Mobilidade urbana sustentável: tinha um buracão no meio do caminho

Fonte: Acesse Portal

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Uma calçada com flores vermelhas estampadas no piso, pedras de diversos tamanhos e cores em volta de arbustos com folhas largas dificultando a locomoção dos pedestres na calçada. Fim da descrição.
Arbustos dificultam a locomoção dos pedestres na calçada (Foto: Helena Degreas)

Por: Helena Degreas*

Um dia desses, estava em sala de aula falando sobre acessibilidade do ambiente construído em áreas urbanas. Para não assustar muito os futuros urbanistas, achei por bem falar sobre mobilidade urbana sustentável, com foco na requalificação dos espaços destinados à locomoção não motorizada – ou seja, locomoção que utiliza a força e energia do próprio corpo para ir de um lugar a outro. Pode ser percorrendo caminhos a pé, ou com rodinhas por exemplo, sejam elas bicicletas, skates, patinetes ou cadeiras.

 

Mobilidade urbana sustentável

É importante conhecer os responsáveis pela criação, manutenção, enfim, a gestão pública dos espaços que acolhem e viabilizam (ou não) o ‘ir e vir’ do cidadão brasileiro. Caminhar a pé ou por rodinhas não acontece apenas em calçadas. Acontece em praças, parques, jardins. Nem bem abri a boca direito para falar sobre o assunto quando, à queima roupa, atiram em mim, a primeira pergunta:

– Profa! A vizinha foi engolida por um buracão na calçada.

– Como é que é?

– Quero saber quem cuida disso.

– Que buracão? De quem era o tal do buracão?

– E buraco tem dono, profa? A mulher se arrebentou inteira. Acho que não viu. Era noite. Não tinha muita luz. A senhora vira e mexe fala de calçadas acessíveis. Para quem, profa?

– Como assim, não tinha luz? A calçada não tinha poste de iluminação de rua?

– Até tinha, profa. Mas a copa da árvore é tão grande que chega a fazer sombra até de noite… (gargalhadas na sala)

– Galhos avançando na calçada e cobrindo a iluminação? Na altura do pedestre?

– Isso, profa. Acho que o maior problema nem é a luz. Ela que use a lanterna do celular. Acho que o maior perigo é o piso da calçada.

– O que tem o piso da calçada?

– É bonitinho, profa. Cheio de pedras, gramas e flores. A vizinha poderia ter desviado pela rua mesmo, andado pelo asfalto…. Mas não! Foi pela calçada. Deve ter ficado com medo.

– Pela rua?! Como assim?! E desde quando pedestre anda pelo asfalto junto com os carros? Medo do quê?

– Carros não, profa! Ônibus. É faixa de ônibus. É certo que sempre tem caminhões estacionados na rua. Mas a faixa é dos ônibus. A velocidade é de 50 km por hora… a calçada é estreita. E tem aquele monte de lixo esperando o lixeiro recolher. Com medo de morrer atropelada pelo caminhão, ela disse que preferia arranhar o rosto com os galhos da árvore e destruir o salto do sapato novo com as pedrinhas que ficam no meio da grama que o vizinho plantou… daí ela decidiu ir pela calçadinha mesmo…

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Imagem de uma calçada esburacada, com tampas de caixa de inspeção sem identificação quebradas. Ao lado do meio fio, colado no autor da foto, uma grade de bueiro quebrada e a imagem da lateral de um caminhão estacionado ao lado de quem está fotografando. Fim da descrição.
No meio do caminho tinha um buracão (Foto: Helena Degreas)

– Calçadinha? Galhos de árvores no rosto? Pedrinhas no meio da grama?

– É profa! Deve ter meio metro de largura, se tiver! Bem que o vizinho que está na frente da árvore queria podar, mas a regional disse que era para esperar… se mexer, multa na certa!

– Bom, chega de buracão na calçada. Segunda metade da aula, quero todo mundo aqui dentro com uma pesquisa. Quantas intervenções tem as calçadas em volta da faculdade? Quero saber o nome das concessionárias, que tipo de intervenções foram realizadas e, para o caso de uma reclamação sobre manutenção, existe algum contato para o cidadão? Pode ser? Incluam a legislação que regula a criação e manutenção das calçadas na pesquisa.

 

Horas depois…

– E então? Quem gostaria de iniciar a apresentação?

– Eu! Vi que tem vários buracões aqui em volta da faculdade.

– Sério? Bom… pode começar! De quem são os buracões?

– Bom, profa. São Paulo tem 32 mil km de calçadas. Uns 8 milhões de pessoas andam por elas todos os dias. Os buraquinhos, buracos e buracões tem vários donos. Ou se a senhora quiser, “agentes produtores e mantenedores das calçadas”. Vou citar alguns para a senhora. Vamos lá. A senhora quer que eu comece pelos municipais, pelos estaduais, pelos federais ou começa aqui, pelo bairro mesmo? Os particulares ou os públicos?

– Vejo que já criou uma classificação…

– É profa, organização e método é tudo, como a senhora sempre diz. Mas vamos, lá. O buracão do qual lhe falei… lembrei: não tinha nome. Aliás, nem todo buraco tem nome…. São buracos os mais diversos… muitos deles são buracões sem tampa… devem ter sido retiradas, roubadas…. Acho que não devem ter dono também… devem ter sido abandonados… caixas de inspeção largadas, coitadinhas…

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Imagem de uma tampa de caixa de inspeção da empresa TELESP ao lado de uma floreira com borda alta na calçada. Fim da descrição.
Uma tampa de caixa de inspeção é suficiente para prejudicar a acessibilidade (Foto: Helena Degreas)

– Como assim, não tem identificação?

– Pois é profa… tem da Eletropaulo, Telesp, Net, Vivo, Claro, Sabesp. Cetesb, bombeiros, CET, DSV, águas pluviais, Congás, ANEEL, Metrô, PMSP, … toda a empresa tem várias tampas de diferentes tamanhos, subclassificações e formas! Bem legal! Dá para fazer uma composição artísticas juntando todas! Buracos surgem como pragas… uma tubulação rompida causa um buraquinho num ponto, vai ramificando e quando a gente menos espera, vira uma cratera! Já vi carro sendo engolido em asfalto…, mas a vizinha, professora? Engolida por uma calçada? Isso nunca tinha visto não…

– E ela? Como está?

