, café, brigadeiros, cupcakes, toda sorte de gordices que ninguém recusa. Só eu, na minha eterna dieta. Paciência. Encontrei o Pedro. Beirando seus 30 anos, sorriso de canto a canto estampado no rosto, falava sem parar de seus sonhos e não via a hora de estabelecer-se longe da república que dividia com os amigos. Tinha um excelente cargo na empresa onde trabalhava e podia vislumbrar a materialização de seu sonho.
Rapidamente, fomos atendidos por um corretor que se dispôs a falar sobre as maravilhas do empreendimento. Mostrou a maquete, falou do conjunto de espaços que levariam os futuros moradores a incríveis ‘experiências urbanas’… Deck,  solário com bangalôs, piscina com raia, arquibancada com vista para o urban skylinespa centerjapanese gardenfitness centerpet corner, sauna seca e úmida com vestiários, concierge, horta comunitária, jardim dos temperos, manobrista, hub bar, sala para reuniões, eventos,coworking e por aí vai. Já cansada da conversa toda e com muita vontade de acabar com a brincadeira, pergunto: “o senhor pode, por gentileza, me fornecer as plantas das unidades adaptadas disponíveis com as medidas, por favor?

Silêncio

Fechou o tempo. Azedou o clima. O corretor me olhava como se estivesse na presença do anticristo. Chamou o chefe. O chefe chamou o coordenador de área. O coordenador de área chamou o coordenador do evento. O coordenador do evento disse que ele era responsável pelos eventos e não pelas plantas. Ligam para a incorporadora. De lá alguém pede para falar com o arquiteto responsável. O arquiteto, na verdade, era uma empresa imensa composta por inúmeros profissionais de marketing, arquitetura, engenharia, direito, administração entre outros. Como era sábado, eles não tinham a tal planta.
Dirijo meu olhar para o Pedro e pergunto, depois de 50 minutos de espera e, agora sim, com a expressão de anticristo estampada na face, se ele poderia me contar qual era o sonho dele para o seu futuro lar. Ele conta. Fica fora de casa praticamente o dia todo e só volta para dormir. Aos finais de semana ‘cai na vida’ ou viaja com os amigos. Vez e outra, almoça na casa dos pais. “Vai cozinhar?” pergunto. De pronto vem a resposta: “nem morto e se tiver que lavar louça, prefiro jogar fora. Dá pra colocar uma mini lava-louças?” … Ok, pensei, precisa de espaço e instalações de elétrica e água para isso. Não estava na tal planta disponível para todos. “Vai lavar sua própria roupa?” Responde: “ternos, camisas e calças sociais pretendo usar o laundry delivery oferecido pelo concierge do empreendimento. O resto, lavo e seco em casa.” Feliz, corretor, coordenadores, gerentes e nem tão sorridentes jovens, ficam felizes com a resposta do futuro comprador.

“Já entendi”, respondo. Tranquilamente e, já sabendo que meus próximos atos seriam motivo de vergonha para meus filhos, alunos e até amigos, saco de dentro da bolsa um escalímetro e uma trena.

_ Pedro, qual unidade você quer comprar?
_ A que me der menos trabalho para eu limpar e aquela que couber o que eu preciso para viver. Acho que a de 32m². Cabe no bolso.

“Ok”, digo eu. “Primeiro você precisa ter condições de se locomover dentro dela com sua cadeira, certo? Depois, gostaria de saber se você se incomoda de andar de ré ou de costas para entrar nos espaços…”.

_ De ré? Como assim? Cabe direitinho. Tá aqui. Não tá vendo?

Pego o folder de divulgação e começo a fazer o que meu trabalho exige. Digo: “Pedro, os móveis do folder estão fora de escala”

_ Estão o quê? Pergunta ele.

_ Não estão do tamanho certo. A medida do apartamento sim, mas os móveis não estão.

_ Estão tentando me enganar?

_ Não sei. Pergunte para eles.

Com a trena em mãos, mostro para ele a realidade daquilo que o folder tentava vender.

_ Está vendo, Pedro? Você terá 32 cm entre a parede e a cama no seu quarto. A não ser que você entre pelo pé da cama e vá escorregando até a cabeceira, a cadeira não passa…

_ Mas na imagem, parece que dá.

