Por uma vida independente

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Um casal de idosos está em uma cozinha preparando alguns alimentos. Fim da descrição.
Arquitetura pode garantir qualidade de vida e independência na melhor idade (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

Todos nós queremos ter uma vida independente ao longo de toda nossa vida. Infelizmente, mais cedo ou mais tarde, o corpo começa a perder as habilidades que tanto demoramos a conquistar e começa a ‘reclamar’ com uma dorzinha aqui e uma fisgadinha ali… uma hora porque a tomada parece que ficou mais baixa do que o usual, para levantar do sofá macio o encosto para os braços é necessário ou ainda a parte superior do armário parece inalcançável…

 

Vida independente na melhor idade

Mais cedo ou mais tarde, a casa em que moramos precisará de algumas alterações para poder nos servir de forma mais eficiente com o passar dos anos. Projetar a independência no lar faz-se necessário, quando não, inevitável…

Ao pesquisar aqui por nossas terras a existência de profissionais e escritórios de arquitetura que atendam às especificidades funcionais e necessidades de pessoas mais maduras (conceito sugerido pelo meu colega arquiteto Cidomar), deparei-me com a baixa oferta frente à demanda atual e também futura. A pesquisa também apontou que em alguns casos, o passar dos anos é associado ao envelhecimento e à doença, quase como se fossem sinônimos. Trata-se de uma postura absolutamente equivocada e reducionista para abordar o assunto.

A independência e a capacidade de agir livremente são fundamentais para a qualidade de vida de qualquer ser humano. É possível que doenças crônicas relacionadas à idade possam ocorrer não necessariamente interferindo sobre a mobilidade e habilidades funcionais do corpo ou do intelecto.

Os princípios de desenho universal podem e devem ser utilizado por qualquer profissional de arquitetura e design para a qualidade de vida das pessoas, mas, sozinhos não são capazes de servir de apoio para a sonhada independência.

Ainda que na mesma habitação, o ‘habitar’ toma diferente formas com os anos. Mudam os pensamentos, o estado do corpo, as qualidades e atributos que moldam e definem aquela pessoa e com ele o seu jeito de ser e ver o mundo. Os anos trazem novidades e com elas formas de habitar. Embora o investimento e os tipos de moradia variem muito de uma para outra cultura, países como Inglaterra, Canadá e Estados Unidos apresentam tanto empresas privadas quanto políticas públicas de atendimento à demanda de assistência por tipos de serviço necessários para uma vida independente. São planos e programas que oferecem serviços de assistência diversificada, incluindo opções de habitação, que se adequam aos estilos de vida, saúde e condições financeiras.

Aging in place ou ainda permanecer morando em sua própria casa ao longo de toda a sua vida é uma opção bastante atraente e desejável. A grande vantagem dessa situação é manter-se em local familiar, perto de seus vizinhos e num bairro cujos serviços, comércios são conhecidos facilitando uma vida social autônoma. Nesses casos, os planos oferecidos pelas empresas asseguram serviços de cuidado e manutenção da casa com o objetivo de tornar a vida mais fácil e segura ao morador. Os serviços incluem desde reformas e adaptações de toda a casa até serviços de limpeza e alimentação.

Uma segunda forma de morar é a coletiva e colaborativa. Em vilas, comunidades, residenciais horizontais ou verticais, são condomínios especializados que oferecem programas e serviços especializados como transporte, supermercado, ajuda em tarefas domésticas, cuidados com a saúde e uma rede de atividades sociais (recreação, teatro, viagens, visitas e uma infinidades de atividades culturais) com outros membros do lugar. Nesses casos, diferentemente da casa e mesmo com vida independente, são residenciais projetados exclusivamente para adultos mais velhos e que não desejam cuidar de uma casa ou morar sozinhos. Levam o nome de retirement communitiesretirement homessenior housing ou ainda senior apartments.

Outra forma de morar é conhecida por assisted living residence. Trata-se de uma residência coletiva para adultos que optam, por diversos motivos, por não viver de forma independente. Nos estados Unidos é tratada como uma indústria de vida assistida ou ainda de prestação de serviços altamente especializados que viu seu negócio evoluir do modelo de cuidados pessoais em saúde (com foco em enfermagem como exemplo) para um modelo com foco na sociabilidade e também com cuidados pessoais e saúde.