– Tá bem, profa… meio arranhada… não quebrou nada…. Saiu rastejando, de quatro, até o portão da casa dela… os outros vizinhos ouviram os gritos e, de repente, a encontraram escalando as paredes do buracão. Parecia uma cobra se contorcendo… Ela não queria ajuda para sair… Eles ficaram olhando… Depois do susto, parece que ela desembestou a gritar um monte de palavras muito feias dirigidas à mãe e à família do prefeito. Prefiro não repetir aqui, profa. Foi mal. Ela disse que iria processar o governo. Um dos vizinhos que já tinha quebrado o pé por causa de outro buraco, indicou a Defensoria Pública do Estado. E não é que ela descobriu que existiam vários casos como o dela? Um monte de gente se arrebentando por aí… tem que provar que ela se machucou por causa do buraco. Mas se tiver testemunha, laudo médico, fotos… essas coisas todas, dá para processar a prefeitura e ser indenizado. Professora, a senhora sabia que tem até campanha ‘caça-buraco’? Chama-se Calçada-Cilada. Bem legal! Vale conhecer e colaborar. Aí, professora… veja o lado bom da vida… a senhora pode fazer uma corrida de obstáculos numa calçada… nem precisa de academia! Só cuidado para não cair num buracão…

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

 

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O lado sinistro

Fonte: Acesse Portal
Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. A imagem tem uma composição, com um pedaço de uma folha de sulfite, com um desenho infantil, sem uma definição clara. O desenho está em cima de uma mesa. Abaixo da folha com o desenho está uma toalha branca de crochê bordada. Fim da descrição.
Lembranças: Desenho do filho e toalha de crochê (Foto: Arquivo pessoal)

Por Helena Degreas*

Bebê já grandinho, chegou a hora de levá-lo para a escolinha. Apesar daquela sensação de culpa eterna que ronda os pensamentos de grande parte da vida daqueles que se ocupam da criação dos pequenos, é preciso deixar crescer. Criamos para o mundo e não para nós mesmos.

Desenvolvimento físico, intelectual, socialização e autonomia são competências socioemocionais que podem ser estimuladas a partir da vivência com outras pessoas. Em casa, não conseguiríamos ‘dar conta do recado’ sozinhos.

Numa das primeiras reuniões com os pais, vejo seus primeiros desenhos. Emocionada, começo a ler naquele emaranhado de traços, linhas, pontos e quase círculos a manifestação do seu desenvolvimento cognitivo. Lá estavam seus pensamentos expressos graficamente! Em mais algumas folhas, surgiram alguns recortes em papeis coloridos colados. #MomentoOrgulho.

Olho para a professora e penso numa frase para externar minha gratidão. Não deu tempo. De pronto ela descreve o que vê: “São garatujas. É assim que eles desenham.” Como é que é? Garatuja no meu dicionário significa desenho rudimentar, malfeito e por aí vai. Perguntei: Do que você está falando? Dá para explicar? Provavelmente num dia ruim, a educadora responde: “Seu filho é canhoto”. Fuzilando com o olhar, me questionava: “E daí? Qual é o problema colega? Escreve com a mão esquerda, vai cortar o bife segurando a faca com a mão esquerda….”

Acaso a escola e seus professores não estão instrumentalizados e preparados para colaborar no seu desenvolvimento? É isso? O clima azedou de vez. Adivinhem quanto tempo ele permaneceu por lá…

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. A Imagem é de uma sala de aula, com diversas carteiras na cor bege, vazias enfileiradas. Entre elas estão cadeiras com braços para destros e canhotos. Fim da descrição.
Salas de aula não estão preparadas para todos (Foto: Arquivo pessoal)

Nos primeiros meses de vida, seguindo a ordem natural e esperada das coisas, ele começou a utilizar uma das mãos com mais frequência do que a outra para segurar o copinho e a colher. Estava expressando, como qualquer ser humano, a preferência quanto à lateralidade corporal. Era a esquerda. Pensei: “Será que isso vai dar algum problema na escola? Final do século 20? Acho que não”. Canhoto, canhestro, esquerdo, inábil, desastrado, sinistro… nem sei quantos sinônimos encontrei. Aqueles ligados aos valores religiosos eram os piores: cão, diabo… em outras palavras, passava-me a impressão de alguém ‘do mal’. Palavrinhas que materializavam condutas e comportamentos sociais construídos a partir de pré-conceitos. O menino aprontava todo o tipo de diabruras…, mas daí a entender que a preferência lateral corporal é ‘do mal’? Eu, hein! Fico imaginado o vasto cabedal de histórias que terei para contar aos filhos do meu filho…

Mas o pensamento retornava, insistindo em me perturbar: “…Com o quê, afinal, estaria eu tão incomodada”?

Lembrei-me de meu primo Ιωάννης e minha avó Eλενη. Primo mais velho, brincávamos juntos quando criança. Por volta dos quatro anos, ele me ensinou a desenhar e a escrever com as duas mãos. Sem perceber, desenvolvi uma nova habilidade. Pouco tempo depois, tive alguns probleminhas durante as aulas de caligrafia na escola tradicional americana que frequentei. Gostava de ‘desenhar as letras de mão’ com as duas mãos. Professoras à moda antiga, decidiram unilateralmente escolher a mão que deveria ‘desenhar as tais letras’. Adivinhem qual era… Anos mais tarde, num dos vários almoços na universidade, ele me confidenciou que sofreu muito na escola. Imagine escrever com a mão esquerda frequentando um colégio religioso repleto de padres professores. Afinal, está claro na Bíblia que ‘À direita de Deus pai, ficam as boas ovelhas’… Já à esquerda ficam… tirem suas próprias conclusões… Sobreviveu à tirania destra, crescendo como um adulto ambidestro.

Minha avó paterna, por sua vez, não frequentou escola. Essa situação não a impediu de aprender a ler e a escrever sozinha. Com ela aprendi a cozinhar, tricotar e fazer peças em crochê, naturalmente, utilizando a agulha com a mão esquerda. Só me dei conta disso, novamente na escola, anos mais tarde, durante as aulas de ‘Prendas domésticas’. Nas aulas, empunhando a agulha na mão esquerda, tive que reaprender o que minha avó querida havia me ensinado, agora com a direita. Para não ser reprovada, reaprendi. Tempos difíceis aqueles…

Mas o quê afinal, ainda me incomodava? Acho que foi minha profissão, mais do que qualquer outra coisa. Como arquiteta e urbanista projeto ambientes, espaços e objetos para uso e fruição das pessoas quer nas atividades diárias do lar, do trabalho e da vida em sociedade. Valores estéticos, sociais, econômicos e funcionais estão sintetizados em cada projeto, em cada objeto e ambiente. Tudo é pensado para ser utilizado de maneira confortável por qualquer um que necessite dos nossos serviços. O projeto é contextualizado nas necessidades dos contratantes, apoiado obrigatoriamente em normas e legislações vigentes, técnicas, materiais e processos construtivos disponíveis no mercado.