_ Parece, Pedro, mas não dá. Está vendo o que vem escrito aqui? Que todos os móveis, equipamentos, louças, metais e revestimentos de pisos e paredes são meramente ilustrativos e estão sujeitos à alteração. O mesmo pode ocorrer durante a obra por causa das compatibilizações técnicas. O que você está vendo e os demais futuros compradores estão aqui vendo também (já com cerca de dez pessoas me olhando atônitas enquanto eu desenhava ‘no ar’ e mostrava com a trena os espaços) é quase uma obra de ficção. É uma ilustração. Só isso. Bonita, né? Bem feitinha…

Continuei… “No banheiro, é esse o tamanho. A cadeira entra de ré. Se precisar ir até o box, não consegue. O giro completo, nem pensar… acho que não vai dar para tomar banho… Para adaptar o banheiro, colocar uma máquina lavadora e secador de roupas, além do espaço para esquentar uma comidinha rápida, você irá sacrificar a sua sala de jantar ou a de estar, talvez… não é difícil. Dá para fazer. Você terá que projetar e mandar fazer os móveis numa marcenaria para esse seu apê. Não vai dar para comprar móveis prontos. Eles não irão caber… nem para você e nem para quem está nos olhando enquanto conversamos”.

Minha pretensão de assistir Game of Thrones estava cada vez mais difícil, graças ao tempo que eu estava disponibilizando com ele e agora mais do que isso: tirando dúvidas e dando a consultoria de graça para os demais futuros compradores que estavam por lá…

Terminada a visita ao stand de vendas, dirimidas as dúvidas, vejo o Pedro titubeante, tentando me perguntar algo.

_ Diga rapaz, qual é a dúvida?

_ Obrigada por me ajudar. Mas é que eu vou precisar fazer novas visitas. Se eu tivesse feito à visita sozinho, eu teria investido minhas economias num apê que eu não conseguiria morar. Quanto custa sua consultoria? É caro, né? Você divide o valor? Em quantas vezes?

#Morri

Pergunto: “Você parcela a consulta do seu psicólogo ou do seu oftalmologista?”

“Não”, responde ele.

No final, expliquei ao Pedro e aos demais que permaneciam me ouvindo, a importância de consultar-se com um profissional da área não apenas na escolha do imóvel, mas principalmente quando da entrega das chaves. É fundamental ler o memorial descritivo do imóvel e conferir se o que está sendo entregue é exatamente aquilo que foi comprado. Em alguns casos, não é. Quanto ao valor, reitero: se a consulta de um médico não é cara, a de um arquiteto, também não é. Os valores equiparam-se. Os resultados interferem diretamente na qualidade de vida daqueles que irão construir seus lares e realizarem seus sonhos neles. Eles precisam, no mínimo, caber. Um projeto é cobrado de forma diferente. Depende do tipo de serviço contratado.  Ainda assim, vale a pena perguntar a um profissional.

Para o Pedro e para os demais ouvintes que presenciaram a situação inédita, encaminhei os nomes de ex-alunos e colegas.

Voltei para casa. Ricotinha e Chanel me aguardavam no sofá. Peguei a melhor louça da casa. Preparei um novo chá. Enfim, assisti ao primeiro episódio.

O Pedro? Comprou o apartamento com área maior. Tinha até uma varandinha. Os espaços foram projetados por um colega meu para ele. Seus sonhos caberão em seu novo apê.

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

Outras notícias sobre Arquitetura

Tudo depende de como você entende as coisas

Eu não nasci de óculos

Arquitetura inclusiva garante segurança e conforto

Tudo depende de como você vê e entende as coisas

Fonte: Acesse Portal

Descrição da imagem #PracegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Alguns livros estão sobrepostos em cima de uma mesa. Fim da descrição.
Arquiteta reflete sobre as formas de ver as coisas (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

Como de costume, numa manhã ensolarada de domingo, lá fomos nós: meu marido, eu, Ricotinha e Chanel fazer um passeio a pé. No caminho, paramos para tomar um café na Livraria da Vila, na região conhecida como Jardins, em São Paulo (SP). Lá, nossos comportados pets são bem-vindos.