Mais do que atender aos princípios do desenho universal, esses profissionais deverão estar preparados para a prática do Transgenerational Design. Cunhado em 1986 por James J. Pirk, o conceito trata da prática de conceber e tornar produtos e ambientes compatíveis com os impedimentos físicos e sensoriais associados ao processo de envelhecimento humano e que podem vir a limitar as principais atividades da vida diária quer no lar, quer no ambiente de trabalho que em ambiente social. Coincidência ou não, o conceito surgiu em meados dos anos 1980 paralelamente à concepção do desenho universal como subproduto da Lei denominada Age Discrimination Act of 1975 (ADA) que proíbe uma espécie de “gerontophobia” ou ainda a discriminação com base na idade em ‘programas e atividades que recebem assistência financeira federal’ ou ainda excluindo, negando ou fornecendo serviços diferentes ou de qualidade inferior tendo como base a idade. Empresas como a Microsoft e Intel vêm desenvolvendo produtos ‘amistosos’ para o uso de pessoas com idade mais avançada colaborando na diminuição da tendência de associação do processo de envelhecimento ao de deficiência, declínio ou incapacidade frente às situações de vida.

Embora as oportunidades de investimento e negócios sejam promissores para as próximas décadas, a formação dos profissionais nas áreas de constrição civil, negócios imobiliários, planos de saúde e assistência doméstica para pessoas maduras, precisarão ampliar o leque de produtos e serviços para atender a uma população exigente e com estilos de vida bem mais abrangentes e interessantes do que aqueles tradicionalmente oferecidos como ‘casas de repouso’, ‘cuidadores’, enfermeiros, homecare, flats para terceira idade entre outras variações.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

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Sob a mesa dos sonhos

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Uma série de pernas de mesas em um restaurante. As mesas são de madeira escura e as toalhas são brancas. Fim da descrição.
Arquiteta destaca o absurdo da falta de acessibilidade das mesas (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

Outro dia, ao colocar as leituras do meu twitter em dia, um dos títulos e foto me chamou a atenção: a mesa dos sonhos de todo o cadeirante! Pensei: já li e ouvi sobre vários tipos de sonhos de consumo… carros, aviões, castelos, viagens, nem sei mais o quê… de minha parte, ando sonhando com 30 minutos diários de sossego destinados só para mim…. Egoísmo? Pode até ser, mas como mercadoria escassa, não encontro.

Voltando ao assunto: mesa? Por que mesa? Deve ter um tremendo design exclusivo, sei lá. Fui atrás do link. Encontrei o amigo @Fred_Rios lá no blog Acessibilidade na Prática. Pensei: preciso entender melhor essa história. Não nos conhecemos pessoalmente, mas trocamos ideias pelas redes sociais faz tempo. Gosto, em especial, da Multa Moral. Mas isso é prosa para outro dia.

Morri de vergonha, literalmente. Como pessoa, como empresária, como educadora e como profissional de projeto. Logo de cara, ele escreve: “entre os vários perrengues que passo por ser cadeirante, um dos que mais me tiram do sério é a falta de mesas acessíveis para fazer uma simples refeição. São raros os restaurantes, lanchonetes e praças de alimentação onde consigo me acomodar adequadamente com a cadeira de rodas, sendo necessário, muitas vezes, ficar de lado na mesa, me posicionar muito distante da comida ou até mesmo pedir ajuda para outra pessoa, já que não tenho destreza nas mãos”.

O quê? Como assim gente? Que absurdo! O cara quer sair de casa, tomar um lanchinho sozinho, com os amigos, com a mulher, os filhos, o cachorro, o vizinho, ou seja lá com quem for e não consegue por causa de uma mesinha? Ou ainda, o cara vai até o bar, restaurante, lanchonete, churrascaria, pub, casa de shows ou em qualquer lugar que ele quer ir para consumir como eu e você e a tal da mesinha à toa não permite que ele se sente e consuma como eu e você? Que horror! Como diz minha colega Thais Frota: “a deficiência está no projeto do ambiente e não na pessoa que não consegue usar o espaço”.