Procurei em estabelecimentos comerciais diversos objetos cujo design – projeto em outras palavras –, pudessem adaptar-se e atender plenamente as preferências e habilidades associadas à lateralidade corporal do meu filho para facilitar-lhe o uso em ambiente escolar. Obviamente, mal consegui uma tesoura que, apesar de ter gravado o nome do meu filho, misturava-se às dos demais alunos destros, sendo tratada como ‘aquela ruim que não corta’. Meu filho por sua vez, ia se adaptando ao mundo dos destros. Carteiras inadequadas que levavam a uma postura horrível, mouses, botões, roupas, apontadores, abridores de latas ou até dificuldade na escrita: Já perceberam que a mão esquerda passa por cima do texto que se está escrevendo? Leva-se mais tempo para desenvolver a mesma tarefa. Fico imaginando como escrever com uma caneta tinteiro ou como se resolvem as questões de um cirurgião canhoto…

O fato é que até hoje, 20 anos depois, século 21, apesar dos avanços obtidos por força de lei, cerca de 10% da população mundial ainda precisa desenvolver ‘destreza’, adaptar-se e ser flexível no uso dos objetos, instrumentos de trabalho e ambientes criados para os destros. Quantos são? Cerca de 700 milhões de pessoas adaptam-se ao desconforto para poderem trabalhar ou divertir-se. Algumas situações, de tão corriqueiras, transformam-se em verdades inquestionáveis. Cansei de ouvir de alunos e demais pessoas. “Mas é assim que se faz! E existe outro jeito?” Óbvio que sim. Vários! Coloque-se no lugar do outro. Vá pesquisar. Projetar não tem glamour nenhum: 99% transpiração e 1% inspiração. Resumindo: é muito trabalho.

Retorno à necessária mudança de cultura: Valores e crenças sociais só mudam com a educação. Demora, mas não tem outro jeito. Arquitetos não são capazes de mudar a visão de mundo dos demais 90% dos membros que compõem o grupo dos destros. De minha parte, fui contribuir com a mudança. Apesar de trabalharmos com médias, projetar demanda soluções diferentes para cada contexto. Procurar soluções que atendam habilidades funcionais distintas do corpo, significa em outras palavras, dar as mesmas condições de acesso e uso de ferramentas de trabalho, espaços e ambientes para executar uma tarefa bem: independentemente das habilidades funcionais do corpo.

Ao lecionar disciplinas na área de projeto, solicito aos meus alunos que tomem uma atitude proativa, desconfiando sempre do status quo, revendo processos, rotinas, comportamentos, produtos, normas e até legislações que dificultem de alguma forma, a vida das pessoas. Gosto de imaginar o mundo dos mais variados ângulos e lados. Canhestro, estranho, esquisito, inábil, limitado é aquele que diante de todas as possibilidades e lados opta por um apenas… para mim, sinistro mesmo é ver um lado só da vida.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

Porta para quê?

Portas que atendem as medidas mínimas da norma, podem dificultar o acesso (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

“Quem casa, quer casa”, diz um velho ditado. Como não estavam dispostos a continuar morando na casa dos pais, os dois enamorados decidem investir suas economias num sonho: ter sua própria casa. Rasparam até o último centavo de suas poupanças e contas bancárias; venderam o carro e deram entrada em um financiamento à perder de vista… feitas as contas, vislumbravam o prazo da última prestação – se tudo desse certo, muito provavelmente seus netos estariam dormindo numa casa já quitada…

Móveis comprados, entrega agendada e, com as chaves na mão, foram receber os móveis e organizar os ambientes. Pela porta principal passaram as cadeiras, tapetes, louças… passou até o piano de armário presente de uma tia solteira. O pobre veio deitado de lado no elevador. Desafinou inteiro, mas “tudo bem”, pensou a moça, “depois mando alguém afiná-lo… ele é bonito e quem sabe ela poderia aprender a tocá-lo um dia”.

Chega o sofá. “Doutora, tem um probleminha aqui.” A moça interrompe a arrumação dos armários, e vai de encontro ao rapaz. “Não passa, doutora.” “Não passa o quê?”, pergunta ela. “O sofá, doutora, não passa na porta.” Ela pede para tentar pela porta da sala. Não passava também. Inicia-se o calvário. Atentamente, os dois jovens leem o manual técnico e encontram: 96mm x 292mm x 132mm. Assustados, vão atrás de um conhecido, arquiteto, procurando decifrar o enigma. “Isso mesmo, está correto.” Pergunta o rapaz: “mas como assim, não passa pela porta. Isso é certo”? Reafirma: “As portas atendem as medidas mínimas da norma… ou são de 90mm, ou de 80mm ou de 70mm.… sinto informar, mas tanto o projeto como a construtora estão corretos…”

Percebe então que não só o sofá retrátil de canto (esse era o nome da coisa) não passava pela porta, como também nenhum dos eletrodomésticos profissionais que haviam à duras penas, adquirido. “Quem mandou gostar de cozinhar? Quem mandou gostar de receber pessoas?”, ruminava consigo mesma.

Transtornada, a jovem vai em busca das normas técnicas. Encontra uma norma: a NBR 15930 (2011) – Portas de madeira para edificações. Logo de cara, depara-se com as ‘Definições Gerais’. Pensa: “e precisa definir o que é porta? Será que as pessoas não sabem o que é uma porta? Será que nem todas as culturas do mundo ou povos da terra precisem de portas?”. Mais adiante, lê: “componente construtivo cuja função principal é de permitir ou impedir a passagem de pessoas, animais e objetos entre espaços ou ambientes”. Pois é. Ali estava a resposta. Matou a charada. Se portas tem duas funções principais – permitir a passagem ou impedir a passagem… significava que eles tinham comprado um apartamento cuja função principal das portas era, aparentemente, a de impedir a passagem…

Indignada, foi buscar no porteiro, situação semelhante à que estava passando. Soube então da história de dona Antonieta. Idosa e já com dificuldade de locomoção, passou do uso de bengala, para o uso de muletas e logo depois para o uso do andador rígido. Desta condição, foi direto para a cadeira de rodas. A partir de então, alguns cômodos da casa já não eram mais utilizados por ela e sequer vistos, situação essa que a deixava profundamente incomodada. A reforma tão necessária, fiou para depois, dada a crise econômica brasileira. Estupefata, a jovem questiona: “ela não pode mais usar a casa toda? Pagou por ela e não usa?”

No que responde o porteiro: “parece que não, dona…”, e continua a prosa: “ela só ficava muito, mas muito brava, quando os netos chegavam”. Assustada, a moça pergunta: “brava com os netos? Eram danadinhos? Bagunceiros? Barulhentos?”. “Não”, responde enfaticamente o porteiro. “Ela pegou raiva do apartamento.”