Enquanto os três foram ouvir jazz no andar de cima, eu desci as escadas para ver as novidades infanto-juvenis. E por que esse setor especificamente? Porque precisava espairecer. No dia anterior, eu havia preparado algumas aulas que tratavam de temas difíceis como acessibilidade, desenho universal e tecnologias assistivas, entre outros. Semestralmente atualizo o material do e procuro novas informações, técnicas, materiais e ideias. Começo pelos significados das palavras. Conceito mal definido, vira pré-conceito. Em arquitetura, posso traduzir por desastre na vida das pessoas…

Amo livrarias. Essa em especial. Tem de tudo muito! É como uma feira de novidades. Sobre o expositor, esbarro com o título “Tudo depende de como você vê as coisas” do escritor Norton Juster. Abri aletoriamente:

“Esta é Dicionópolis, capital de um reino feliz, magnificamente situado no contraforte da Confusão e acariciada pelas brisas suaves do mar do Conhecimento”.

Mais adiante, leio ‘Bem-vindos ao mercado das palavras’. Ao longo do texto, o autor brinca com as palavras e, ao tirá-las do contexto, muda as ideias de lugar criando situações inesperadas. Para o bem e, em alguns momentos, para o mal.

Pareceu interessante. Comecei a devorá-lo lá mesmo, entre gritarias, contadores de histórias e mães teclando no celular.

É impressionante o festival de confusões que acontecem quando utilizamos palavras de maneira inadequada. Cada uma delas traz consigo uma definição. As definições encontram-se em… Livros e textos diversos que as definem, ora… podemos encontrá-las em dicionários diversos, dicionários profissionais, impressos, mídias digitais… um mundo de possibilidades! Aquelas que compõem o léxico profissional devem ser encontradas em dicionários especializados na área em que estamos trabalhando.

Li outro dia, não lembro bem onde, que a língua é um sistema de representação cognitiva do universo pelo qual construímos nossas relações. Nada mais adequado do que iniciar uma disciplina, por meio da definição de conceitos. Pela forma como nos comunicamos, nos expressamos, seremos compreendidos, incluídos em grupos sociais diversos. Expressamos o que vemos e entendemos por meio de palavras. E aí… tudo depende de como vemos as coisas…

Apesar da falta de paciência dos universitários para com a palavra, a leitura, a pesquisa – todos querem ir direto à solução projetual e de forma mágica, as tais palavrinhas às quais me refiro quando leciono os princípios do desenho universal são fundamentais para a correta abordagem do tema e da sua aplicação nas propostas de projeto de arquitetura, urbanismo, paisagismo, produto entre outros. Aparentemente não percebem, mas o repertório vocabular é uma espécie de passaporte que irá incluí-los no ambiente profissional quando egressos.

À título de ilustração, num seminário de alunos realizado por jovens apressadinhos e pouco afeitos à leitura e pesquisa (indiquei as fontes, mas os lindinhos decidiram, de última hora, procurar em outro lugar), foi apresentada a definição e alguns sinônimos do verbete ‘normal’. Procuraram onde? No Dicionário Informal e na Desciclopédia… quase cortei meus pulsos…. Os dois são construídos de forma colaborativa. Ou seja: os usuários inserem a sua definição, bastante peculiar… bem autoral…. Enquanto no primeiro o humor é politicamente incorreto do tipo soft, no segundo o politicamente incorreto vira um pouco hardcore… vou omitir o resultado da apresentação… essas pessoinhas irão me encontrar novamente nesse semestre e na mesma disciplina…

Outro dia, li a coluna do Leonardo Reis – Crônicas do Gigante Leo –, aqui mesmo, no portal Acesse. Em sua crônica, o Gigante Leo sentia-se perplexo e chateado com o uso da palavra ‘normal’. Foi atrás do significado em um dicionário online e citou uma das várias definições: “sem defeitos ou problemas físicos ou mentais”. Associou a definição encontrada e selecionada, à exclusão. E, a partir dela, discorreu sobre questões de inacessibilidade do ambiente construído. Nesse momento, eu fiquei preocupada.

Normal e comum são verbetes muito, mas muito utilizadas de maneira equivocada. Concordo com o Leo. É como se o comum, o corriqueiro fossem a norma. A partir daí posso entender a decepção do colega.

Mais do que a palavra, entendo que é a forma como a utilizamos. O seu contexto. Mas, em terras brasileiras, além do contexto no uso das palavras, temos também o contexto urbano, cultural, educacional. De tão corriqueira que é a falta de gestão do ambiente construído em nossas cidades e de tão comum que é o desrespeito para com as normas edilícias, que para os nossos jovens o ruim e os erros transformam-se em regra. Pior: nem percebem que existe outra forma mais adequada para atender as necessidades das pessoas com qualidade.