Designers de interiores e arquitetos leitores: será que precisamos queimar muitos neurônios ou necessitamos de muito esforço intelectual e capacidade criativa para disponibilizar mesas que permitam que um usuário, que traz sua própria cadeira, possa sentar-se à mesa como seus amigos e desfrutar de bons momentos? Será que a gente precisa de lei para projetar para pessoas com habilidades funcionais do corpo diversificadas? É tão difícil assim?

Já sei que vai ter colega falando: “ah… mas o cliente pediu para colocar mais mesas, e uma cadeira ocupa mais espaço”, ou ainda, “onde é que eu vou encontrar mobiliário adaptado?”

GENTE, para com isso! Além dessa asneira, tem outras mais que não vou colocar nesse breve espaço. É certo que muitos indivíduos necessitam de tecnologias assistivas, mas também é certo que, muitas vezes, um pouco de bom senso ajuda. Nosso tempo é precioso demais para ficar me estendendo com explicações estapafúrdias (que ouço todo santo dia) de quem nunca será bom profissional. As normas estão todas aqui. Móveis comerciais ou exclusivos têm aos montes: de preços, modelos e materiais diversos. É só procurar e utilizar nos ambientes criados. Se não tiver disponível, é só projetar, detalhar e mandar fazer. É o que sabemos fazer: projetar sonhos.

Repentinamente lembrei-me de uma frase do meu falecido sogro. Homem astuto, afeito a negócios, fez família e algum dinheiro mesmo sem nunca ter estudado. Ele não se cansava de repetir: “dinheiro não tolera desaforo”. Verdade. Nunca esqueci. E em tempos bicudos como os de hoje, a frase soa ainda mais verdadeira.

Recentemente estive com alguns amigos em um restaurante aqui em São Paulo. Quando criança, meu sogro levava os filhos. Meu marido fez o mesmo. Meus filhos já estão repetindo a mesma ação. São três gerações. Na noite em questão, observei algo que me chamou a atenção. Talvez ainda estivesse fresco na minha mente o assunto da aula da manhã. Havia falado sobre o processo de envelhecimento e, com ele, a perda natural de algumas habilidades físicas. O ambiente estava repleto de famílias compostas por várias gerações de indivíduos. Do meu lado, tínhamos uma mesa bem comprida. Nela estavam compartilhando a refeição, as risadas, as conversas e as lembranças os bisavôs e bisavós (que trouxeram suas cadeirinhas de casa e estava comendo na mesma posição que os demais), avós, filhos, netos e bisnetos. Lindo de se ver. E não era um caso apenas. Cerca de um terço do restaurante estava assim. Chamei o gerente:

– Lindo seu restaurante! Várias gerações! Gente de todas as idades.

No que ele responde:

– A senhora viu? A gente trocou a decoração! Estava na hora, né?

Ele só ouviu o “lindo” ao que parece… Olhei para todos os lados e não vi nada diferente… “Bacana! A iluminação… As toalhas… Bem legal…” Tipo… o que é que eu falo agora para ele?! Não estou vendo nada novo aqui…

O gerente: “Ah… As toalhas! Muito observadora a senhora! Nenhum cliente percebeu isso. Só a senhora! São iguais às outras, que eram iguais às outras e por aí vai… (rindo alto). O Sr. Mário é clássico. Não muda nada há décadas. Mas as mesas… essas sim! Trocamos algumas mesas!”

Mas do que é que esse homem estava falando? Debaixo das toalhas, tem mesas. E daí? E alguém vai ficar olhando o modelo da mesa debaixo das toalhas? Já vi a cena: Helena entra no restaurante com o marido, filhos e amigos. Helena, senta-se. Helena, morta de curiosidade para ver o que há sob a mesa tenta, sorrateiramente, olhar por debaixo da toalha. Helena não consegue ver nada. Helena já impaciente abre mão dos modos civilizados e, num rompante, levanta as toalhas e guardanapos. Cai uma taça. Impassíveis, as demais pessoas sentadas à mesa fingem não ver. Helena observa a mesa e diz: “Oh! É nova!” NÃO FIZ ISSO, ok? Ainda tenho um pouco de juízo. “É”… Respondo eu… “Legal. As outras não estavam boas?”.