E continuou: “ela não conseguia dar boa noite direito… como a cadeira não passava pelas portas dos banheiros e ela enganchava nas portas dos quartos, ela não conseguia mais dar beijo de boa noite ou embrulhar os netinhos com as cobertas durante as noites frias…”. Penalizada com a história da vovó Antonieta e já conformada com o desmonte das suas portas, ela pergunta: “e que fim levou a dona Antonieta?”, ansiosa por saber o final da triste história. “A dona Antonieta?”, pergunta o porteiro. “Ela está ótima! Vendeu o apartamento e comprou outro. Ficou esperta! Mandou fazer as portas todas largas! De correr! Agora ela vai pra lá e pra cá na casa toda. Consegue até brincar de pega-pega com as crianças por todos os cômodos.” Um pouco mais animada e já terminando a conversa, a jovem pergunta: “e o apartamento dela? Já foi comprado?”

De pronto, responde o porteiro: “foi sim! pela senhora”.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

FONTE: ACESSE PORTAL

Revista Casa Projeto & Estilo: Luxo & Acessibilidade

Danielle Rey, Emmanoel Pires, Érika Nunes, Fábio Yasumoto, Lucas Crepaldi e Olavo Leme

Alunos:
Danielle ReyEmmanoel PiresÉrika Nunes, Fábio Yasumoto, Lucas CrepaldiOlavo Leme
ProfessorasHelena Degreas e Renata Mello
Escritório ModeloAcessibilidade Universal
CursosDesign de Interiores e Arquitetura e Urbanismo

Clientes:

Família contemporânea formada pelo casal (ele é jornalista, 45 anos com habilidades funcionais motoras reduzidas e ela, arquiteta, 40 anos e 1.50m) e três filhos (meninos de 10 e 18 e menina de 16), tem vida social intensa. Encontros, recepções, festas, reuniões de amigos e família fazem parte da rotina de todos os seus membros. Para atender a demanda, os ambientes foram integrados tanto física quanto visualmente sem perder as qualidades estéticas e o conforto. Tecnologias de ponta e planejamento de sistemas áudio e vídeo compõem os espaços que acomodam as atividades de lazer e recreação de todos.

Revista Casa Projeto & Estilo FIAMFAAM - apartamento acessível

Estilo

Moderno, arrojado e sofisticado, o projeto propõe ambientes compostos por materiais, revestimentos e mobiliários com design exclusivo de vários arquitetos e designers, dentre eles, Philippe Starck . As ambientações foram realizadas utilizando uma paleta de cores neutras como branco, preto, beges e cinzas pontuadas estrategicamente com cores vibrantes como amarelo, dourado e vermelho que surgem tanto de objetos decorativos quanto das obras de arte contemporânea distribuídas pelo apartamento.

Casa Projeto & Estilo FIAMFAAM Centro Universitário arquitetura e Design de Interiores

As adaptações

Funcionalidade e eficiências na circulação e acesso a todos os ambientes, mobiliários e equipamentos associado ao luxo, transformaram-se no desafio central para a concepção do projeto. É possível atender clientes com habilidades funcionais diversificadas atendendo às exigências estéticas de todos? A utilização dos princípios de desenho universal, da NBR9050 associados às especificidades ergonômicas e funcionais de cada um de seus membros levaram ao projeto de ambientes que utilizaram predominantemente produtos existentes no mercado de decoração e design. Ajustes nas alturas de poltronas, pufes, mesas e sofás, posicionamentos de tomadas, previsão de circulações amplas e sem barreiras (tapetes foram inseridos em recortes de piso e fixados) e adaptações em bancadas (lavatórios, pias) foram adotadas com o objetivo de gerar qualidade de vida aos seus membros.

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Living e Family room

Sala de estar, home theater, adega, espaço para leitura, sala de jantar apresentam circulações amplas entre os ambientes viabilizando giro completo da cadeira de rodas e espaços para estacionamento e transferência para o usuário.

Lavabo e suítes

Sofisticado, o desenho das bancadas ajusta-se à altura de seus usuários a partir de acionamento de um botão. As barras de apoio com design alemão, confundem-se com os acessórios assinados. As suítes contam com TVs Magic Mirror em painéis de vidro, chuveiros de teto, duchas manuais e banco retrátil (casal) em Corean, material durável e higiênico.

Cozinha e Espaço Gourmet

A bancada central é de uso exclusivo do pai e se prolonga unindo-se com a mesa de refeições de toda a família. As duas cubas são adaptadas e dispõem de torneiras com água quente e fria acionada com alavancas frontais, o cooktop permite aproximação frontal, o forno elétrico e micro-ondas estão dispostos em bancadas baixas e tanto gaveteiros quanto armários utilizam trilhos de correr italianos, permitindo o alcance de alimentos e utensílios.

Suíte do casal

Foi utilizada uma cama biarticulada que permite diferentes posições e ajustes reclináveis realizados por meio de controle manual. Destaque para u uso de cores e texturas (dos papéis de paredes italianos, tecidos e acabamentos importados), para a automação da TV, equipamentos de som e iluminação do quarto (teto, leitura, piso entre outros).

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Os espaços livres na constituição da forma urbana brasileira

Ana Cecília CAMPOS1; Eugenio QUEIROGA2; Silvio MACEDO3, Fany GALENDER4, Vanderli CUSTÓDIO5, Rogério AKAMINE6, Helena DEGREAS7, João MEYER8

1Pesquisadora LAB-QUAPÁ/FAUUSP Rua do Lago 876, 05508900, Brasil 2Prof. Dr. FAUUSP Rua do Lago 876, 05508900, Brasil3 Coordenador LAB-QUAPÁ/FAUUSP Rua do Lago 876, 05508900, Brasil 4Pesquisadora LAB-QUAPÁ/FAUUSP Rua do Lago 876, 05508900, Brasil 5Profa. Dra. Instituto de Estudos Brasileiros Av. Prof.Mello Morais, trav. 8, no.14, 05508-030, Brasil 6Prof. Dr. Universidade Nove de Julho Av. Dr. Adolpho Pinto, 109, 01156050, Brasil 7Prof. Dra. FIAMFAAM Rua do Lago 876, 05508900, Brasil 8Prof. Dr. FAUUSP Rua do Lago 876, 05508900, Brasil.