Gerações e gerações de jovens nascem, crescem e vivem em ambientes que resultam de erros que de tão repetidos, transformam-se em norma. Associada a esses fatos, em qualquer cidade brasileira, predomina a cultura da autoconstrução. Profissionais de projeto, para quê? Tenho certeza que alguns leitores já fizeram alguma reforma por conta própria ou contratando algum pedreiro, empreiteiro…. Podemos incluir também na discussão, os poucos anos de escolaridade da imensa maioria de brasileiros e a formação rasa (com raras exceções) de nossas escolas públicas e também particulares.

Depois de anos em salas de aula, formam analfabetos funcionais. São jovens e adultos que decodificam letras, frases, textos curtos, mas são incapazes de compreendê-los. Apenas 8% das pessoas em idade de trabalhar são consideradas plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números, segundo matéria do portal UOL

Longe, mas muito longe dos profissionais, essa situação, por si só, gera erros grotescos e várias ilegalidades em diferentes níveis e graus de complexidade. Mais um dado: para nós, projetistas de espaços que abrigam a vida das pessoas, não existe a reprodução do comum, do corriqueiro, a cópia como processo de projeto. É impossível. Indivíduos, famílias ou agrupamentos sociais têm necessidades únicas para morar, recrear-se, socializar-se ou trabalhar.

O que de comum existe entre todos é que, quando contratado um projetista (sejam eles arquitetos, engenheiros, designers e tantos outros), impõe-se a ele tanto a realização de pesquisas profundas sobre as necessidades das pessoas e de funcionamento do local, quanto a obrigatoriedade do cumprimento das leis urbanísticas, dos códigos de obras e demais normas da cidade, do estado e do país. Submetemo-nos todos a elas e sem discussão. Numa de suas aulas (brilhantes, por sinal), o arquiteto Marcelo Sbarra discorre sobre o papel das normas e legislações na produção de um projeto de arquitetura e apresenta as mais de mil normas associadas à pratica profissional (CLIQUE AQUI e AQUIse quiserem conhecer mais), tais como Posturas Municipais, Códigos de Obras, Planos Diretores, Zoneamentos, Bombeiros, NBR’s, Anvisa, etc. Todas elas compõem o vasto arcabouço de conhecimentos normativos e legais que devem ser considerados no ato de projetar.

Portanto, aqui por nossas terras Léo, para a nossa tristeza, o normal ainda é construir fora da norma. É normal não ler. É normal o poder público não fiscalizar. O comum é o jeitinho brasileiro que encontra-se muitas vezes à margem da lei. O tal jeitinho, por sua vez, cria equívocos conceituais. Quando erros e compreensões equivocadas se materializam, criam barreiras, muralhas inteiras que nos impedem de realizar nossas vidas em espaços públicos urbanos. Concordo, Leo: imperam em nossas paisagens urbanas, a materialização de pré-conceitos. Como só a educação muda o mundo, vamos nós dois, nesse espaço acessível. Contribuindo com a mudança.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

Porta para quê?

Portas que atendem as medidas mínimas da norma, podem dificultar o acesso (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

“Quem casa, quer casa”, diz um velho ditado. Como não estavam dispostos a continuar morando na casa dos pais, os dois enamorados decidem investir suas economias num sonho: ter sua própria casa. Rasparam até o último centavo de suas poupanças e contas bancárias; venderam o carro e deram entrada em um financiamento à perder de vista… feitas as contas, vislumbravam o prazo da última prestação – se tudo desse certo, muito provavelmente seus netos estariam dormindo numa casa já quitada…

Móveis comprados, entrega agendada e, com as chaves na mão, foram receber os móveis e organizar os ambientes. Pela porta principal passaram as cadeiras, tapetes, louças… passou até o piano de armário presente de uma tia solteira. O pobre veio deitado de lado no elevador. Desafinou inteiro, mas “tudo bem”, pensou a moça, “depois mando alguém afiná-lo… ele é bonito e quem sabe ela poderia aprender a tocá-lo um dia”.