– Estavam sim! Não sei se a senhora percebeu… Tem gente que está bem velhinha e vem aqui com a família. A família cresceu e eles continuam vindo aqui. Alguns têm cuidadores, outros não precisam. Antes eles vinham a pé. Agora também vem, mas trazem a cadeira junto. As mesas agora têm quatro pernas. A cadeira entra melhor. Os cadeirões para os bebês também entram melhor. Aliás, a senhora viu como esses jovens estão cada dia mais altos? Com as novas mesas, eles não batem os joelhos e nem ficam mais comendo com o corpo retorcido tentando alcançar o prato. Ficam mais tempo e pedem sobremesa dupla. Ah! Tem as mesas redondinhas também… A gente mandou colocar um tampo maior. Agora todos comem junto. A gente tem que preservar o cliente, né? Toda semana tem alguma comemoração. Uma hora é aniversário, outra hora é um noivado, depois estão comemorando a faculdade nova do neto, se despedindo do bisneto que vai trabalhar na Europa… Já pensou se eles deixam de vir aqui e vão ao concorrente do lado só por causa de uma mesa? Não dá, né? Dinheiro não nasce em árvore… (rindo alto).

Homem de negócios. Ação simples, direta e objetiva. Dá para ser um ambiente bacana, cool, virar tendência ou entrar no circuito da moda com ambientes bem projetados e que atendam todas as pessoas.

Fred, nesse bate-papo, acho que concordamos no seguinte: sair para curtir uma boa companhia e “passar perrengue” num ambiente desconfortável, definitivamente não dá. Além da óbvia falta de respeito para com as pessoas, os donos do negócio também não sabem “fazer dinheiro” como diria meu sogro. Estão jogando cliente fora. De minha parte, continuarei como você batendo na tecla da necessidade de boas práticas projetuais. Ensinando, como a Thais que bons projetos, são sempre bons projetos porque atendem as necessidades de todos os clientes. Com conforto, funcionalidade, bom gosto e elegância.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

 

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Uma poltrona com estrutura de madeira, com estofado bege escuro, e com uma almofada com estampa bege e dourada. Ao lado, vemos uma mesa de madeira, com um arranjo de flores. Fim da descrição.
Arquiteta alerta para a importância de consultar um profissional antes de comprar um imóvel (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas* (FONTE PORTAL ACESSE)

Sábado à tarde. Assistindo Game of Thrones. Aceitei a sugestão dada por meus aluninhos pelo Facebook. Imaginei que um pouco de sangue, não me faria mal. A realidade em nossas cidades é bem pior do que a ficção. Aninhada no meu sofá, estou entre meus cães macios e perfumadinhos; com uma das mãos seguro uma xícara de chá e, com a outra, pego o controle da TV quando… Toca o celular. Contrariada, atendo com aquele humor que só quem me conhece bem, é capaz de entender e perdoar.
_ Helena, é você?
“Não”, pensei em responder… “Quem tá falando aqui é a Ricotinha, o pet da Helena… como ela se deu ao direito de assistir um filme depois de uma semana de trabalho infernal, resolvi dar um tempo para ela e atendi em seu lugar…”.  Mas, em nome da civilidade e cordialidade, resignada, atendo educadamente. “Sim, quem é?”… Do outro lado, apresenta-se o Pedro. Diz que precisava do favor de um arquiteto e que foi encaminhado por minha vizinha Maria Clara. Não lembro e não conheço a Maria Clara. Nem os meus 52 vizinhos. Acostumada a trabalhar com voluntariado em arquitetura e, com o firme propósito de não estender ainda mais a doce conversa, rosno: “como posso ajudá-lo?”.
_ Vou comprar meu primeiro apê. Não posso errar. A senhora é arquiteta. Pode me orientar?
Quase caí prá trás… Há anos tento explicar a necessidade de se contratar a consultoria de um arquiteto para acompanhar os futuros compradores de imóveis na difícil tarefa de encontrar o lar que vai abrigar suas vidas por um bom tempo.
_ Que ótimo! É uma situação bastante rara essa!