QUAPA SEL Pnum 2013
QUAPA SEL Pnum 2013

Introdução

A urbanização contemporânea brasileira, nas duas últimas décadas, apresenta significativas transformações. Em um país com população majoritariamente urbana, está em curso intenso crescimento de cidades de Proceedings of PNUM 2013, Coimbra, Portugal, 27 e 28 de Junho 2013 680 médio e grande porte – as regiões metropolitanas estabelecidas são hoje mais de 50. Verifica-se o espraiamento urbano e funcional, bem como a desconcentração das atividades centrais e industriais em diversos núcleos urbanos. Surgem redes de cidades redesenhando estruturas urbanas: cidades novas ou que experimentam acelerado crescimento urbano, como aquelas em áreas de forte produção agroindustrial. Desde 2012, o projeto interdisciplinar intitulado “Os sistemas de espaços livres na constituição da forma urbana no Brasil: produção e apropriação” (QUAPÁ-SEL II), coordenado pelo Laboratório LAB-QUAPÁ da FAUUSP, investiga relações entre sistemas de espaços livres e a forma urbana brasileira na atualidade, considerando sua produção a partir dos processos socioeconômicos e ambientais, seus aspectos comuns e especificidades locais. Dentre seus objetivos está a construção de referencial metodológico para a análise qualitativa destas relações. Para o estudo de 35 cidades estão sendo elaborados mapas de tipologias que embasam e são, ao mesmo tempo, resultado direto das discussões conceituais. Aplicados aos diferentes graus de complexidade das manchas urbanas, os mapas relacionam as seguintes categorias: parcelamento do solo, espaços livres intraquadra e volumes construídos, em conformidade ou não com a legislação. Possibilitam leituras diversas, combinando as variáveis listadas, ou isolando seus componentes. Outras variáveis também têm sido trabalhadas: vegetação arbórea intraquadra e viária, áreas não parceladas ou em processo de consolidação, estruturas naturais significativas como matas e cursos d´água, e espaços livres públicos. O estudo comparativo destas cartas entre cidades permitirá estabelecer padrões genéricos e locais tanto estruturais como específicos, caracterizando a paisagem urbana nacional e contribuindo para a elaboração de políticas públicas, sobretudo aquelas que incluem os sistemas de espaços livres como um dos principais elementos estruturantes do tecido urbano. De qualquer maneira, a representação bidimensional desta configuração não descarta a vivência destes locais e outras formas de apreensão enquanto método, que podem complementar e enriquecer a leitura.   artigo completo: PNUM2013

Revista Casa Projeto & Estilo: Flat para um produtor cultural

FIAMFAAM Escritório Modelo Revista Casa Projeto & estilo

FIAMFAAM Centro Universitário e Revista Casa Projeto & Estilo

Alunos:

Ana Paula Santolia de Araújo
Anna Carolina Theófilo
Keila Beatrice Mazza Cyrino Ferreira,
Pedro Vinicius Coivo Cabral e Silva
Reginaldo Castro Moura

Professoras: Helena Degreas e Renata Mello
Escritório Modelo: Acessibilidade Universal
Curso: Design de Interiores e Arquitetura e Urbanismo

O cliente

Criador e produtor de projetos artísticos e culturais, nosso cliente leva uma vida profissional e social intensa, organizando espetáculos, produções, mostras e eventos os mais diversos. Viaja de forma sistemática captando recursos e buscando novos talentos. Dono de um gosto estético refinado, esse jovem “agitador cultural”, como é carinhosamente chamado pelos colegas, solicita a execução de um projeto que se adeque às suas habilidades funcionais motoras e que também apresente materiais e acabamentos modernos, cores contrastantes e texturas diversas, que materializem no espaço, as características de sua personalidade vibrante.

FIAMFAAM Revista Casa Projeto & estilo

O projeto

Para a elaboração do layout, o grupo determinou a localização dos ambiente propostos identificando as circulações e as possíveis manobras que serão realizadas pela cadeira de rodas. Posteriormente, foram definidas as formas de aproximação, acesso e transferência aos mobiliários e uso dos ambientes: todo o cuidado para que as atividades cotidianas do lar possam ser desenvolvidas de forma autônoma sem o auxílio de terceiros.

FIAMFAAM escritório Modelo Revista Casa Projeto & Estilo

Os ambientes

Para o dormitório, foi selecionada uma cama de casal ajustada à altura da cadeira de rodas com o objetivo de facilitar a transferência. Com reguladores para ajuste de tensão, controle individual de posições e massageador, relaxar ao final do dia em frente a uma TV cujo suporte giratório automatizado atende a sala e o dormitório.

O armário apresenta gaveteiros, sapateiros e local para a guarda de objetos diversos foram distribuídos prevendo-se a aproximação lateral da cadeira de rodas. Para otimizar o espaço reduzido, os cabideiros mesmo com sua instalação mais alta, são basculantes fazendo com que o varão apresente altura compatível para o alcance manual frontal. A profundidade do armário atende o alcance manual lateral sem esforço.

FIAMFAAM e Revista Casa Projeto & Estilo

No banheiro, a bancada da pia foi projetada prevendo uma cuba que utiliza um sistema de trilhos que permite ajuste de alturas. O sifão articulado é flexível, seu posicionamento foi ajustado rente à parede, proporcionando segurança ao acesso frontal. Vaidoso, nosso cliente terá acesso visual completo a partir do espelho do banheiro graças à inclinação de 10 graus. No box, foi colocada uma cadeira de banho retrátil e duchas ajustáveis, associadas a um chuveiro. Os trilhos das portas deslizantes do box, foram embutidos no piso, com o objetivo de facilitar na circulação. Sob a bancada, foi posicionado um gaveteiro móvel.

FIAMFAAM escritório modelo Revista Casa Projeto & estilo

Para atender qualidade e conforto do cliente, algumas premissas foram adotadas pelo grupo: por se tratar de espaço exíguo – um Flat com cerca de 40 m², portas e circulações apresentam entre 0.80m e 0.90m de largura. Os giros da cadeira de rodas, visam ao bem estar do usuário e por isso, devem prever a qualidade dos deslocamentos e das manobras realizadas. Ou seja, giros completos devem ter 1.50 m de diâmetro para viabilizar uma volta inteira no ambiente. Dependendo do caso, as rotações ocupam 1.20 m x 1.50 m para meia volta e 1.20 m por 1.20 m para girar à esquerda ou à direita. Todos os pisos selecionados são antiderrapantes e os carpetes utilizados na decoração foram fixados no chão e embutidos em recorte no piso. Todos os móveis e equipamentos que serão utilizados pelo cliente para fins de descanso, foram selecionados a partir de estabelecimentos comerciais que atendem usuários com habilidades motoras diversas, ou seja, quando necessário, tiveram suas alturas adequadas à para a transferência a partir de uma cadeira de rodas proporcionando bem-estar ao cliente.