Chega o sofá. “Doutora, tem um probleminha aqui.” A moça interrompe a arrumação dos armários, e vai de encontro ao rapaz. “Não passa, doutora.” “Não passa o quê?”, pergunta ela. “O sofá, doutora, não passa na porta.” Ela pede para tentar pela porta da sala. Não passava também. Inicia-se o calvário. Atentamente, os dois jovens leem o manual técnico e encontram: 96mm x 292mm x 132mm. Assustados, vão atrás de um conhecido, arquiteto, procurando decifrar o enigma. “Isso mesmo, está correto.” Pergunta o rapaz: “mas como assim, não passa pela porta. Isso é certo”? Reafirma: “As portas atendem as medidas mínimas da norma… ou são de 90mm, ou de 80mm ou de 70mm.… sinto informar, mas tanto o projeto como a construtora estão corretos…”

Percebe então que não só o sofá retrátil de canto (esse era o nome da coisa) não passava pela porta, como também nenhum dos eletrodomésticos profissionais que haviam à duras penas, adquirido. “Quem mandou gostar de cozinhar? Quem mandou gostar de receber pessoas?”, ruminava consigo mesma.

Transtornada, a jovem vai em busca das normas técnicas. Encontra uma norma: a NBR 15930 (2011) – Portas de madeira para edificações. Logo de cara, depara-se com as ‘Definições Gerais’. Pensa: “e precisa definir o que é porta? Será que as pessoas não sabem o que é uma porta? Será que nem todas as culturas do mundo ou povos da terra precisem de portas?”. Mais adiante, lê: “componente construtivo cuja função principal é de permitir ou impedir a passagem de pessoas, animais e objetos entre espaços ou ambientes”. Pois é. Ali estava a resposta. Matou a charada. Se portas tem duas funções principais – permitir a passagem ou impedir a passagem… significava que eles tinham comprado um apartamento cuja função principal das portas era, aparentemente, a de impedir a passagem…

Indignada, foi buscar no porteiro, situação semelhante à que estava passando. Soube então da história de dona Antonieta. Idosa e já com dificuldade de locomoção, passou do uso de bengala, para o uso de muletas e logo depois para o uso do andador rígido. Desta condição, foi direto para a cadeira de rodas. A partir de então, alguns cômodos da casa já não eram mais utilizados por ela e sequer vistos, situação essa que a deixava profundamente incomodada. A reforma tão necessária, fiou para depois, dada a crise econômica brasileira. Estupefata, a jovem questiona: “ela não pode mais usar a casa toda? Pagou por ela e não usa?”

No que responde o porteiro: “parece que não, dona…”, e continua a prosa: “ela só ficava muito, mas muito brava, quando os netos chegavam”. Assustada, a moça pergunta: “brava com os netos? Eram danadinhos? Bagunceiros? Barulhentos?”. “Não”, responde enfaticamente o porteiro. “Ela pegou raiva do apartamento.”

E continuou: “ela não conseguia dar boa noite direito… como a cadeira não passava pelas portas dos banheiros e ela enganchava nas portas dos quartos, ela não conseguia mais dar beijo de boa noite ou embrulhar os netinhos com as cobertas durante as noites frias…”. Penalizada com a história da vovó Antonieta e já conformada com o desmonte das suas portas, ela pergunta: “e que fim levou a dona Antonieta?”, ansiosa por saber o final da triste história. “A dona Antonieta?”, pergunta o porteiro. “Ela está ótima! Vendeu o apartamento e comprou outro. Ficou esperta! Mandou fazer as portas todas largas! De correr! Agora ela vai pra lá e pra cá na casa toda. Consegue até brincar de pega-pega com as crianças por todos os cômodos.” Um pouco mais animada e já terminando a conversa, a jovem pergunta: “e o apartamento dela? Já foi comprado?”

De pronto, responde o porteiro: “foi sim! pela senhora”.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

FONTE: ACESSE PORTAL

Casa Projeto & Estilo: projeto para uma “república” acessível

Talita Benedicto  e  Vitor Zonderico Brandão   FIAM-FAAM Centro Universitário CASA Projeto & Estilo Helena Degreas

FIAM-FAAM Centro Universitário

Alunos: Talita Benedicto  e  Vitor Zonderico Brandão  

Escritório Modelo: Acessibilidade Universal

Curso: Arquitetura e Urbanismo

Tutor: Profª: Drª Helena Degreas

FIAM-FAAM Centro Universitário Profª Helena Degreas

Tema:

O que pode acontecer quando quatro jovens universitários com habilidades funcionais distintas e gostos muito heterogêneos decidem compartilhar os espaços de um apartamento pelos próximos anos?