Surpresa com o pedido, perguntei o motivo de procurar um profissional para acompanhar a visitação que antecede a compra.
_ Sou usuário de cadeira de rodas e preciso saber se de fato consigo me locomover dentro do meu novo apê. Foi difícil conseguir o dinheiro, o crédito, o financiamento… A senhora sabe, né? Dinheiro não nasce em árvore!
Muito sábio o pensamento. Tem razão ele. Combinamos de nos encontrar no mesmo dia. Para minha felicidade, o tal empreendimento era próximo de minha casa.  O som de bate-estaca dos últimos meses vinha de lá. Dava para ir a pé. Com um pouco mais de sorte, voltaria a tempo de me jogar no sofá e assistir a série. Cheguei ao local. Fantástica a capacidade de criar cenografias e transformar a leitura de plantas em evento. De cara, sou recebida por jovens sorridentes que nos oferecem sorvetes, café, brigadeiros, cupcakes, toda sorte de gordices que ninguém recusa. Só eu, na minha eterna dieta. Paciência. Encontrei o Pedro. Beirando seus 30 anos, sorriso de canto a canto estampado no rosto, falava sem parar de seus sonhos e não via a hora de estabelecer-se longe da república que dividia com os amigos. Tinha um excelente cargo na empresa onde trabalhava e podia vislumbrar a materialização de seu sonho.
Rapidamente, fomos atendidos por um corretor que se dispôs a falar sobre as maravilhas do empreendimento. Mostrou a maquete, falou do conjunto de espaços que levariam os futuros moradores a incríveis ‘experiências urbanas’… Deck,  solário com bangalôs, piscina com raia, arquibancada com vista para o urban skylinespa centerjapanese gardenfitness centerpet corner, sauna seca e úmida com vestiários, concierge, horta comunitária, jardim dos temperos, manobrista, hub bar, sala para reuniões, eventos,coworking e por aí vai. Já cansada da conversa toda e com muita vontade de acabar com a brincadeira, pergunto: “o senhor pode, por gentileza, me fornecer as plantas das unidades adaptadas disponíveis com as medidas, por favor?

Silêncio

Fechou o tempo. Azedou o clima. O corretor me olhava como se estivesse na presença do anticristo. Chamou o chefe. O chefe chamou o coordenador de área. O coordenador de área chamou o coordenador do evento. O coordenador do evento disse que ele era responsável pelos eventos e não pelas plantas. Ligam para a incorporadora. De lá alguém pede para falar com o arquiteto responsável. O arquiteto, na verdade, era uma empresa imensa composta por inúmeros profissionais de marketing, arquitetura, engenharia, direito, administração entre outros. Como era sábado, eles não tinham a tal planta.
Dirijo meu olhar para o Pedro e pergunto, depois de 50 minutos de espera e, agora sim, com a expressão de anticristo estampada na face, se ele poderia me contar qual era o sonho dele para o seu futuro lar. Ele conta. Fica fora de casa praticamente o dia todo e só volta para dormir. Aos finais de semana ‘cai na vida’ ou viaja com os amigos. Vez e outra, almoça na casa dos pais. “Vai cozinhar?” pergunto. De pronto vem a resposta: “nem morto e se tiver que lavar louça, prefiro jogar fora. Dá pra colocar uma mini lava-louças?” … Ok, pensei, precisa de espaço e instalações de elétrica e água para isso. Não estava na tal planta disponível para todos. “Vai lavar sua própria roupa?” Responde: “ternos, camisas e calças sociais pretendo usar o laundry delivery oferecido pelo concierge do empreendimento. O resto, lavo e seco em casa.” Feliz, corretor, coordenadores, gerentes e nem tão sorridentes jovens, ficam felizes com a resposta do futuro comprador.

“Já entendi”, respondo. Tranquilamente e, já sabendo que meus próximos atos seriam motivo de vergonha para meus filhos, alunos e até amigos, saco de dentro da bolsa um escalímetro e uma trena.

_ Pedro, qual unidade você quer comprar?
_ A que me der menos trabalho para eu limpar e aquela que couber o que eu preciso para viver. Acho que a de 32m². Cabe no bolso.

“Ok”, digo eu. “Primeiro você precisa ter condições de se locomover dentro dela com sua cadeira, certo? Depois, gostaria de saber se você se incomoda de andar de ré ou de costas para entrar nos espaços…”.