FIAMFAAM revista Casa Projeto & Estilo

FIAMFAAM Revista Casa Projeto & Estilo

The open spaces system as a structural element of urban form: proposal for a new point of view

The open spaces system as a structural element of urban form: proposal for a new point of view

Sílvio Soares Macedo. E-mail: ssmduck@usp.br. Prof. Tit. at FAUUSP, CNPq scholarship.

Eugenio  Fernandes  Queiroga. E-mail:  queiroga@usp.br.  Prof. Dr.  at  FAUUSP  e  CNPq scholarship.

Jonathas Magalhães Pereira da Silva. E-mail: jonathas@mpsassociados.com.br Prof. Dr. at FAU and POSURB-PUC-Campinas

Ana Cecília de Arruda Campos. E-mail: anacecilia@arrudacampos.com, LAB-QUAPÁ researcher at FAUUSP.

Rogério Akamine. E-mail: akamine224@gmail.com. Prof. Dr. UNINOVE e USJT, LAB-QUAPÁ researcher at FAUUSP.

Fany Galender. E-mail: fgalender@uol.com.br. Prefeitura Municipal de São Paulo, LAB-QUAPÁ researcher at FAUUSP.

Helena Degreas. E-mail: hdegreas@uol.com.br.  Profa. Dra. FIAMFAAM, LAB-QUAPÁ researcher at FAUUSP.

Fábio Mariz Gonçalves. E-mail: fabiomgoncalves@uol.com.br. Prof. Dr. at FAUUSP.

Vanderli Custódio. E-mail: vanderli@usp.br. Profa. Dra. at Inst. de Estudos Brasileiros (Área Temática de Geografia) – IEB-USP.

Morphology studies cannot consider urban form without taking into account buildings and open spaces. These two elements are closely connected to physical support and pre-existing environmental dynamics. Therefore we see no sense in breaking them in any studies related to the urban form. This article begins to look at the city and its forms under  a rarely used way. The open space becomes the protagonist of the analysis. This approach considers both publicly and privately owned spaces. It evaluate the role of different types of retreats that shape backyards, enclosed yards, parking lots, parks and plazas, etc.. and through which passes part of everyday city life. Despite the natural connection links with others societies in the world like: similar neighborhoods and architectural forms, global urban habits, Brazilian cities hold a peculiar form coming from the specific process of parceling land, urban legislation, cultural habits and formal and informal actions that resulted as the contemporaneous Brazilian urban landscape. After five years of study, carried out by a national network of researchers, coordinated by LAB-QUAPA[1] – at the São Paulo University, it was possible to build a comprehensive overview of the characteristics, opportunities and constraints of the Brazilian cities open space systems. The presentation discusses the relationship between the open space systems and the urban form, checking the points in common: their process of constitution, the existing social and environmental conflicts, and their morphological structure and appropriation types of open spaces.

Keywords: stakeholders, open spaces system, urban form

Introduction

This text is a result of a search that works with the concepts: space by reference to the Brazilian geographer Milton Santos, open space worked by the Brazilian architect and urban planner Miranda Magnoli, the public sphere derived from the political theory of Habermas(1989) and Hannah Arendt (1991) and notions of complexity and system proposed by the philosopher Edgar Morin (2008).

The research was developed through a national network known as QUAPÁ-SEL Network – Frame of Landscaping in Brazil / Open Space System – which currently has researchers from 17 Brazilian universities.

Networking aimed to build a theoretical-conceptual and methodological framework of the open space systems and the constitution of the public sphere in Brazil, through exchange and knowledge from the sum of specificity, methods and suggestions from each investigation that integrated the research.

 

Objectives

The survey was designed and developed to deepen discussions on the existing open spaces in cities. We tried to check them as representatives of a condition of urban cultural life and to examine how Government acts towards them.

It aimed to build a referential interpretation of the Brazilian urban contemporaneity linking open spaces and public life evaluating and dimensioning the initiatives of institutions, enterprises and populations (plans, projects and management), in order to qualify public spaces.

The study also sought to understand the recent structure of open space systems in significant Brazilian urban formations, be they metropolitan, megalopolitan and responsible for diffuse urbanization. Aimed at critical review of thought and values dominant models ​​that guide the planning of open space systems, the implementation of its elements and the recent trends related to real estate. To do so it  was necessary to understand the interdependence and complementarity between public and private spaces.

The assessment of ecological potentials of the open spaces systems to conserve and regenerate urban natural resources was also needed to understand the contribution of different open spaces system for the constitution of contemporary public life environments in various Brazilian urban realities.

Finally, we tried to create theoretical and methodological bases for the elaboration of general principles for public policies, plans and deployments of open spaces, more attentive to the heterogeneity of the Brazilian urban reality and to environmental protection and urban ecology.

 

Working Standards

The working standards indicate the scope and limits for the development of the research. To reach the stated objectives it was necessary to establish weekly meetings with the researchers, perform field research, organize semi-annual series of lectures with professionals in the private and public sectors, develop an agenda  for workshops in all participating cities involved with the university, identify representatives from the local public and society, organize annual conferences involving national network of researchers and systematize photographic documentation and mapping carried out during the research.

With the collected material it was possible to develop graphical analysis of maps and aerial photos in addition to urban and environmental legislation resulting on the production of specific texts.

Follows the adopted concept for the open space system as well as the results achieved so far.

Open Spaces System Concept

The open spaces system is understood as the set of all existing urban open spaces, regardless of their size, aesthetic, attributes, function or location. We consider every open space, public or private.

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The idea of system is constituted by full functional binding, since only public spaces are physically connected to each other, especially considering the road system. The drawings emphasize the buildings while the open spaces are considered as their negatives.

The land ownership structure affects the construction of the city and therefore of its public and private spaces. It also interferes in the form of these appropriations. So there are two categories of open spaces in terms of land ownership: the public and private.

The urban public open spaces are almost always linked together via the integrated network of pathways in which streets, avenues and alleys are physically connected and allow, in theory, the user access to both buildings and open spaces linked to them, but also for other public spaces such as squares, parks, etc.. Because of this integrative role, and considering the fact that much of everyday urban life occur in the set of routes, they can be considered as the most important public spaces of any city.

Public open spaces are unrestricted to all those within public ownership, with different degrees of accessibility and appropriation. In Brazil, using the property definitions established by the Civil Code, three types of public open spaces can be identified:

  • “Bens dominicais” – Dominicais – are public spaces suitable for transfer of ownership
  • “Bens de uso especial” – Special use – targeted to specific activities (school or a prison open spaces, for example).
  • “Bens de uso comum do povo” – Public use – spaces for public use (street, square, city park, the beach, etc.)