Centro Universitário FIAMFAAM Casa Projeto & Estilo Helena Degreas

Partido e descrição do projeto

Para atender ao programa de atividades de quatro jovens universitários de alto poder aquisitivo, foram criados ambientes que atendessem as rotinas domésticas e de lazer, já que muitos dos finais de semana são destinados ao encontro e socialização com os demais colegas da faculdade.

Casa Projeto & Estilo FIAMFAAM Centro Universitário Helena Degreas Casa Projeto & Estilo FIAMFAAM Centro Universitário Helena Degreas Casa Projeto & Estilo FIAMFAAM Centro Universitário Helena Degreas

Para atender a casa sempre repleta de pessoas, o piso, seguro e de fácil manutenção, foi feito em cimento queimado; as antigas paredes da cozinha que criavam verdadeiras barreiras no relacionamento social foram retiradas e, em seu lugar, projetados ambientes com alturas e dimensões adequados para atender a todos, sem distinção: do futuro chef de cozinha que tem habilidades funcionais motoras reduzidas e se locomove por meio de cadeira de rodas aos demais membros que não necessitam do uso de tecnologias assistivas. Cozinha e área de serviços foram projetadas visando à praticidade e funcionalidade na execução das atividades cotidianas.

Os espaços foram distribuídos em setores (guarda, preparo, cozimento, limpeza e, para a área de serviços, lavar, secar, passar, guardar). Para atender ao jovem chef, foram previstos os movimentos (circulação, estacionamento e transferência) da cadeira de rodas e, também, as alturas adequadas aos acessos frontais e laterais bem como as profundidades das bancadas previram o alcance manual frontal (0,45cm). Tudo isso para, no dizer de seus amigos de faculdade, viabilizar o seu trabalho como “o cozinheiro oficial da república”. A pia, bancada de trabalho e almoço, cooktop e demais áreas de apoio da cozinha e da lavanderia foram posicionadas a 0,85cm do chão. Garantindo conforto a todos os usuários, foi colocada uma torneira em arco flexível e ducha spray facilitando os movimentos quando da lavagem de utensílios e alimentos. Armários, gaveteiros, gavetas refrigeradas e demais espaços para guarda de utensílios domésticos e roupas tem alturas entre 0,40cm e 1,40cm do chão.

FIAMFAAM Centro Universitário Casa Projeto & Estilo  Helena Degreas

Um display na bancada permite que o usuário possa controlar o som, a TV e DVD sem precisar se deslocar, fazendo tudo simultaneamente. As tomadas encontram-se posicionadas a 1,10m em todos os cômodos. Na lavanderia, as máquinas podem acessadas lateralmente e tanto a secagem de roupas por varal, quanto a guarda em cabideiros utilizou o sistema basculante. Mesmo instalado em ponto mais alto, pode ser acessado por varão que, mais longo do que o usual é puxado para baixo permitindo a descida por inteiro.

CASA Projeto & Estilo FIAMFAAM Centro Universitário Helena Degreas

Revista Casa Projeto & Estilo: dormitório acessível para um adolescente

FIAM-FAAM Centro Universitário

Escritório Modelo: Acessibilidade Universal
Cursos: Design de Interiores, Arquitetura e Urbanismo
Tema: adaptação de um apartamento para um adolescente

Alunos:
Ana Verônica Cruz
Giovanna Galvão
Maiara Bicalho
Leonardo Mamede
Luana Souza Pereira
Luciana Ishu
Sabrina Archanjo Brasil
Simone Dias
Foto: Cibele Rossi de Almeida
Orientação: Profª Helena Degreas

Foto dos alunos

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Introdução
Quem não se lembra de como era bom sair correndo pelos corredores da casa e pular sobre a cama dos pais ou sobre os sofás da sala quando criança? Trazer amigos para dormir em casa, passar a noite inteira acordado assistindo TV, jogando games, conversando e fingindo que está dormindo quando os pais entram no quarto? Estas travessuras e outras tantas são rotina na vida de João (9 anos) e Pedro (12 anos), filhos de um casal jovem que como todos nós, tem uma agenda preenchida por trabalho, estudos, vida social intensa e diversos afazeres vinculados ao lar.

planta do dormitório

É neste ambiente que se desenvolve a proposta de redefinição dos layouts. Com a chegada da adolescência, novas demandas surgiram: os meninos que antes dormiam juntos terão doravante seus quartos individuais que devem oferecer um programa de atividades semelhantes, mas atendendo algumas especificidades: Pedro tem habilidades funcionais motoras reduzidas que, de tempos em tempos, variam entre o uso de cadeiras de rodas e andadores; recentemente, vem sendo estimulado a andar de forma autônoma sem o uso de tecnologias assistivas situação essa que lhe dará a liberdade de escolher para onde quer ir – andando ou correndo a seu modo. Embora ele apresente dificuldades para aprendizagem de conteúdos educacionais, sua habilidade visual é adequada, mas, como qualquer pré-adolescente, sua habilidade funcional auditiva é, na opinião dos pais, bastante “seletiva”.