_ De ré? Como assim? Cabe direitinho. Tá aqui. Não tá vendo?

Pego o folder de divulgação e começo a fazer o que meu trabalho exige. Digo: “Pedro, os móveis do folder estão fora de escala”

_ Estão o quê? Pergunta ele.

_ Não estão do tamanho certo. A medida do apartamento sim, mas os móveis não estão.

_ Estão tentando me enganar?

_ Não sei. Pergunte para eles.

Com a trena em mãos, mostro para ele a realidade daquilo que o folder tentava vender.

_ Está vendo, Pedro? Você terá 32 cm entre a parede e a cama no seu quarto. A não ser que você entre pelo pé da cama e vá escorregando até a cabeceira, a cadeira não passa…

_ Mas na imagem, parece que dá.

_ Parece, Pedro, mas não dá. Está vendo o que vem escrito aqui? Que todos os móveis, equipamentos, louças, metais e revestimentos de pisos e paredes são meramente ilustrativos e estão sujeitos à alteração. O mesmo pode ocorrer durante a obra por causa das compatibilizações técnicas. O que você está vendo e os demais futuros compradores estão aqui vendo também (já com cerca de dez pessoas me olhando atônitas enquanto eu desenhava ‘no ar’ e mostrava com a trena os espaços) é quase uma obra de ficção. É uma ilustração. Só isso. Bonita, né? Bem feitinha…

Continuei… “No banheiro, é esse o tamanho. A cadeira entra de ré. Se precisar ir até o box, não consegue. O giro completo, nem pensar… acho que não vai dar para tomar banho… Para adaptar o banheiro, colocar uma máquina lavadora e secador de roupas, além do espaço para esquentar uma comidinha rápida, você irá sacrificar a sua sala de jantar ou a de estar, talvez… não é difícil. Dá para fazer. Você terá que projetar e mandar fazer os móveis numa marcenaria para esse seu apê. Não vai dar para comprar móveis prontos. Eles não irão caber… nem para você e nem para quem está nos olhando enquanto conversamos”.

Minha pretensão de assistir Game of Thrones estava cada vez mais difícil, graças ao tempo que eu estava disponibilizando com ele e agora mais do que isso: tirando dúvidas e dando a consultoria de graça para os demais futuros compradores que estavam por lá…

Terminada a visita ao stand de vendas, dirimidas as dúvidas, vejo o Pedro titubeante, tentando me perguntar algo.

_ Diga rapaz, qual é a dúvida?

_ Obrigada por me ajudar. Mas é que eu vou precisar fazer novas visitas. Se eu tivesse feito à visita sozinho, eu teria investido minhas economias num apê que eu não conseguiria morar. Quanto custa sua consultoria? É caro, né? Você divide o valor? Em quantas vezes?

#Morri

Pergunto: “Você parcela a consulta do seu psicólogo ou do seu oftalmologista?”

“Não”, responde ele.

No final, expliquei ao Pedro e aos demais que permaneciam me ouvindo, a importância de consultar-se com um profissional da área não apenas na escolha do imóvel, mas principalmente quando da entrega das chaves. É fundamental ler o memorial descritivo do imóvel e conferir se o que está sendo entregue é exatamente aquilo que foi comprado. Em alguns casos, não é. Quanto ao valor, reitero: se a consulta de um médico não é cara, a de um arquiteto, também não é. Os valores equiparam-se. Os resultados interferem diretamente na qualidade de vida daqueles que irão construir seus lares e realizarem seus sonhos neles. Eles precisam, no mínimo, caber. Um projeto é cobrado de forma diferente. Depende do tipo de serviço contratado.  Ainda assim, vale a pena perguntar a um profissional.

Para o Pedro e para os demais ouvintes que presenciaram a situação inédita, encaminhei os nomes de ex-alunos e colegas.

Voltei para casa. Ricotinha e Chanel me aguardavam no sofá. Peguei a melhor louça da casa. Preparei um novo chá. Enfim, assisti ao primeiro episódio.

O Pedro? Comprou o apartamento com área maior. Tinha até uma varandinha. Os espaços foram projetados por um colega meu para ele. Seus sonhos caberão em seu novo apê.

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

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