The public open spaces are a subsystem within the open spaces system. As stated in previous paragraphs, the main space is the street, a fundamental connection in the city, where important daily activities of urban society occur. Other types of spaces such as parks, plazas, promenades, boardwalks, urban forests, nature reserves, caves, informal soccer fields, lakes, beaches, etc.. complete this system.

The private open spaces are those embedded within particular areas with access not available or with special permissions granted for partial areas.

Such spaces form a subsystem inserted into the urban open space systems. Gardens, yards, parking lots, loading and unloading yards, private forest reserves, private soccer fields, business parks, etc.. part of this system, unlike the public spaces, only rarely are physically connected to each other, and are extremely fragmented and spread throughout the urban tissue. They are frequently isolated by walls and fences, usually inaccessible, trapped in the middle of city blocks, separated from the street by  building blocks.

The contribution of this subsystem to urban environmental demands varies but it is essential to confront the issues of drainage and slope stabilization due to the shortage of public spaces in the Brazilian cities.

They add up to the majority of private spaces as courtyards, corridors, between the existing buildings and crucial to the daily life of the population.

Sílvio Macedo, 2005

It is on these spaces that happen every day some of the recreational activities and domestic services such as washing and drying clothes, children’s games, the cultivation of plants, car parking, car washing, etc.. These activities are therefore complementary to the life that occurs inside the buildings.

We observed densely built lots and a high degree of land-sealing with excessive pavement of open spaces. For everyday conveniences, both owners and renters do not hesitate to reduce the existing open space on the lot. This behavior is independent of the use. It could be observed in residential, business, commercial or industrial uses. The private open space is handled as if it were only reserve for the future expansion of the building.

 

The landscape and the open spaces system

Landscape is understood here as the morphological expression of the transformation of physical space by the social and environmental changes within a given space-time.

The Brazilian city does not have a standard form and this fact can be determined primarily by the shape of the urban patches and for the insertion in these physical support that induce different landscapes.

Is defined as urban patches the built area contained within the perimeter of an urban sprawol, independent of the size and the extent of urbanization: village, city or metropolis.

Cities according to their urban patches can be presented in four different ways, namely:

I – linear – found within valleys embedded in middle of hills and high declivity slopes, sea and river borders and even along roadsides.

II – tentacular – structured by a compact core which irradiating arms of urbanization along street or water lines.

III – mixed – the most common type.

IV – compact – Elder cities, which originated from any of the three previously indicated ways, whitch growth will take a compact and continue form.

These denominations are mere references towards a more detailed classification in accordance with the open spaces systems and the whole of the urban sprawl.. They are:

I – Open spaces system within a compact urban spread, as in the cases of São Paulo and Belo Horizonte.

II – open spaces system within a fragmented and discontinued urban area, spread over two or more units, as in the case of metropolitan Campinas.

III – open spaces system within an urban area fully or partially discontinued by large scale natural elements, as the case of Rio de Janeiro and the Florianópolis insular territory.

IV – Open spaces system within a discontinuous urban area totally or partially fragmented by scattered natural elements, such as in Manaus and Palmas.

In the case of natural structures discontinuity, it results from the presence of various physical support elements such, estuaries, ponds and dunes or from woods or forests spreads.

Many of those formats may last as a result of growth impediments due to grades and water ways, even those modified by fast urban sprawl through areas with modest physical support elements, due to population growth and economic activities

Large metropolitan areas faced physical barriers to grow, like São Paulo dealing with the flooding of large areas along its river beds, or Rio de Janeiro, by means of landfills on the ocean shores, swamps and mangroves, altering its urban spread altered by technology, regardless of its physical support limitations

Each urban configuration presents a set of tissues and a specific open spaces system, with similar characteristics due to origins and cultural, urban, landscape and economic patterns. Previously mentioned images indicate systems components, with diverse urban tissues indicated as a blotch within a mesh of streets and traversed by green spots indicating parks and squares and blue strips for river basins.

Obviously, such schematic indications are simplistic, but provide available structural indicatives for a specific urban sprawl.

City boundaries format and its area are directly linked to access permeability of citizens to contiguous non urbanized spaces. It is easier to reach on foot open fields, wooded areas and neighboring hills in Santa Maria on Rio Grande do Sul due to its linear and narrow configuration than for a citizen of São Paulo, wide and compact, requiring several hours to do it.

Presented below are the maps resulting from the research of open spaces on target communities.

São Paulo-SP

Open Space Systems for the municipality of Rio de Janeiro and São Paulo

Sea coast linear cities, with compact urban areas, equally allow for easiness of access to the beaches for its inhabitants, such as in Vila Velha (ES) and Praia Grande (SP). In the case of Rio de Janeiro, also linear in configuration, the Tijuca range of hills hampers easy access from inland to the beaches, requiring tunnels and freeways to conquer those barriers.

Aerial view of Vila Velha, Espírito Santo. Photo: Silvio Macedo, 2007

 

Systems modes

Every Brazilian city has an open space system, resulting from the growth of the urban nucleus. Usually open spaces result from local land parceling practices resulting in street webs and public spaces, rulling out the possibility to define a priori, when and where open spaces for parks and plazas should be planned for, increasing the prevailing dependence on market variables to do so.

Standards for the constitution of open spaces, streets, avenues, parks and plazas, are rare. That leads to a non-egalitarian distribution of future public open spaces, totally dependents on future decisions on land parceling and destination of public spaces.

Only under fully planned urban situations, together with rigid control over implementation practices, either under government or private rule, it is reasonable to expect an equitable distribution of proposed types of open spaces. This has been the case for Palmas, Maringá, Brasília and Boa Vista. Nonetheless this appropriate distribution does not allow for articulation and complementarity between open spaces, as a quality system requires.

Under contemporary Brazilian urban practices, large private enterprises assume the role of providing for open spaces systems usually adequately qualified, but as a common fact, introduce highly controlled low accessibility, weakening and even hampering general and public use. Such enterprises are coming to life not only on capitals and big metropolitan areas, but also in midsize cities such as: São Carlos, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, São José dos Campos and Londrina, between other examples.

Open Space Systems for the municipality of  Ribeirão Preto, SP.

There is a growing market dependence on the constitution of open spaces systems, especially for the high classes. More and more condominiums and fenced parceled land are offered on the second decade of this century, intra or peri urban enterprises for vast urban areas, offered and sold as “green, quiet and safe”. On an informal and illegal format their restrict use and access inhibit the production of true public spaces.

As a result closed condominiums allow for an urban and social status symbol and the disavowal of public life spheres for contemporary cities on the beginning of this century. Enterprises keyed on higher classes include some adequate green coverage, treated gardens, ponds and equipments like pet shops, golf courses, spas and even churches and markets.