Quarto do Pedro

quarto do Pedro

Partido

Todos os ambientes foram desenvolvidos para atender às linguagens estéticas e às necessidades sociais da família (recepção de amigos e parentes), bem como às orientações da TO – terapeuta ocupacional e do fisioterapeuta frente aos condicionantes espaciais necessários ao pleno desenvolvimento das habilidades de locomoção e compreensão do Pedro na sua nova fase de vida. A casa deve prover e colaborar no pleno desenvolvimento de autonomia na execução das atividades cotidianas domésticas que vão desde aos cuidados com sua higiene pessoal, alimentação bem como a execução de tarefas que são de sua responsabilidade como guarda de roupas e objetos pessoais, realização de tarefas da escola com acompanhamento eventual da TO, recepção de amigos nos finais de semana e algumas atividades de fisioterapia.

Cozinha Adaptada

Cozinha Adaptada

Cozinha Adaptada

Cozinha Adaptada

O layout foi desenvolvido para todos os ambientes da casa e alguns elementos foram incorporados visando à locomoção segura. A partir dos estudos de circulação (em pé, com auxílio de andadores ou em cadeira de rodas) e, atendendo às formas de uso dos ambientes pelos meninos, todos os vãos de portas e circulações apresentam 0.90m livres. Algumas paredes receberam a fixação de barras de apoio (corredores, salas de estar, jantar, TV, cozinha, banheiro) para que Pedro possa andar apoiando-se por toda a casa. Assentos da cozinha, salas de jantar, estar e home office  (sofás, poltronas e cadeiras diversas) e banheiro são fixos e tem alturas que se adequam à transferências por cadeira de rodas.

No quarto de Pedro foram previstas as mesmas atividades de Marcelo com alguns diferenciais no mobiliário: a bancada de estudo é longa para comportar dois lugares (para ele e para a TO). Nela foi inserida uma prancheta com altura regulável revestida nas quatro laterais com material emborrachado e altura de 0,01m (evita a queda de cadernos e lápis quando inclinada); os gavetões com rodinhas ficam embaixo de uma das laterais da bancada e neles são colocados objetos e brinquedos. A frente é de acrílico transparente para que os objetos sejam facilmente identificáveis pelo menino. A cama é motorizada e biarticulada e sobre ela, no teto levemente rebaixado, foram embutidos dois spots que podem ser acionados para fins de leitura. Como Pedro adora desenhar, ao lado do armário e na parede foi colocada uma grande lousa branca com apoio para que ele fique em pé. Grande paixão do Rodrigo, a bicicleta adaptada juntamente com a cadeira de rodas que aos poucos ele vai largando, ficam pendurados na parede do quarto.

Banheiro adaptado dos meninos: Pedro e João

Banheiro adaptado dos meninos: Pedro e Marcelo

Lavabo adaptado

Lavabo adaptado

adaptação do banheiro dos meninos

adaptação do banheiro dos meninos

O banheiro recebeu mais uma porta que se abre (com folha de correr) para o quarto facilitando o acesso durante a noite. A pia do banheiro e do lavabo tem alturas reguláveis associadas a um sifão flexível. Ao lado da banheira há um assento e apoios laterais retráteis que tem por objetivo facilitar a troca de roupas, como exemplo. As pias do lavabo (que foi colocada no hall de circulação da cozinha) e do banheiro tem barra de apoio na frente facilitando as atividades de higiene. Os pisos todos foram selecionados com materiais antiderrapantes e de fácil manutenção. Tapetes foram embutidos e fixados no chão evitando escorregamentos.

quarto do casal

Revista Casa Projeto & Estilo: apartamento acessível

FIAMFAAM Centro Universitário

Alunos: Ana Paula Higa e Ricardo Cipolla
Foto: Tulio Oliveira
Escritório Modelo: Acessibilidade Universal
Curso: Arquitetura e Urbanismo
Profª: Drª Helena Degreas