The remainder of the system is filled by private property of intra parcel and intra block spaces for private or collective restrict access, that are really significant parts of the open spaces for each city, and we can affirm that private action on the production of open spaces in Brazil is vast and includes all social classes, leading to the creation and management of their own open spaces individually and disconnected from the remaining urban tissue.

Belo Horizonte                                                                       Belo Horizonte

Open Space System                                                             Income

Open Space System and distribution of income for the city of Belo Horizonte. Source: Income Map was prepared by Prof. Dr Manoel Lemes da Silva Neto the other map were drawn by the research team SEL-Quapa

Thus, the formation of each system is dependent on the mode of urban space production and follows three basic formats:

  1. Formal or forecasted – rare, it is the case of planned cities, with Brasília and its satellite townships as the complete and most emblematic example; historic nucleus of railway era cities of the State of São Paulo, coffee era cities on the north of Paraná State, Palmas, Goiânia, Belo Horizonte old Downtown area, etc.

 

Open Space Systems for the municipality of Palmas, TO.

  1. Informal – the most usual comes to life as the urban tissue constitution, resulting from social actions of diverse urban space, public or private entrepreneurs. It deals with proposing urban schemes by adding new streets grids and land parceling, with public financing of street implementations and construction of other open spaces as, squares and pedestrian walkways. The grid is promoted by private initiative, state regulated or not as in the “invasions” of public land by favelas and clandestine land parceling.

Silvio Macedo, 2006

  1. Parcial –   in a distinct way from the usual informal processes, answering to a specific demand of an urban segment, such as in Barra da Tijuca in Rio de Janeiro, Riviera de São Lourenço in Bertioga (SP), of Pedra Branca condominium at Great Florianópolis, etc.

Open Space Systems for the municipality of Rio de Janeiro – RJ.

Aiming at the urban as a whole, resulting from an Urban Plan or open areas plan, that is, on top of a consolidated urban network, studies are made on open spaces demand, a plan is prepared and from that position action are proposed to increment the system. That is the case of the city of Campo Grande, by means of a 1980 plan identified and preserved areas for a linear parks system executed 20 years later, on the first decade of the XXI century.

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Open Space Systems for the municipality of CampoGrande – MS.

The qualitative increments of open spaces systems has been a reality for the first decade of the XXI century, expressed by the following points within the public sector:

  • Highlighting environmental issues on urban plans,      promoting a variety of open spaces dimensions, linked to the preservation      of natural resources. From those principles are created a number of      diverse linear parks, and preservastion and conservation areas.
  • Instituting urban environmental protection áreas      (APPs) as a sure fact. From the end of the XX th century the rules for the      implementation of rural APPs are validated for the urban environment,      inducing the recuperation of waterways, eliminating irregular occupation and      the return of vegetal border protections.
  • on amplifying actions on natural resources      conservation, like mangroves and urban forests, specially after the issuin      of 1988 Federal Constitution. Until them such actions were rare and      punctual and gear up for improvement since them. Considering the mentioned      facts under this item and the one before it, we have:
    • from 1990 on APPs and Conservation Units (UCs)       increase in numbers under various formats and sizes;
    • open spaces on a private       setting are upgraded in status under urban codes, on part of the       communities, with the resulting increase in demands to realize their       erxistence. Zoning legislation becomes an induction force on the creation       of private open sapces, specially os closed parcelments, as well as in       large scale horizontal and vertical condominiuns;
  • on setting up and maintenance of the integity      of conservation áreas and leasure systems, in order to protect hidric      networks;
  • on sizeble public investments for the      recuperation of áreas destined to house parks and environment protection,      invaded by low income population, specially those by the river      borderlines;
  • on various urban forestation projects and      programs, that nonetheless do not contribute in a more effective way with      the spatial and environmental constitution of spaces such parks and      squares and are limited by difficulties on finding adequate places for      tree planting on public spaces;
  • on the assumption that parks and squares have      become the most common public open spaces in Brazil, due to the growing      production of new parks, linear parks and treated seaside walkways or the      consolidation of a sport square as a standard for the investment in such      neighborhoods;
  • On seaside communities, beaches and seaside      lanes that might be attractive to domestic or foreign turism, receive makeover      efforts, bikeways and equipments for sports and gymnastics.

Side by side with all that, public spaces demand increases despite the existing “fear” syndrome. Urban space use conflicts abound on contemporary cities, highlighting dangerous areas and the exposure to physical violence and robbery on squares and beaches, but do not hinder the continuous increase in use of public spaces under new modes such as walking and skating, including in the poorest of the areas.

It is also noticeable the open spaces systems quality increase on the same period, considering the private sector production:

  • on the continuous increased presence of the      private significant actions on the production of urban open spaces in      Brazil involving every social substract, creating and managing their own      open spaces with a selfish approach and disconnected of the existing urban      network;
  • a large amount of open air activities occur      behind walls and it is very strong the presence of gyms, clubs and      shopping centers on dayly leasure;
  • decrease on intrapoperty open spaces;
  • On the introduction of low density, vertical      áreas, equiped with large áreas ocupied by colective leasure equipments;

Final Considerations

After 5 years of research it is possible to identify the theorethical-conceptual progress on the subject, primarily on the relationship between open space systems and the contemporary public environment. The research allowed for the stablishment of urban open spaces systems evaluation principles  together with the creation of criteria to propose rules and regulations on the open spaces systems qualification.

It is proper to pay attention to the fact that all procedures mentioned before were added to new others, perceived and processed by the national research network. The researchers commitement resulted in thesis, dissertations and involved a number of graduate students under scientific initiation programs;

Workshops as well as annual encounters of the research network, its researchers and public agents, promoted and allowed for the preparation of reference texts for the whole group and the overall Brazilian scientific community.

As a concrete result it was developed an evaluation process and a set of thematic maps on the subject of open spaces systems for the 25 cities included on the research. Concepts and methods were developed with and around the collective work incorporating regional nuances and dealing with cultural differences.

After the annalysis of brazilian cities we think that in order to reach urban spatial quality it is necessary the presence of generous urban open spaces, that is, beyond quantitative aspects, it is necessary that they be diversified, with good projects, answering to the variety of social demands as far as tree coverings, equipments and maintenance procedures. It has been identified that the public environment development is in need of easily accessible open spaces.

The research also considers that open spaces are essential to overcome the major environmental problems facing Brazilian cities and, simultaneously, open spaces are fundamental basis for the building up of a truly just and democratic society.

References

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[1] The Design Department Laboratory of the Architecture and Urban Planning Faculty, covers issues related to landscaping, as open spaces and landscape studies.