Ricardo Cipolla e Ana Paula Higa

Ricardo Cipolla e Ana Paula Higa

Conceito

É possível projetar ambientes confortáveis, bonitos, de fácil manutenção e que ainda assim sejam suficientemente flexíveis para se adaptarem às mudanças físicas do nosso corpo em diversos estágios da vida? É possível morar num mesmo lugar por décadas? A partir destas questões, alunos do escritório modelo do curso de arquitetura e urbanismo projetaram um apartamento de aproximadamente 52 m² preocupando-se em atender as necessidades de desenvolvimento do ser humano, construindo objetos e lugares compatíveis com as necessidades, habilidades e limitações das pessoas visando à eficiência, eficácia e satisfação. Acessibilidade, portanto, foi a premissa de projeto. Para o caso, o desafio proposto foi o de viabilizar espaços que atendam tanto um casal de jovens quanto pessoas idosas e que apresentem a necessidade de uso de tecnologias assistivas.

Os problemas mais comuns enfrentados em nossos lares

Dificuldade em usar tomadas, passar por portas, corredores ou ainda mover-se livremente em ambientes estreitos, escorregar em pisos lisos ou molhados, derrubar ou ter dificuldade em alcançar objetos que estão mais altos em armários são situações que enfrentadas diariamente por todas as pessoas e que aparentemente são corriqueiras. Mas não deveriam ser: pequenas adequações de projeto geram maior qualidade de vida a todos os usuários.

planta do apto

Pequenas mudanças gerando maior conforto

Para atender às expectativas dos clientes, foram estudados os principais ambientes de um lar. Com isso, a planta do apartamento foi reformada: os dois dormitórios minúsculos que mal comportavam uma cama e armários deram espaço a um dormitório de casal e ampliaram a área do banheiro. A cozinha e a área de serviço antes enclausuradas por paredes, foram reformuladas visando à funcionalidade e eficiência frente às necessidades e comportamentos contemporâneos dos moradores. A cozinha que utilizou granitos, madeiras e cerâmicas antiderrapantes, não só ampliou o espaço como também permitiu a comunicação entre os moradores e eventuais visitantes da casa. Para atender às diferentes estaturas, o cooktop elétrico juntamente com a pia e os armários de parede, todos em aço, têm alturas reguláveis graças aos trilhos de correr. Gaveteiros, estantes, adega, bancadas, toalheiros e demais acessórios foram projetados com alturas que vão entre 0,40m e 1,40m gerando conforto no uso. Portas, corredores e áreas de circulação tem vão de 0,90m mínimo para atender a movimentação e a passagem de uma pessoa em pé ou com mobilidade funcional motora reduzida, usando ou não auxílio para a locomoção como cadeira de rodas, andador ou muletas. A bancada de apoio dobra seu tamanho e pode ser usada tanto para receber amigos quanto como estação de trabalho comportando papéis, laptop e demais materiais. Todas as tomadas do apartamento são altas e foram implantadas há 1.10m de altura.

Cozinha com princípios de Desenho Universal

Cozinha com princípios de Desenho Universal

Dormitório e sala minimalista compartilham o mesmo aparelho de TV que, graças ao mecanismo que o faz girar, viabiliza o uso em ambientes distintos. O tapete, embutido no piso é fixado ao chão evitando movimentação e garantindo segurança ao morador.

Os armários do dormitório tem divisórias e nichos que otimizam o espaço organizando roupas e acessórios adequadamente. Os varões, apesar de estarem em pontos mais altos, são articulados e móveis trazendo as roupas dos cabides para perto do morador e permitindo o uso de praticamente toda a parede do dormitório de forma funcional evitando o desperdício ou ociosidade de espaços. Com isso, mesmos os pontos mais altos ficaram acessíveis.

Living com princípios do Desenho Universal

Living com princípios do Desenho Universal

As portas de correr receberam espelhos que dão mão leveza e amplitude ao ambiente. A área de banheiro recebeu tons neutros dando mais sobriedade e classe ao ambiente. O espelho toma toda a parede e encontra-se inclinado facilitando a visualização de todo o corpo. A pia é deslizante, pois encontra-se fixada a um sistema de trilhos. Existe o espaço para a colocação de barras de apoio entre o vaso, pia e bancada caso necessários. Ao box foi incorporado um banco retrátil que garante maior conforto durante o banho.

Banheiro acessível: elevação

Banheiro acessível: elevação

 

 

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